O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, foi questionado nesta quarta-feira (18) sobre se a empresa projetou intencionalmente plataformas para viciar os usuários, ao depor em um julgamento histórico sobre alegações de que as redes sociais prejudicam crianças.
O depoimento marca a primeira vez que Zuckerberg responde a tais acusações perante um júri.
O empresário da tecnologia chegou ao Tribunal Superior de Los Angeles pela manhã, passando por uma multidão de pais, jornalistas e jurados que também aguardavam na fila para entrar.
Ele não respondeu a uma pergunta sobre qual seria sua mensagem para os pais que afirmam que seus filhos foram prejudicados pelas redes sociais.
Algumas pessoas que dizem que seus filhos foram feridos ou morreram em decorrência das redes sociais viajaram de todo o país para comparecer à audiência.
Eles afirmam que esse processo representa um momento crucial de responsabilização para a Meta, após anos de preocupações com a segurança dos jovens nas plataformas Facebook e Instagram.
Quase uma dúzia de pais se reuniram e deram as mãos do lado de fora do tribunal antes da chegada de Zuckerberg.
Acusações contra a Meta
A Meta, assim como o YouTube, são acusados de projetar intencionalmente recursos viciantes que influenciaram uma mulher quando criança, prejudicando sua saúde mental.
O processo movido pela jovem, que agora tem 20 anos e foi identificada por seu advogado como “Kaley”, e a mãe é o primeiro de mais de 1.500 ações semelhantes que vai a julgamento. A Meta nega as acusações do processo.
Zuckerberg foi questionado sobre se crianças menores de 13 anos têm acesso ao Instagram. O aplicativo exige tecnicamente que os usuários tenham essa idade para se cadastrar, e o empresário reafirmou que crianças menores de 13 anos “não têm permissão para usar o Instagram”.
Mas o advogado da autora do processo, Mark Lanier, apresentou um documento interno de 2015 que estimava que mais de 4 milhões de usuários do Instagram tinham menos de 13 anos, o que, segundo o documento, representava “30% de todas as crianças de 10 a 12 anos nos EUA”.
Lanier afirmou que Kaley, agora com 20 anos, começou a usar o Instagram aos 9 anos de idade.
O advogado destacou que foi apenas em dezembro de 2019 que o Instagram começou a pedir aos novos usuários que informassem a data de nascimento ao se cadastrarem. Antes, bastava confirmar que tinham mais de 13 anos.
Em agosto de 2021, a rede social passou a solicitar que os usuários já cadastrados informassem a data de nascimento, caso ainda não o tivessem feito, como parte de uma iniciativa de segurança para jovens.
Isso significa que Kaley não foi questionada sobre sua idade quando se cadastrou na plataforma.
Zuckerberg afirmou que em 2019, antes da implementação da política de data de nascimento, havia “alguma preocupação com a privacidade”, mas acredita que, no fim, chegaram à política correta.
O advogado afirmou que Kaley às vezes usava o Instagram por “várias horas por dia” e que, certa vez, passou mais de 16 horas em um único dia na plataforma, apesar das tentativas da mãe de limitar o uso.
Kaley alega que os recursos viciantes do aplicativo a levaram a desenvolver ansiedade, dismorfia corporal e pensamentos suicidas, além de ter sofrido bullying e extorsão sexual no Instagram.
Um porta-voz da Meta afirmou que “discordamos veementemente” das alegações no processo de Kaley e que “estamos confiantes de que as provas demonstrarão nosso compromisso de longa data em apoiar os jovens”.
O advogado da empresa argumentou que foi a vida familiar difícil de Kaley, e não as redes sociais, que causou os problemas de saúde mental. O YouTube também nega as alegações do processo.
“A questão para o júri em Los Angeles é se o Instagram foi um fator substancial nos problemas de saúde mental da autora”, disse um porta-voz da Meta em um comunicado antes do depoimento de Zuckerberg.
“As evidências mostrarão que ela enfrentou muitos desafios significativos e difíceis muito antes de usar as redes sociais”, comentou.
A Meta destacou recursos de segurança, como ferramentas de supervisão parental e “contas para adolescentes”, que implementam configurações de privacidade padrão e restrições de conteúdo para usuários menores de 18 anos.
Espera-se que Zuckerberg seja questionado sobre o que a Meta sabia a respeito dos riscos das plataformas para usuários jovens e se esses recursos de segurança foram suficientes para mitigá-los.
“Tenho certeza de que ele vai falar sobre o fato de ter filhos e que isso é muito importante para ele… Acho que ele vai falar sobre tudo o que estão fazendo para dar a impressão de que ‘estamos fazendo o melhor que podemos’”, disse Kimberly Pallen, sócia do escritório de advocacia Withers, especializada em litígios cíveis complexos, à CNN.
“Provavelmente é isso que vai definir a questão: da perspectiva do júri, eles estão fazendo o suficiente? E eles se importam?”, acrescentou Pallen. O desempenho de Zuckerberg no depoimento também pode desempenhar um papel significativo na forma como o júri vê o caso, pontuou ela.
“Tudo vai depender de como essas pessoas testemunharem perante o júri, se o júri gostar delas e do que os documentos mostrarem”, disse ela.
Zuckerberg também deverá ser questionado — assim como Adam Mosseri, chefe do Instagram, em seu depoimento na semana passada — se priorizou o lucro em detrimento da segurança dos jovens em suas decisões sobre o produto, como alega Kaley.
“Documentos internos mostram que a Meta entendia os perigos que suas plataformas representavam para os jovens”, disse o advogado de Kaley, Matthew Bergman, em um comunicado.
“Mesmo assim, Zuckerberg e a Meta seguiram em frente, escolhendo recursos projetados para manter as crianças online por mais tempo, mesmo quando essas escolhas colocavam as crianças diretamente em risco. Para os pais que passaram anos lutando para serem ouvidos, este momento tem um peso profundo”, acrescentou Bergman.
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Fonte : CNN