© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Em Belém, a poucos passos dos luxuosos apartamentos e investimentos turísticos impulsionados pela COP30, encontra-se a Vila da Barca, um contraste gritante que expõe a complexidade da justiça climática. Cleonice Vera Cruz, aos 77 anos, é uma das mais antigas moradoras desse bairro centenário, onde casas precárias de madeira se equilibram em palafitas sobre a baía do Guajará.

A comunidade, uma das maiores favelas aquáticas da América Latina, testemunha diariamente os desafios impostos pelas cheias do rio e pelas chuvas intensas. Cleonice relata que as casas tremem com o vento e são invadidas pela água, ilustrando a vulnerabilidade dos moradores. Recentemente, o desabamento de uma residência na Vila da Barca, ocorrido durante a COP30, trouxe à tona a urgência da crise habitacional e social.

Gerson Siqueira, presidente da Associação de Moradores da Vila da Barca, ressalta a importância de considerar o impacto da crise climática nas populações mais vulneráveis. Ele questiona se a transição energética discutida nos debates globais inclui o cuidado e a proteção das comunidades amazônicas que vivem em condições precárias, sem saneamento básico adequado.

Um estudo recente da Habitat para a Humanidade Brasil revelou que a maioria das pessoas que residem em áreas de risco são negras, com renda média significativamente inferior à de outras áreas da cidade. Mulheres chefes de família também são maioria nesses locais. O levantamento evidencia o racismo ambiental, onde os efeitos da crise climática atingem desproporcionalmente grupos marginalizados.

Maria Isabel Cunha, conhecida como Bebel, é uma diarista e mãe solo de dois filhos, um deles com deficiência. Desempregada, ela depende da pensão do filho para sustentar a casa. Bebel expressa o desejo de ter um emprego fixo e mais serviços públicos de apoio, como um clube ou instituição educacional.

Enquanto a COP30 se desenrola a poucos quilômetros de distância, muitos moradores da Vila da Barca demonstram pouco conhecimento sobre os debates climáticos. As reformas na zona turística de Belém, como os armazéns históricos e a Avenida das Docas, atraíram a atenção de alguns, enquanto outros se surpreenderam com a presença indígena na cidade.

A Vila da Barca é composta por cerca de 600 moradias de palafitas, abrigando mais de mil famílias. Recentemente, foram iniciadas obras para a instalação de um sistema de abastecimento de água e tratamento de esgoto, com o objetivo de melhorar as condições de vida na comunidade.

A luta da comunidade por dignidade passa pela garantia de permanência e pela construção de moradias dignas, com infraestrutura adequada. A Habitat para a Humanidade Brasil destaca a necessidade de abordar a relação entre a crise climática e a crise habitacional, defendendo a permanência das comunidades em áreas de risco, desde que sejam garantidas condições de segurança e adaptabilidade. A entidade também alerta para o risco de remoções injustas em nome de falsas soluções climáticas.

Apesar dos desafios sociais, a Vila da Barca possui uma vida cultural vibrante, com festas tradicionais e a devoção a Nossa Senhora de Nazaré. A comunidade representa um microcosmo dos desafios enfrentados por populações vulneráveis em um contexto de crise climática, exigindo soluções que promovam a justiça social e ambiental.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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