Enquanto a Argentina relembra os 50 anos do golpe militar que mergulhou o país em uma das páginas mais sombrias de sua história, a família do pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior, o Tenório Jr., vive um momento de reencontro simbólico.
Nesta quarta-feira (25), em cerimônia solene no Rio de Janeiro, os filhos de Tenório Jr.– Francisco, Elisa e Margarida – e os netos, receberão objetos pessoais encontrados com o músico em março de 1976. Outros dois filhos mais novos do pianista, João Paulo e Leonardo, já morreram. O corpo de Tenório Jr. foi indentificado na Argentina apenas em setembro do ano passado.
Considerado um dos nomes mais brilhantes de sua geração, Tenório Jr. foi uma figura central do samba-jazz, gênero que ajudou a moldar com seu disco “Embalo” (1964) e colaborações com gigantes da música brasileira como Milton Nascimento, Gal Costa, Edu Lobo e Toquinho.
Tenório Jr. estava no auge de sua carreira quando, em março de 1976, durante uma turnê com Vinícius de Moraes e Toquinho, saiu do hotel em Buenos Aires para comprar um lanche e foi interceptado pela repressão argentina. Sua morte se tornou um dos casos mais emblemáticos da Operação Condor, que coordenou ações repressivas entre as ditaduras militares da América do Sul.
“A gente [também] espera um pedido de desculpas, uma reparação. Isso mudou muito a nossa vida. Nossa vida não era para ter sido desse jeito”, afirma o artesão Francisco Tenório Neto, 56, que tinha 7 anos quando o pai desapareceu, à CNN Brasil.
Para Francisco, a entrega das últimas peças que estavam com seu pai representa mais do que meros pertences. “É importante para a gente ter essas últimas peças que estavam com o meu pai. É uma memória, uma lembrança a mais que a gente tem. E uma coisa que estava com ele naquele momento pessoal, uma coisa pessoal dele.”
O ato entre Brasil e Argentina, nesta quarta, acontece na sede do Ministério Público Federal (MPF) na 2ª Região. A entrega dos pertences é resultado da identificação do corpo de Tenório Jr. no ano passado, realizada pela EAAF (Equipe Argentina de Antropologia Forense).
O pianista, então com 35 anos, foi morto a tiros e encontrado em um terreno baldio em Tigre, cidade vizinha à capital, em 20 de março de 1976, dois dias após seu desaparecimento, e às vésperas do golpe militar argentino, que ocorreria em 24 de março.
A identificação do corpo de Tenório Jr. foi um trabalho minucioso, liderado por peritos como o antropólogo e pesquisador argentino Carlos Somigliana, da Eaaf, que entregará os pertences em mãos.
Histórias ligadas
A história de Tenório Jr. ecoa a de outras famílias brasileiras marcadas pela repressão, como a do deputado federal Rubens Paiva, desaparecido in 1971, retratada no livro e no filme vencedor do Oscar “Ainda Estou Aqui”.
Assim como Eunice Paiva, Carmen, ficou sozinha com cinco filhos para criar após o desaparecimento de Tenório Jr.. Mas ao contrário da mãe de Marcelo Rubens Paiva, ela estava grávida do quinto filho do casal quando o músico foi brutalmente assassinado.
O evento no Rio de Janeiro, organizado pela Comissão de Mortos e Desaparecidos e pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, contará com a presença de entidades que lutam por memória e verdade, além de procuradores da República que atuaram na temática de justiça de transição.
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Fonte : CNN