O presidente dos EUA, Donald Trump, sentou-se ao lado de seu homólogo alemão, Friedrich Merz, no Salão Oval na terça-feira (3) e lançou um ataque contra alguns de seus aliados europeus.
“Não estamos lidando com Winston Churchill”, disse ele sobre o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, depois de criticar mais uma vez Londres por negar aos EUA permissão para usar bases militares britânicas nas Ilhas Chagos – um arquipélago no Oceano Índico – para ataques ofensivos contra o Irã.
Não contente em criticar apenas um líder europeu, Trump também atacou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, ameaçando impor um embargo total dos EUA à Espanha em resposta à oposição do líder socialista aos ataques americanos ao Irã.
Merz sentou-se ao lado de Trump e permaneceu praticamente em silêncio, declarando posteriormente aos repórteres que “abordou ambas as questões com muita clareza em uma conversa particular… porque não queria expor o conflito publicamente”.
Suas palavras representam mais uma ruptura entre Washington e a Europa e destacam o delicado equilíbrio que os líderes europeus têm tentado alcançar desde que os EUA e Israel começaram a bombardear o Irã no sábado (28).
Por um lado, eles têm procurado apoiar seus aliados do Golfo e apaziguar Washington, sob cuja proteção da Otan permanecem e cuja participação em qualquer possível acordo de paz para a Ucrânia ainda é essencial.
Por outro lado, os europeus estão minimizando seu envolvimento em uma guerra que muitos deles se recusam a considerar legal e que é profundamente impopular internamente.

Alemanha, França e Reino Unido – os países do E3 – não chegaram a endossar ou condenar explicitamente os ataques EUA-Israel em uma declaração conjunta. Em vez disso, condenaram a retaliação do Irã, reiteraram suas críticas ao regime do país, pediram a “retomada das negociações” e afirmaram que permanecem em “estreito contato com nossos parceiros internacionais”.
Ainda assim, mesmo tendo apresentado seu envolvimento como defensivo, correm o risco de serem arrastados para uma guerra regional em espiral. Esses perigos ficaram evidentes nesta quarta-feira (4), quando os sistemas de defesa aérea da Otan abateram um míssil iraniano que se dirigia para o espaço aéreo da Turquia, naquele que se acredita ser o primeiro caso em que as forças da aliança interceptaram um míssil iraniano em direção ao espaço aéreo de um país membro.
Alguns países europeus destinaram recursos militares para defender seus interesses na região. O Reino Unido concordou em permitir que os EUA utilizassem suas bases militares para “ataques defensivos” contra instalações de mísseis iranianos, afirmou Starmer no domingo.
E, em resposta ao ataque de um drone a uma base militar britânica no Chipre na terça-feira, o Reino Unido enviou helicópteros com capacidade antidrone e um navio de guerra, que levará cerca de uma semana para chegar à ilha mediterrânea.
Entretanto, uma fragata francesa chegou ao Chipre na noite de terça-feira (3), disse o presidente francês Emmanuel Macron, acrescentando que também estava enviando “recursos adicionais de defesa aérea para lá”.
As defesas aéreas francesas e britânicas baseadas na região também realizaram operações limitadas, ajudando a abater drones e mísseis iranianos, tomando o cuidado de permanecer dentro dos limites da guerra legal.
A justificativa da administração Trump para atacar o Irã tem sido considerada vaga e inconsistente. Trump e seus principais assessores se contradisseram, extrapolando os limites da lógica — e das estimativas da inteligência americana — para definir a ameaça “iminente” que o Irã e seu programa nuclear representavam, sem apresentar qualquer evidência.
Eles ignoraram informações da inteligência americana que sugeriam que o Irã precisaria até 2035 para desenvolver um míssil balístico intercontinental, caso optasse por fazê-lo, bem como as próprias alegações de Trump de que o programa foi “aniquilado” pelos ataques americanos no verão passado.

Como ex-advogado de direitos humanos com amplo conhecimento das complexidades do direito internacional, Starmer evitou se comprometer com uma guerra de fundamento jurídico duvidoso.
Notavelmente, o parecer jurídico do Reino Unido previa apenas que o país se envolvesse em “autodefesa coletiva de aliados regionais que solicitaram apoio” e facilitasse “ações defensivas específicas e limitadas contra instalações de mísseis no Irã que estivessem envolvidas no lançamento de ataques contra aliados regionais”.
“Isso não indica que o Reino Unido esteja se envolvendo mais amplamente no conflito em curso entre os EUA, Israel e Irã”, acrescentou o comunicado.
Macron foi ainda mais longe, afirmando em seu discurso à França na terça-feira (3) que os ataques EUA-Israel foram “realizados fora da estrutura do direito internacional”, embora tenha atribuído a “responsabilidade principal por esta situação” ao Irã.
O grupo E3, no entanto, não age como uma entidade singular. Merz enfatizou que não daria lições de direito internacional aos seus aliados antes de partir para Washington para se encontrar com Trump.
E mesmo enquanto Starmer se recusa a permitir que as forças britânicas se envolvam em operações ofensivas, ele destacou, na quarta-feira, as maneiras pelas quais a “relação especial está em ação”, dizendo ao parlamento que os jatos britânicos que ajudam a proteger as forças americanas representam a verdadeira natureza de sua aliança, em vez de “se apegar às últimas palavras do presidente Trump”.
Enquanto a maioria dos países europeus tenta, pelo menos, apoiar os EUA defensivamente, Sánchez emergiu como o crítico mais veemente de Trump no continente, recusando-se a envolver a Espanha na guerra, mesmo após as ameaças comerciais de Trump.

“Não vamos ser cúmplices de algo que seja ruim para o mundo, nem contrário aos nossos valores e interesses, simplesmente para evitar represálias de alguém”, disse Sánchez em um pronunciamento televisionado à Espanha na quarta-feira, segundo a Reuters.
Tanto para os formuladores de políticas europeus quanto para o público em geral, o fantasma da Guerra do Iraque ainda paira sobre o crescente conflito no Oriente Médio. A entrada nessa guerra em 2003 continua sendo uma decisão profundamente impopular do governo trabalhista anterior do Reino Unido e, como o primeiro primeiro-ministro trabalhista desde então, Starmer estará ansioso para evitar a repetição dos erros de seu partido.
Apesar de ter conquistado uma maioria esmagadora há quase dois anos, ele é uma figura enfraquecida, assolada por desafios tanto da esquerda quanto da direita, tendo sofrido recentemente uma derrota humilhante em uma eleição suplementar na semana passada para o Partido Verde progressista, cuja vitória serviu como um lembrete da raiva da esquerda em relação ao seu governo.
Da mesma forma, para Sánchez, cujo partido teve que enfrentar escândalos de corrupção e pesadas derrotas nas eleições regionais do mês passado, criticar outra guerra ocidental no Oriente Médio é um terreno político mais seguro.
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Fonte : CNN