Os EUA estão vivendo um dos processos mais acelerados de erosão democrática já registrados, ao mesmo tempo em que o mundo enfrenta um retrocesso generalizado, segundo o relatório “Democracy Report 2026: Unraveling the Democratic Era?”, divulgado pelo instituto V-Dem (Instituto Variedades da Democracia).
O estudo, que monitora a situação da democracia pelo mundo, mostra que, pela primeira vez em mais de 50 anos, o país administrado pelo presidente Donald Trump deixou de ser classificado como uma democracia liberal, passando para a categoria de democracia eleitoral.
Os Estados Unidos também perderam posições no ranking global, caindo da 20ª para a 51ª posição entre os 179 países analisados.
O LDI (Índice de Democracia Liberal), principal indicador utilizado pelo estudo, registrou queda significativa, passando de 0,79 em 2023 para 0,57 em 2025, uma redução de cerca de 24% em apenas um ano.
Com isso, o nível democrático do país retornou a padrões comparáveis aos de 1965, período que antecede a consolidação de direitos civis modernos.
Democracia Liberal x Eleitoral
O instituto V-Dem classifica a Democracia Eleitoral como o núcleo fundamental de qualquer tipo de democracia. Ela tem como foco a integridade do processo de escolha dos governantes e nas liberdades políticas básicas.
Nele, as eleições são livres, justas e recorrentes, com os funcionários podendo aproveitar do poder político como preferir e partidos políticos e candidatos podendo se organizar para competir livremente.
Já a Democracia Liberal possui todos os atributos da Democracia Eleitoral, mas tem como foco a limitação do poder governamental e a proteção dos direitos contra possíveis abusos do Estado, por meio dos seguintes mecanismos:
- Freios e contrapesos sobre o poder executivo, exercidos pelos Poderes Legislativo e Judiciário;
- Independência dos Poderes para fiscalizar o governo;
- Estado de Direito robusto;
- Proteção rigorosa das liberdades civis individuais;
- Garantia de igualdade perante a lei;
Cenário mundial
Fora dos EUA, o nível de democracia experimentado pelo cidadão médio global retornou aos patamares de 1978, praticamente anulando os avanços conquistados desde a chamada “terceira onda de democratização”, iniciada na década de 1970, ainda segundo o levantamento.
O estudo indica que hoje, cerca de 74% da população mundial (aproximadamente 6 bilhões de pessoas) vivem sob regimes autocráticos, enquanto apenas 7% estão em democracias liberais, o menor índice em mais de meio século.
Pela primeira vez, há mais pessoas vivendo em autocracias fechadas do que em democracias somadas.
Concentração de poder e enfraquecimento institucional
Segundo o relatório, o processo de autocratização nos Estados Unidos ocorre em ritmo inédito.
O estudo aponta que a concentração de poder no Executivo e o enfraquecimento dos contrapesos avançaram mais rápido do que em casos recentes de desgaste democrático em países como Hungria, Índia e Turquia.
Um dos indicadores mais afetados foi o de restrições legislativas ao Executivo, que, só em 2025, perdeu cerca de um terço de seu valor, atingindo o nível mais baixo em mais de um século. O dado sugere uma redução significativa da capacidade de fiscalização do Congresso sobre o governo.
Além disso, o relatório aponta desgastes consistentes em áreas-chave, como:
- A liberdade de expressão e de imprensa, que atingiu o nível mais baixo desde o pós-Segunda Guerra Mundial;
- Os índices de direitos civis e igualdade perante a lei, que recuaram aos patamares do fim dos anos 1960;
- As restrições ao poder Judiciário, que enfraqueceram a níveis que não são vistos desde 1900.
Apesar desse quadro, os componentes eleitorais, como o direito ao voto e a realização de eleições, permanecem relativamente estáveis. Ainda assim, o estudo alerta para riscos nas eleições legislativas de 2026.
“Terceira onda de autocratização” avança
O caso dos Estados Unidos se insere em um fenômeno mais amplo, descrito pelo V-Dem como a “terceira onda de autocratização”. Atualmente, 44 países passam por processos simultâneos de declínio democrático, concentrando cerca de 41% da população global (aproximadamente 3,4 bilhões de pessoas).
Outro ponto de destaque é o ataque sistemático à liberdade de expressão, considerado o pilar mais afetado da democracia contemporânea. Apenas no último ano, houve deterioração nesse aspecto em 44 países, com censura à mídia sendo adotada por 73% dos regimes em autocratização.
Risco à governança global
O relatório conclui que a combinação entre o enfraquecimento das democracias e a expansão de regimes autoritários representa uma mudança estrutural no equilíbrio global de poder.
Nesse contexto, o declínio dos EUA, historicamente uma das principais referências democráticas, é visto como um fator que pode acelerar ainda mais essa transformação, ampliando os riscos para a estabilidade política internacional.
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Fonte : CNN