Apenas uma semana após o início da mais recente turbulência na região, já há sinais de tensão nas artérias cuidadosamente orquestradas do comércio global: desde exportações de arroz retidas nos portos da Índia até aumentos no preço de fertilizantes essenciais para a produção de alimentos.
Uma guerra prolongada que mantenha os preços da energia elevados pode impulsionar a inflação e, com ela, as taxas de juros, aumentando o sofrimento dos tomadores de empréstimos.
Enquanto isso, ameaças aos navios de carga podem prejudicar as cadeias de abastecimento, elevando ainda mais os preços para empresas e consumidores.
O conflito crescente no Oriente Médio pode ter “um impacto muito grande na economia global em uma série de indicadores”, como inflação e crescimento econômico, de acordo com Dan Katz, vice-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional.
A gravidade das consequências econômicas dependerá da duração do conflito.
Antes dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã no fim de semana, o FMI previa um crescimento saudável de 3,3% para a economia global neste ano.
O fundo ainda não alterou sua perspectiva, afirmando que é “muito cedo” para avaliar o impacto econômico.
Mas também disse que está acompanhando de perto os desdobramentos e listou uma série de riscos para a economia global, incluindo mais interrupções no comércio, aumentos nos preços da energia e volatilidade nos mercados financeiros.
O efeito do conflito na economia global depende em grande parte dos preços da energia, que dispararam esta semana devido às preocupações com o abastecimento. O petróleo Brent, referência global, está sendo negociado a níveis nunca vistos em mais de 18 meses.

O principal risco aqui é o fechamento prolongado do crucial Estreito de Ormuz, que é praticamente a única maneira de transportar o petróleo e o gás natural abundantes do Oriente Médio para o resto do mundo.
A estreita via navegável, ladeada pelo Irã de um lado e Omã do outro, é normalmente um canal para cerca de um quinto da produção diária global de petróleo e gás natural liquefeito, de acordo com a Administração de Informação Energética dos EUA.
Com o estreito praticamente intransitável, os futuros de gás natural de referência europeu também dispararam e podem mais do que dobrar em relação aos níveis observados antes da guerra se os embarques pelo estreito forem interrompidos por mais de dois meses, de acordo com o Goldman Sachs.
Os preços europeus ainda estão bem abaixo dos picos atingidos em 2022, após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, mas os estoques da região estão muito mais baixos do que nos últimos anos e precisarão ser reabastecidos antes do próximo inverno, a um custo potencialmente muito maior.
A inflação dos preços ao consumidor na União Europeia — que ficou em 2% em janeiro — pode subir mais de um ponto percentual se o conflito se prolongar por vários meses, de acordo com Holger Schmieding, economista-chefe do banco Berenberg.

Se os preços do petróleo permanecerem nos níveis atuais por vários meses, a inflação dos preços ao consumidor nos EUA poderá subir de 2,4% em janeiro para 3% até o final do ano, afirmou o Goldman Sachs.
Issso poderia tornar ainda mais difícil para o Federal Reserve reduzir as taxas de juros este ano.
A Ásia está ainda mais vulnerável a um choque sustentado nos preços da energia.
Cerca de 80% a 90% do petróleo bruto e do gás natural liquefeito transportados pelo Estreito de Ormuz têm como destino a região, sendo a China um dos principais compradores, de acordo com a consultoria Capital Economics.
A guerra chega em um momento particularmente difícil para a China, que na quinta-feira estabeleceu sua meta de crescimento econômico mais baixa em décadas.
“A maioria das economias da Ásia está em pior situação e enfrentando uma inflação mais alta como resultado dos ataques ao Irã”, escreveram os economistas da Capital Economics para a Ásia em uma nota, acrescentando que a inflação aumentaria meio ponto percentual na maioria dos países se os preços do petróleo Brent permanecessem nos níveis atuais.
Além dos preços da energia, as economias asiáticas podem ser afetadas por outro canal: as exportações.
A Índia já está sentindo o impacto.
Mais de 400.000 toneladas métricas de arroz basmati cultivado no país para exportação estão retidas nos portos indianos ou em trânsito, pois a guerra interrompeu as rotas marítimas em todo o Oriente Médio, de acordo com Satish Goel, presidente da Associação de Exportadores de Arroz da Índia.
Aproximadamente 75% das exportações anuais de arroz basmati da Índia, ou cerca de 6 milhões de toneladas, vão para o Oriente Médio, disse ele à CNN.
O Oriente Médio se tornou um destino importante para os exportadores asiáticos afetados pelo aumento das tarifas dos EUA, de acordo com Deepali Bhargava, chefe de pesquisa da Ásia-Pacífico do banco ING.
Caso o conflito persista, a Índia e a China serão as que mais perderão, escreveu ela em uma nota.
As exportações de arroz imobilizadas da Índia apontam para uma preocupação maior: o potencial de interrupções mais amplas no comércio global e na produção de alimentos.
“O Estreito de Ormuz é essencial para a produção global de alimentos”, disse o CEO da empresa química norueguesa Yara International, Svein Tore Holsether, à CNN.
Cerca de um terço das exportações mundiais de ureia, um fertilizante amplamente utilizado, passam pelo estreito, assim como grandes quantidades de outras matérias-primas necessárias para a fabricação de fertilizantes, observou ele.
“Os fertilizantes não são apenas mais uma mercadoria – quase metade da produção global de alimentos depende deles.”
Os preços da ureia egípcia, referência no setor, subiram 35% até agora nesta semana, de acordo com o CRU Group, um provedor de dados.
Os preços do enxofre, usado em fertilizantes, também aumentaram. Quase metade do comércio global de enxofre provém de países do Oriente Médio, disse o CRU Group.
Além de elevar os custos dos insumos, a guerra no Oriente Médio pode causar congestionamento em portos a muitos quilômetros de distância dos combates e atrasar o transporte de mercadorias em todo o mundo, uma vez que os navios estão sendo redirecionados.
Por exemplo, contêineres com destino ao Oriente Médio estão começando a se acumular nos portos da Índia depois que várias grandes transportadoras suspenderam os embarques para a região, de acordo com Judah Levine, chefe de pesquisa da empresa de logística Freightos.
Quanto mais tempo durar a interrupção, maiores serão as chances de que a escassez de contêineres e a redução da capacidade de transporte sejam sentidas em outros lugares, disse ele em uma nota.
O transporte aéreo de carga pode ser ainda mais afetado, com muitos aviões em solo no Oriente Médio e o espaço aéreo na região severamente restrito.
Por exemplo, a Adidas alertou esta semana que algumas remessas enviadas por frete aéreo podem sofrer atrasos.
As companhias aéreas do Oriente Médio, incluindo Emirates, Qatar Airways e Etihad, respondem por cerca de 13% da capacidade global de carga aérea, disse Levine.
De acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo, a carga aérea responde por cerca de um terço do comércio mundial em valor — muitas vezes transportando itens de alto valor, como smartphones, microchips e outros eletrônicos.
Em uma nota divulgada esta semana, a empresa de análise de transporte marítimo Xeneta pintou um quadro preocupante: “O agravamento do conflito no Oriente Médio está criando incerteza imediata para as cadeias de abastecimento, com os movimentos dos navios mudando a cada hora e os transportadores tendo que gerenciar cargas que podem não chegar mais aos portos de destino”.
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Fonte : CNN