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O relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), citou trechos de Rei Lear, de William Shakespeare, no parecer final da comissão ao abordar as fraudes investigadas.

No documento, o parlamentar utiliza passagens da obra para relacionar a omissão do Estado brasileiro e a atuação de esquemas criminosos que atingiram aposentados.

O relatório abre com a citação: “Oh, eu não dei a devida atenção a isso!”, extraída do Ato III, cena 4 da tragédia.

Em seguida, também reproduz trecho do Ato IV, cena 6: “Pelas roupas rasgadas, os pequenos vícios aparecem; vestes e becas tudo encobrem. Reveste o pecado de ouro, e a poderosa lança da justiça se quebra inofensiva; envolve-o em trapos, e a palha de um pigmeu o atravessa.”

Ao longo do texto, o relator estabelece um paralelo entre a obra clássica e os fatos apurados pela comissão.

“Quatro séculos separam Shakespeare desta Comissão Parlamentar de Inquérito. Nenhum separa sua lucidez da realidade que as páginas deste Relatório documentam”, afirma o documento.

Na comparação, o relatório menciona a figura do rei que reconhece, tardiamente, sua falha diante do sofrimento dos mais vulneráveis.

“O velho Rei Lear da tragédia inglesa contempla, sob a tempestade que ele mesmo não soube prever, os miseráveis que dormem expostos ao frio, e reconhece, tarde demais, a própria omissão: ‘Oh, eu não dei a devida atenção a isso!’”, diz o texto.

O parecer transpõe a cena para o contexto brasileiro ao tratar das fraudes investigadas.

Segundo o documento, “a cena é a confissão que o Estado brasileiro deve fazer diante de cada aposentado que teve seu benefício saqueado mês após mês, em silêncio”, sem que órgãos de controle e autoridades responsáveis tenham dado atenção aos sinais do esquema.

O relatório sustenta ainda que o modelo de descontos associativos e de empréstimos consignados fraudulentos “não nasceu no escuro: cresceu à luz do dia, dentro dos sistemas do INSS, com a cumplicidade ativa ou a omissão conveniente” de agentes responsáveis por impedir irregularidades.

Em outro trecho, o relator retoma a metáfora da obra ao afirmar que a justiça se enfraquece diante de estruturas de poder.

“Mas é na segunda imagem que Shakespeare alcança sua maior precisão profética. A lança da justiça, ele nos diz, quebra-se inofensiva quando o pecado se reveste de ouro”, aponta o documento, ao acrescentar que “pelas roupas rasgadas, os pequenos vícios aparecem, e são punidos”, enquanto “debaixo das vestes e das becas, tudo se encobre”.

A comissão declara ter identificado investigados em posições de destaque.

“Ao longo de seus trabalhos, identificou investigados que habitavam os andares mais altos do poder econômico e político”, registra o relatório, citando a existência de um senador descrito pela Polícia Federal como “liderança e sustentáculo” do esquema, além de ministros de Estado, dirigentes do INSS e operadores financeiros.

O texto também menciona a atuação de estruturas financeiras complexas. Conforme o parecer, houve movimentação de bilhões de reais por meio de contas, fintechs, offshores e redes de empresas de fachada, totalizando quase quarenta bilhões de reais rastreados.

Na avaliação apresentada, esses agentes são comparados aos “homens de vestes douradas” da obra de Shakespeare.

“A veste da função pública, o prestígio do mandato parlamentar, a sofisticação da estrutura societária internacional — tudo isso funcionou, por anos, como a armadura que fazia a lança da justiça se quebrar antes de alcançá-los”, consta o relatório.

O documento contrapõe esse cenário à situação das vítimas. “Enquanto isso, nas pontas mais vulneráveis da cadeia, idosos de baixa renda residentes em áreas rurais, recebendo até dois salários-mínimos, tinham seus benefícios reduzidos por descontos que jamais autorizaram”, descreve.

Ao final, o relator afirma que o documento não pretende, por si só, resolver o problema, mas expor seus mecanismos.

“Esta Comissão Parlamentar de Inquérito não tem a ilusão de que o presente Relatório, por si só, desfará o ouro das vestes”, expõe o texto, acrescentando que identificar os responsáveis e o funcionamento do esquema é “o primeiro ato de qualquer justiça possível”.

O parecer é concluído com a retomada da metáfora central: “Que a lança, desta vez, não se quebre.”

*Sob supervisão de Renata Souza

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Fonte : CNN

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