Durante muito tempo, as terras raras ficaram restritas ao vocabulário técnico de geólogos, engenheiros e pesquisadores. De alguns meses para cá, viraram tema de manchetes, disputas diplomáticas e debates públicos, às vezes com mais desinformação do que informação. É compreensível: estamos falando de insumos essenciais para a transição energética, para as tecnologias digitais e, cada vez mais, para a própria segurança das nações.
Mas é justamente por isso que o Brasil precisa tratar o assunto com seriedade estratégica e com o pé no chão. Terras raras não são um bilhete premiado automático. São uma oportunidade real, desde que o país faça o que sempre fez de melhor quando decidiu ser grande: investir em ciência, planejamento e instituições públicas robustas, articuladas com o setor produtivo e com regras claras.
O nome terras raras engana. Não se trata de materiais quase inexistentes na natureza. O que é raro, em geral, é encontrá-los em concentrações e condições que permitam extração e processamento economicamente viáveis. Além disso, há uma confusão recorrente: as terras raras são elementos químicos presentes em minerais e não minerais.
No debate internacional, as terras raras aparecem dentro do que se convencionou chamar de minerais críticos, aqueles cuja demanda tende a crescer rapidamente e que podem sofrer gargalos de oferta por razões tecnológicas, geológicas, ambientais e, sobretudo, geopolíticas. Além de algumas terras raras, os chamados minerais críticos incluem níquel, grafita, cobalto, magnésio, lítio, platina, entre outros.
Do ponto de vista técnico, fala-se frequentemente em 17 elementos. Mas, para uma compreensão mais rigorosa, é importante lembrar que nem todos se comportam do mesmo modo na natureza. E, na prática, poucos concentram o maior valor estratégico. Entre eles, quatro se destacam por relevância industrial e por valor agregado: praseodímio, neodímio, disprósio e térbio.
A disputa por terras raras é, em grande medida, a disputa pelos ímãs de alto desempenho. Eles são fundamentais para aumentar a eficiência de motores elétricos e, portanto, para veículos elétricos e para grandes geradores usados em turbinas eólicas, que podem demandar quantidades expressivas de determinados elementos.
Mas as aplicações vão muito além: equipamentos de defesa, telas, smartphones, fibras ópticas, equipamentos médicos, catalisadores, lasers, radiofármacos. O que está em jogo é a infraestrutura material da economia contemporânea, aquela que permite a digitalização, a automação industrial, a agricultura de precisão e os sistemas complexos de defesa e aeroespacial.
Por isso, terras raras não podem ser tratadas como uma simples commodity. O valor real não está apenas no tirar do chão, mas na capacidade de processar, separar, transformar e inserir na cadeia industrial, onde se captura tecnologia e riqueza.
O Brasil tem uma diversidade geológica extraordinária; o mapa colorido do país diz muito sobre a variedade de terrenos e ambientes favoráveis a depósitos minerais. Há ocorrências conhecidas há décadas, estudadas desde os anos 1970 e 1980, em diferentes regiões, inclusive na Amazônia, em Goiás, em Minas Gerais, no Nordeste e em áreas costeiras. Destaco também nossa matriz energética limpa como uma das vantagens de instalarmos toda a cadeia de produção de terras raras no Brasil, o que contribuirá para a redução de emissão de gases de efeito estufa.
Isso dá base para afirmar que o potencial brasileiro é grande, possivelmente maior do que as estimativas atuais sugerem. O problema é outro: conhecimento geológico e maturidade de cadeia produtiva.
O país ainda precisa avançar de forma acelerada no mapeamento e na pesquisa aplicada. O Serviço Geológico do Brasil, por exemplo, tem experiência, método, acervo histórico e capacidade técnica, mas enfrenta limitações evidentes de escala, orçamento e pessoal para um país continental.
Também é essencial reconhecer um ponto que costuma ser ignorado nas discussões apressadas: muitas reservas são, na prática, depósitos de exploração difícil, com desafios tecnológicos importantes. No curto prazo, os depósitos que mais catapultam competitividade são os de argilas de absorção iônica, associados ao intemperismo de determinadas rochas, em ambiente de clima favorável. Não por acaso, foi esse tipo de depósito que alavancou a China, especialmente no fornecimento das chamadas terras raras pesadas, como disprósio e térbio.
No Brasil, Goiás desponta como realidade concreta, com projetos que já entraram (ou estão para entrar) no circuito produtivo. E há perspectivas em outras províncias e estados, desde que o país faça o trabalho de casa: ciência, tecnologia, regulação e escala industrial.
O Brasil já viveu momentos em que interrompeu políticas e programas estratégicos por decisões de curto prazo, como no caso dos insumos para produção de vacinas. E, quando o mundo acelerou, nós ficamos correndo atrás do tempo perdido. Essa história não pode se repetir.
Quando a demanda mundial cresce, e cresce rápido, não existe “passe de mágica”. Não se cria, por decreto, uma cadeia tecnológica complexa que envolve separação química, purificação, metalurgia, fabricação de ligas e produção de componentes avançados. Isso exige planejamento, continuidade e articulação institucional.
Nesse cenário, o debate sobre criar uma empresa nova para resolver o tema pode ser, paradoxalmente, um atalho para ficar no mesmo lugar. O Brasil já tem instituições com funções definidas: Serviço Geológico (informação de qualidade), Agência Nacional de Mineração (regulação e fiscalização), centros tecnológicos como o CETEM (desenvolvimento de processos) e as universidades (pesquisa, formação e inovação). O que falta não é inventar mais uma estrutura do zero: é financiar, integrar, inclusive com empresas privadas , e dar escala ao que já existe.
É nesse ponto que a recente iniciativa do presidente Lula, ao incluir cláusulas específicas no Acordo Mercosul-União Europeia, em fase de apreciação pelo Congresso Nacional, e ao tratar do tema em sua agenda na Índia, merece reconhecimento. Brasil e Índia assinaram um memorando de entendimento para cooperação em minerais criticos, com ênfase nas terras raras, com foco em fortalecer cadeias de suprimento, estimular investimentos e ampliar colaboração tecnológica.
Mais do que um gesto diplomático, trata-se de um movimento coerente com a conjuntura geopolítica: o mundo vive uma reorganização acelerada de cadeias estratégicas, hoje concentradas em poucos atores, com destaque para a China no domínio de etapas fundamentais, como separação e transformação, e para a pressão crescente de Estados Unidos e Europa por diversificação de fornecedores.
Ao buscar parceria com a Índia, uma potência tecnológica e industrial do Sul Global, o Brasil sinaliza que não pretende ser apenas exportador de matéria-prima. A ambição correta é atrair processamento, inovação e valor agregado, com transferência tecnológica e inserção soberana em cadeias globais, além da preservação do meio ambiente.
Não podemos repetir, nas terras raras, um modelo extrativista de alto impacto e baixo retorno social e ambiental. O país deve usar todo o seu diferecial nesse processo, que envolve respeito a biomas e comunidades, boas práticas de mineração, uso de energia limpa e padrões rigorosos de controle. Em um mundo que exige descarbonização, cadeias limpas e transparência, essa pode ser vantagem competitiva real e não apenas discurso.
Terras raras não são moda, nem milagre. É um tema de Estado. Um tema que exige ciência, continuidade, instituições fortalecidas, política industrial e diplomacia ativa. A iniciativa do governo brasileiro ao colocar o assunto na mesa, em diálogo com a Índia, aponta na direção certa: diversificar parcerias, reduzir dependências e reforçar a soberania nacional.
O desafio agora é transformar oportunidade em projeto nacional com conhecimento, planejamento e coragem para fazer do Brasil um protagonista da nova economia, sem abrir mão da sua soberania e da responsabilidade social e ambiental que o século 21 exige.
*Márcia Abrahão é doutora em geologia, ex-reitora da UnB (2016-2024) e especialista em depósitos minerais ricos em terras raras.
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Fonte : CNN