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Elisa Fernandes, influenciadora digital de cultura pop e crítica de cinema, se assumiu uma mulher trans. Antes conhecida como Bruno Miranda, ela contou com exclusividade à CNN Brasil como foi o processo de transição e todos os desafios da nova identidade.

Tudo começou há mais ou menos oito meses, Elisa, que utilizava o perfil @ocriticoqueninguempediu, na época, um homem gay, com 27 anos, não entendia o porquê de não conseguir expandir sua feminilidade. Levou isso para terapia e tentou esconder o que insistia em ser revelado.

“Mesmo antes, eu me entendendo enquanto homem gay, eu percebi que eu carregava vários preconceitos dentro de mim. É coisa minha comigo mesma, sabe?”, disse.

“É como se eu mesmo colocasse uma coleirinha em mim e falasse: ‘Olha, tá bom, você quer ser gay, então você vai ser gay até esse ponto, porque daqui não dá pra passar’”, continuou a influenciadora, que soma mais de 1 milhão de seguidores nas redes sociais.

Da virada de chave à transição

E foi assim por muito tempo, até que Elisa “queimou a gaiola” e resgatou o que há muito estava escondido.

“Eu gosto muito de usar a analogia que eu queimei a gaiola em que eu vivia dentro. E eu entendi que existia um mundo gigantesco lá fora”.

Elisa Fernandes

A influenciadora, que é publicitária, conta que, a partir das vivências, a partir dos mundos que foram se conectando, ela se entendeu enquanto mulher. 

Com essa “virada de chave”, Elisa descreve o processo de transição como algo íntimo, profundo e, ao mesmo tempo, inevitável.

“É um processo muito louco, é muito íntimo, sabe? Porque não é como se eu nunca soubesse disso. É só porque, durante a maior parte da minha vida, eu escolhi não tocar nesse assunto”, conta.

Segundo ela, por anos, essa parte da sua identidade foi mantida isolada, quase inacessível.

“Eu sempre meio que separei a minha vida por caixinhas, sabe? E essa era uma caixinha que eu deixava guardada a sete chaves lá no cantinho e eu focava em todo o restante, menos nessa parte”, narrou.

A mudança começou a ganhar força justamente quando outras áreas da vida estavam estabilizadas. Após um ano profissionalmente “realizador”, como define, Elisa se viu diante de algo que já não podia mais ignorar.

“Foi incrível, foi maravilhoso. Só que aí aquela caixinha que estava lá no fundo começou a falar: ‘Oi, olha aqui pra mim’. E eu já estava com tempo livre para pensar. Falei: ‘Tá bom, deixa eu abrir aqui. Vamos ver o que tem aqui dentro’.”

Foi a partir dessa decisão que a transição foi iniciada oficialmente. “Foi muito rápido, porque agora eu me permiti viver. É como se eu tivesse montado o terreno para abrir essa caixinha, tirar tudo lá de dentro e agora começar a realmente me conhecer”, fala orgulhosa do processo.

Autoconhecimento e aceitação

Desde então, ela define a experiência como uma jornada intensa de autoconhecimento e aceitação, marcada por descobertas diárias.

“Todo dia é uma coisa nova. Eu vou mudando a minha percepção de mim mesma. Eu nunca sei como vai ser o próximo dia, mas é sempre maravilhoso, porque eu sempre conheço uma parte nova de mim”, disse à CNN Brasil.

Foi com esse mergulho em si mesma que a vida trouxe reflexões importantes sobre comportamento e padrões que carregava.

Durante o processo terapêutico, que já dura cerca de dois anos e oito meses, Elisa percebeu que, por muito tempo, viveu tentando se adaptar às expectativas externas e que, muitas vezes, ignorava os próprios sentimentos. 

“Eu passei a vida inteira fugindo de mim. Olhando para os outros ao invés de olhar para mim.”

A mudança, segundo ela, aconteceu ao se permitir sentir, sem filtros ou concessões. Ela conta que, durante o período, recebeu apoio do círculo mais íntimo de amigos e família – o que permitiu expressar-se de maneira mais natural.

“Eu sempre fui uma pessoa que suprimiu o que sentia, eu diminuía o que eu queria para caber no outro. Agora eu quero olhar para mim”, comenta.

Apesar do caráter libertador, Elisa faz questão de não romantizar a transição. Ela descreve o processo como bonito e doloroso, ao mesmo tempo.

“É muito bonito a gente se autoconhecer, mas também é muito doloroso. Tem sido um processo de muita desconstrução”.

Entre os desafios, ela destaca o enfrentamento de preconceitos internalizados e a necessidade de ampliar a própria visão sobre si mesma.

“Eu estava olhando tudo com aquela viseira [rédea] de cavalo, sabe? Só para frente. E aí, quando eu tirei isso, entendi que existia um mundo gigantesco lá fora.”

Misto de medo e olhar otimista

A publicitária descreve a transição como um processo com nuances. Apesar dos desafios enfrentados, uma fase de medo tomou conta do processo no início.

“Tive medos paralisantes, inclusive no fim do ano passado, que era quando eu estava vivendo mais latente. Foi o período em que eu estava entendendo o que significa ser uma mulher, como eu me torno uma uma mulher”, conta. 

No trabalho, ela conta que as inseguranças também apareceram, mas que a luta para não se perder foi maior. 

“Foi um período difícil no trabalho, porque eu comecei a me desconectar do que eu fazia. E ao mesmo tempo eu lutava muito para não perder, porque o trabalho é uma parte de mim. A gente que trabalha com internet e que trabalha com imagem se expõe, mas também eu escolho o que eu quero expor”, avalia.

Hoje, ao falar sobre essa nova era, Elisa reforça o caráter libertador da transição.

“Agora eu estou podendo ser quem eu sou. Sem expectativa de outra pessoa, sem querer agradar ninguém. Só vivendo quem eu sou.”

Elisa Fernandes, influenciadora digital

Bruno ficou para trás 

Agora, em sua nova identidade, Elisa olha para trás com gratidão a tudo que Bruno Miranda representou. 

“Com o Bruno, que é com esse corpo é essa pessoa que eu fui por muitos anos, é uma relação de muito carinho, porque eu tenho muito orgulho de tudo que eu fiz. Eu tenho muito orgulho de tudo que eu produzi e eu também tenho muito orgulho de tudo que eu estou vivendo”.

Sob novo username nas redes sociais, @elisafernanss, a influenciadora explica que a vontade era mostrar para o mundo tudo que estava vivendo, mas que a transição aconteceu naturalmente e Bruno foi ficando para trás. 

“Ela [a transição] veio acontecendo aos pouquinhos e eu também quis mostrar aos pouquinhos na internet, seja por eu começar a falar sobre maquiagem, que é um assunto que eu comecei a me interessar, ou ao mostrar um novo estilo de se vestir”, contou. 

O armário masculino também foi deixado de lado e a nova fase finalmente foi dando as caras – com ela, a vontade e a coragem de compartilhar a novidade com milhares de seguidores.

“Me sinto bem agora. Mais do que nunca me sinto pronta para compartilhar isso com eles […] essa transição, essa voz, esse poder muito mais potente por ser uma pessoa pública”, afirma. 

Quando questionada o que a versão que ficou para trás diria, Elisa responde:

“Eu diria para continuar com coragem. Eu sempre fui, eu sempre fui corajosa e uma linha tênue entre ser entre realmente ser corajosa e viver perigosamente assim, porque eu sempre tive voz. E, à medida que eu fui amadurecendo, à medida que fui me estabilizando profissionalmente e pessoalmente também, fui conhecendo a força da minha voz”, falou.

O que os seguidores podem esperar daqui para frente

Elisa não quer mais falar apenas sobre cultura pop, cinema e filmes. Ela quer expandir seus horizontes e falar sobre maquiagem, feminilidade e tudo que envolve sua identidade dentro da comunidade LGBTQIAP+.

“Eu quero conversar sobre outras coisas. Eu quero explorar mais formas de me comunicar. Hoje eu gosto de mostrar a minha roupa, gosto de mostrar minha maquiagem, gosto de falar sobre dificuldades, ou sobre coisas que eu estou vivendo pela primeira vez”, contou. 

Entre as descobertas, a influenciadora conta que utilizar um serviço de manicure, por exemplo, foi um desafio. 

“Eu fui fazer unha. E aí eu não sabia qual serviço marcar, não sabia o que era alongamento de gel, não sabia o que era esmaltação etc. E isso tudo também faz parte dessa minha nova etapa, sabe?”, narra. 

Para ela, a transição está sendo uma construção diária de em que cada dia conta e é isso que ficará para seus admiradores. 

“Então é como se eu tivesse construindo tijolinho por tijolinho, esse meu novo castelo e a idea agora é a, é chamar ajuda, é mostrar para a galera que a gente pode construir as coisas juntos também”, contou. 

“O que eu mais quero para Elisa é que eu seja lida enquanto uma pessoa de verdade, sabe enquanto uma pessoa que está aqui, que tem problema, uma pessoa que tem insegurança, uma pessoa que que fica muito feliz com as coisas também”, finaliza. 

 

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Fonte : CNN

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