O atleta ucraniano de skeleton Vladyslav Heraskevych afirmou nesta terça-feira que irá desafiar a proibição do Comitê Olímpico Internacional (COI) e competir com seu “capacete da memória”, em homenagem aos mortos na guerra com a Rússia.
Aos 27 anos, Heraskevych vinha treinando na Itália com o capacete estampado com 24 imagens de atletas ucranianos que morreram no conflito. O COI, no entanto, informou que ele não poderá utilizá-lo na competição, que começa na quinta-feira, por causa da regra que proíbe manifestações políticas nas áreas de disputa.
Como alternativa, o órgão sugeriu que o atleta use uma braçadeira preta.
“Por causa do sacrifício deles, conseguimos competir aqui como equipe. Eu não vou traí-los”, disse Heraskevych durante uma entrevista coletiva ao ar livre, diante dos anéis olímpicos, em Cortina, nesta terça-feira (10).
“Acredito que eles merecem estar comigo no dia da competição. Usei ontem no treino, usei hoje no treino, vou usar amanhã e vou usar no dia da prova”, afirmou.
Apoio do treinador
“Agora preciso pensar em como posso performar melhor e me concentrar na pista, mas estou aqui tentando lutar pelo meu direito de usar esse capacete”, acrescentou.
Heraskevych, que exibiu um cartaz com a frase “No War in Ukraine” nos Jogos de Pequim-2022, dias antes da invasão russa, disse ter recebido apoio de diversos atletas. O técnico da Letônia, Ivo Steinbergs, participou da coletiva para manifestar solidariedade.
“Há um forte apoio de outras nações. Ontem, o presidente da Letônia veio nos visitar e expressou apoio firme ao Vladyslav. Se houver desclassificação, veremos o que pode ser feito”, disse Steinbergs.
A lugerista ucraniana Olena Smaha também demonstrou apoio ao exibir, em sua luva, a frase em inglês “Remembrance is not a Violation” (“Lembrar não é uma violação”).
COI propõe compromisso com braçadeira
Mais cedo, o COI afirmou que o atleta usou o capacete nos treinos e se manifestou nas redes sociais, mas que isso não será permitido quando a competição começar.
“Tentamos tratar o desejo dele com compaixão”, disse o porta-voz do COI, Mark Adams, em entrevista coletiva. “O COI entende plenamente o desejo dos atletas de lembrar amigos que perderam a vida nesse conflito.”
A Regra 50.2 da Carta Olímpica estabelece que nenhuma forma de manifestação política, religiosa ou racial pode ocorrer nas áreas de competição ou nos pódios, embora atletas possam se expressar livremente em outros espaços.
“Os Jogos precisam ser separados de qualquer tipo de interferência para que todos os atletas possam se concentrar em suas performances. Precisamos manter esse momento o mais puro possível para a competição”, afirmou Adams.
“Esse capacete contraria as diretrizes, mas abriremos uma exceção para permitir que ele use uma braçadeira preta durante a competição como forma de homenagem. Consideramos isso um bom compromisso”, completou.
Críticas de políticos ucranianos
Heraskevych recebeu apoio de líderes políticos da Ucrânia, incluindo o presidente Volodymyr Zelenskiy, na segunda-feira, e a primeira-ministra Yulia Svyrydenko, nesta terça.
“Mais de 650 atletas ucranianos nunca mais subirão a um palco olímpico. Eles foram mortos por russos”, escreveu Svyrydenko na rede social X. “Diante dessa realidade, a decisão de banir o capacete do nosso atleta, que homenageia alguns dos que caíram, é profundamente errada. Lembrar os mortos não é política. É dignidade.”
“O COI deveria honrar aqueles que não podem mais competir, não silenciar sua memória”, afirmou.
O capacete de Heraskevych retrata diversos atletas mortos na guerra, alguns deles amigos pessoais. Entre os homenageados estão a halterofilista adolescente Alina Perehudova, o boxeador Pavlo Ischenko, o jogador de hóquei no gelo Oleksiy Loginov, o ator e atleta Ivan Kononenko, o mergulhador e treinador Mykyta Kozubenko, o atirador Oleksiy Habarov e a dançarina Daria Kurdel.
Impasse sobre postagem nas redes
Em carta enviada ao Comitê Olímpico Ucraniano nesta terça-feira, o COI pediu que Heraskevych removesse uma postagem em que identifica o representante do COI que o informou, na segunda-feira, de que o capacete não estava de acordo com as regras, alegando que a pessoa estaria “em risco de sofrer abusos online”.
“Não vejo problema nenhum nisso”, disse Heraskevych à Reuters.
Após a invasão da Ucrânia, atletas da Rússia e de Belarus, aliada de Moscou, foram em grande parte afastados do esporte internacional, embora o COI tenha apoiado, posteriormente, um retorno gradual sob condições rigorosas.
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Fonte : CNN