O Tesouro Nacional anunciou nesta segunda-feira (16) que cancelou os leilões de títulos públicos indexados a índices de preço e prefixados. As negociações de papéis atrelados à taxa Selic serão mantidas.
O órgão do Ministério da Fazenda também informou que realizará leilões de compra e venda de papéis para “oferecer suporte ao mercado de títulos públicos, assegurando seu bom funcionamento e o de mercados correlatos”.
Em intervenção feita pela manhã, o Tesouro também comprou 14,8 milhões de LTN (Letras do Tesouro Nacional) e 2,45 milhões de NTN-F (Notas do Tesouro Nacional-Série F) — ambos os papéis prefixados.
Já durante a tarde, um novo leilão de compra e venda de NTN-B (Notas do Tesouro Nacional-Série B), papéis indexados à inflação, na segunda intervenção do órgão no mercado de títulos no dia.
A medida acompanha os impactos econômicos causados pela guerra no Oriente Médio, que tem feito as perspectivas de inflação e juros mudarem.
Mas como fica o Tesouro Direto neste cenário? O CNN Money ouviu analistas para entender os impactos nos investimentos em renda fixa atrelados ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), à Selic e nos prefixados.
A sócia-fundadora da Nord Research e apresentadora da Resenha do Dinheiro, Marilia Fontes, explica que, em momentos de volatilidade, o mercado tende a vender títulos de risco, incluindo prefixados e IPCA+, elevando as taxas desses papéis.
A recompra de papéis pelo Tesouro, no entanto, aumenta a demanda e controla a alta dos juros longos, trazendo liquidez.
“A entrada do Tesouro é positiva para o investidor que carrega o título. Não acho que seja o momento de vender por conta da volatilidade; a recompra (pelo Tesouro) traz mais conforto”, diz Fontes.
Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, também fala sobre o Tesouro “acalmar os ânimos” do investidor com a recompra de títulos.
“Nesse episódio, tivemos a suspensão de novas ofertas de títulos via leilão e, por outro lado, um enxugamento para aqueles que queiram sair da posição via recompra. sso tende a gerar uma menor pressão sobre as taxas e, consequentemente, promover uma maior estabilidade nos preços dos títulos, o que é muito importante, especialmente para investidores pessoa física”, avalia.
Já o economista e especialista em investimentos, Danilo Coelho, menciona um adiamento da valorização dos papéis prefixados e atrelados à inflação.
“Se a curva de juros futuro está exigindo um juro maior do que estava antes, o investidor que já tem o papel na carteira vai ver o papel dele mais desvalorizado por um tempo maior. Então, o que era esperado ali de ágio nos títulos, de quem já tem papéis ali com esses indexadores na carteira, que poderia ocorrer agora, ele vai ficar um pouquinho mais para frente”, afirma.
Fontes enxerga um bom momento para entrada no mercado por conta das altas taxas, mas faz ponderações.
“O investidor deve pensar que os prefixados tem riscos, como a marcação a mercado. É preciso analisar se quer correr os riscos neste momento de instabilidade”, complementa a sócia da Nord e apresentadora da Resenha do Dinheiro.
Coelho também vê possíveis oportunidades para a renda fixa.
“Há dois caminhos que podem acabar beneficiando os investidores. Um deles é se manter no CDI, porque ele está sendo muito bem remunerado – um percentual bem vantajoso nesse cenário. Ou até fazer a aposta no prefixado agora, aproveitando que a taxa está um pouco mais alta e que esses títulos estão mais escassos, porque agora não teremos novas emissões pelo Tesouro Nacional”, analisa.
Já Sérgio Samuel dos Santos, economista e especialista em fundos e previdência do Sistema Ailos, diferencia as estratégias entre os que querem operar no curto prazo e investidores que querem carregar seus títulos.
“O patamar atual dessas taxas apresenta oportunidades para investidores que pretendem levar os papéis até o vencimento, considerando que os rendimentos praticados estão acima da média histórica. Por outro lado, investidores que esperavam uma valorização mais expressiva desses títulos no curto prazo, impulsionada pela queda da taxa de juros e pelo fechamento da curva, provavelmente terão de aguardar mais tempo”, diz Santos.
“No curto prazo, os títulos pós-fixados, como o Tesouro Selic tendem a continuar entregando um retorno real atrativo, com risco reduzido, mesmo em um ambiente de maior pressão inflacionária. Com a Selic em torno de 15% ao ano e o IPCA próximo de 4% nos últimos 12 meses, observa-se uma taxa de juros real com margem relevante de atratividade”, completa.
Guilherme Almeida vê a ação do Tesouro com efeitos positivos para diferentes perfis de investidores.
“Para aqueles que queriam sair da posição, encontram aí uma oportunidade para se desfazer das suas posições. Mas aqueles que se mantêm posicionados em títulos, independentemente da duração, terão maior estabilidade nas taxas. Para grandes fundos, por exemplo, fundos de pensão, fundos de investimento em geral, que precisavam de dinheiro rápido, essa recompra do Tesouro evita que eles tivessem que vender os papéis a qualquer preço junto ao mercado. Então acho que isso também tende a ser positivo”, comenta o head de renda fixa da Suno Research.
Sobre o Tesouro Selic, Fontes projeta que os títulos “continuarão rendendo bem” e seguem como boa alternativa diante de possíveis cortes de juros menores que os estimados pelo mercado anteriormente.
Projeção de juros
O Copom (Comitê de Política Monetária) decide nesta quarta-feira (18) sobre os juros brasileiros, atualmente em 15%. O corte de 0,50 p.p. que era consenso do mercado, agora gera divergências. Muitos analistas já esperam um corte menor, de 0,25 p.p. nesta reunião.
Veja as projeções de importantes instituições financeiras antes desta Super Quarta:
- BTG Pactual: corte de 0,50 p.p.
- Daycoval: corte de 0,25 p.p.
- Goldman Sachs: corte de 0,25 p.p.
- Inter: corte de 0,50 p.p.
- Itaú Unibanco: corte de 0,25 p.p.
- Suno: corte de 0,50 p.p.
- Bank of America: corte de 0,25 p.p.
- XP: manutenção dos juros em 15%
O Boletim Focus divulgado nesta segunda também aumentou a projeção para a trajetória do juros: o mercado agora vê a Selic encerrando 2026 em 12,25%, acima dos 12,13% previstos na semana anterior.
Marilia Fontes comenta que a manutenção dos juros altos por mais tempo dificulta a tomada de decisão para o investidor de renda fixa, principalmente na estratégia de marcação a mercado e títulos prefixados.
Ela ainda vê a continuidade da Selic alta impactando o crédito privado, que vem sofrendo estresse após seguidas recuperações extrajudiciais de empresas brasileiras, e diz que investidores “devem tomar muito cuidado” com CRIs e CRAs.
Assuntos como esse serão abordados no programa e na News da Resenha, newsletter para manter os investidores informados e ajudar na tomada de melhores decisões no mercado.
Resenha do Dinheiro
Realizado em parceria com a B3 e a gestora de investimentos BlackRock, o programa é apresentado por Thiago Godoy, o “Papai Financeiro”; Bernardo Pascowitch, fundador e CEO do Yubb; e Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos; e propõe uma abordagem leve, direta e descomplicada sobre temas ligados a educação financeira e investimentos.
O programa vai abordar semanalmente as principais notícias e movimentos da economia com a leveza de uma conversa informal — como uma resenha entre amigos, no boteco ou após o futebol — mas sem perder a análise e o conteúdo.
A Resenha do Dinheiro vai ao ar todas as sextas-feiras, às 19h, no canal do CNN Money no YouTube.
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Fonte : CNN