Imagens das câmeras corporais dos policiais militares presentes no apartamento onde a soldado Gisele Alves Santana foi encontrada morta no Brás (SP), em fevereiro, mostram o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto chorando ao afirmar para os agentes que a esposa era uma “menina do bem, honesta, trabalhadora e digna”.
As gravações obtidas pela CNN Brasil revelam a sequência dos acontecimentos no dia da morte da policial, inclusive o relato do oficial que conta com a versão dele sobre os fatos. Na ocasião, Geraldo afirmou que havia decidido se separar na manhã daquela quarta-feira (18) e já tinha comunicado a decisão à Gisele.
Geraldo conta aos policiais ainda que o relacionamento de ambos estava desgastado e que já dormiam em quartos separados há meses. Ao longo da conversa, ele cita todos os custos que teve com a relação, incluindo aluguel, água, luz, gás, mercado e a ajuda de custo que dava para a esposa. Ele conta que arcava com todos os custos da casa e a situação “não estava compensando emocionalmente e financeiramente”.
Após relatar a situação, ele chora e relembra a esposa como uma mulher digna e do bem. “O fato da gente terminar não é motivo pra ela se matar. Ela tinha só que ter terminado”, diz chorando.
Veja conversa completa entre tenente-coronel e PMs
O tenente-coronel chega a relatar ainda que na noite anterior a morte, os dois teriam conversado bastante e chorado juntos. Segundo Geraldo, o relacionamento existia há quatro anos e que, apesar do sentimento, a melhor opção era a separação.
Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça e caída no chão da sala do apartamento com uma arma em punho. O oficial afirmou às autoridades que a esposa teria tirado a própria vida.
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Laudo aponta lesões no rosto e pescoço
Laudo necroscópico do Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo apontou marcas de lesões no rosto e no pescoço da policial militar Gisele Alves Santana. De acordo com o documento, a soldado morreu em decorrência de traumatismo crânio-encefálico grave provocado por disparo de arma de fogo.
A perícia concluiu que o tiro foi compatível com disparo encostado, ou seja, realizado com a arma muito próxima da cabeça da vítima. O orifício de entrada foi identificado na região frontoparietal direita, próximo à área temporal.
O laudo também apontou uma lesão superficial no pescoço, compatível com marca de unha, na região anterolateral direita. Além disso, foram observados hematomas ao redor dos olhos, conhecidos na medicina legal como sinal associado a trauma craniano.
Durante a análise do corpo, os peritos registraram as lesões compatíveis com pressão de dedos na face inferior, na transição com a mandíbula e no pescoço, na lateral direita, descritas como estigmas digitais.
Prisão
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto foi preso na manhã de quarta-feira (18), em sua residência em São José dos Campos, interior de São Paulo, após a Polícia Civil solicitar o pedido de prisão preventiva. O Inquérito Policial que investiga a morte da soldado Gisele Alves Santana foi concluído na terça-feira, 17 de março, e foi representado à Justiça Estadual para a decretação da prisão preventiva do oficial pelos crimes de feminicídio e fraude processual.
Na decisão da Justiça Militar, obtida pela reportagem, é indicado que os elementos juntados até o momento apontam eventuais modificações na cena do crime, que teriam sido realizadas com o objetivo de ocultar o crime de feminicídio em investigação.
Já na quinta-feira (19), a Justiça Comum expediu um novo mandado de prisão para o tenente-coronel. Ele passou por audiência de custódia no Fórum Criminal da Barra Funda e retornou ao presídio Romão Gomes.
Veja como tenente-coronel teria cometido o crime:
O que diz a defesa do tenente-coronel
“O escritório de advocacia MALAVASI SOCIEDADE DE ADVOGADOS, contratado para assistir o Tenente-Coronel GERALDO LEITE ROSA NETO no acompanhamento das investigações relativas ao suicídio de sua esposa, vem a público prestar esclarecimentos.
Ante o recente decreto dúplice de prisão do Tenente-Coronel pelos mesmos fatos tanto perante a Justiça Militar quanto pela Justiça Comum, a defesa encontra-se estarrecida pela manutenção da competência de ambas as jurisdições.
Informa que sabedor dos pedidos de prisão em seu desfavor desde a data do dia 17/3 não só não se ocultou, como forneceu espontaneamente comprovante de endereço perante a Justiça, local onde foi cumprido o mandado de prisão, ato ao qual, embora manifestamente ilegal pois proferido por autoridade incompetente, não se opôs, tendo mantido a postura adotada desde o início das apurações de colaboração com as autoridades competentes.
Informa, por fim, que já ajuizu Reclamação perante o STJ contra o decreto oriundo da Justiça castrense e que estuda o manejo de habeas corpus quanto à decisão da 5ª Vara do Júri da Capital.
Reitera que seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade.
A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, X), razão pela qual a divulgação de elementos pertencentes a essas esferas encontra limites nas garantias constitucionais, sendo certo que, no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao Tenente-Coronel.
Por fim, o escritório reafirma sua confiança na atuação das autoridades responsáveis pela condução das investigações e reitera que o Tenente-Coronel aguarda a completa elucidação dos fatos.”
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo
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Fonte : CNN