Um estudo recente revela que aproximadamente quatro milhões de pessoas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro vivem sob o controle ou influência de grupos armados. Este número alarmante representa cerca de 34,9% da população total da região e abrange 18,1% da área urbanizada habitada. A pesquisa, que mapeou a expansão e o impacto desses grupos, destaca a crescente influência do crime organizado na vida cotidiana dos moradores, evidenciando um problema estrutural enraizado nas fragilidades do Estado e nas desigualdades sociais. Os dados expõem a urgência de políticas públicas abrangentes que abordem não apenas a segurança, mas também as causas profundas que permitem o florescimento desses grupos.
Estratégias e Expansão dos Grupos Armados
A pesquisa distingue duas formas principais de atuação dos grupos armados: o “controle”, que envolve a extração de recursos, a imposição de normas e o uso da força; e a “influência”, caracterizada por um domínio parcial ou intermitente. Em 2024, 14% da área urbanizada e 29,7% da população estavam sob controle direto, enquanto 4,1% do território e 5,3% dos moradores sofriam influência desses grupos.
Crescimento ao Longo do Tempo
Desde 2007, houve um aumento expressivo das áreas sob controle (98,4%) e influência (420,1%). O estudo aponta para dois ciclos principais de expansão. O primeiro, entre 2016 e 2020, coincidiu com a crise fiscal do estado, o enfraquecimento das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) e a intervenção federal. Durante esse período, a área dominada cresceu 31,6%. A partir de 2020, observou-se uma retração gradual, especialmente das milícias, devido a operações do Ministério Público, disputas internas e perda de lideranças, embora essa redução tenha sido modesta (7,1%).
Colonização vs. Conquista: As Táticas do Domínio
O estudo também analisa as estratégias de poder empregadas pelos grupos armados, dividindo-as em “colonização” e “conquista”. A colonização se refere à ocupação de áreas ainda não dominadas, uma tática típica das milícias em expansão. Já a conquista envolve a tomada violenta de territórios já controlados, uma dinâmica mais comum entre facções criminosas.
Impacto na População
Áreas de urbanização recente tendem a ser colonizadas, enquanto regiões densas e consolidadas se tornam palco de disputas. Essa mudança de estratégia, do “colonizar” para o “conquistar”, tem um alto custo social, aumentando a insegurança, os tiroteios e o medo na vida cotidiana dos moradores dessas áreas.
Comando Vermelho e Milícias: Quem Controla o Quê?
Em 2024, as milícias lideravam em extensão territorial, controlando 49,4% da área sob domínio armado (201 km²). No entanto, o Comando Vermelho (CV) dominava um número maior de pessoas: 1,607 milhão, representando 47,2% da população sob controle.
Dinâmica Territorial
O CV mantém hegemonia no Leste Fluminense (98%) e avança na capital, conquistando territórios antes controlados por outras facções. A Baixada Fluminense se destaca como uma área de intensa disputa, com crescimento acelerado de milícias, CV e Terceiro Comando Puro (TCP). Na capital, a Zona Oeste é predominantemente controlada por milícias, enquanto a Zona Norte enfrenta disputas entre milícias, CV e TCP.
Desigualdades e Domínio Armado
O estudo revela uma forte correlação entre desigualdade social e domínio armado. A renda média per capita em áreas controladas da região metropolitana é de R$ 1.121, comparada a R$ 1.658 nas áreas livres. Na capital, essa diferença é ainda mais acentuada: R$ 1.267 nas áreas controladas e R$ 3.521 nas áreas livres.
Racismo Estrutural
A pesquisa também aponta para disparidades raciais. Na região metropolitana, a proporção de moradores não brancos (pretos, pardos e indígenas) é de 69,1% nos territórios dominados, em comparação com 55,2% nas regiões não controladas. Nas áreas sob domínio na Zona Sul e no Centro da capital, 68,3% da população é não branca, enquanto nas demais áreas esse número cai para 25,9%.
Conclusão
O estudo evidencia que o domínio armado no Rio de Janeiro é um problema complexo e estrutural, diretamente ligado às desigualdades sociais e à fragilidade do Estado. Operações policiais isoladas não são suficientes para resolver a questão. É necessário um conjunto abrangente de políticas públicas que abordem a renda, o território, o racismo estrutural, a regulação dos mercados urbanos e o fortalecimento das instituições responsáveis por garantir direitos. Somente assim será possível romper o ciclo de violência e construir uma sociedade mais justa e segura para todos.
FAQ
1. Qual a principal conclusão do estudo sobre o domínio armado no Rio de Janeiro?
O estudo conclui que o domínio armado é um problema estrutural, enraizado nas desigualdades sociais e nas fragilidades do Estado, exigindo políticas públicas abrangentes para ser combatido.
2. Quais são as principais estratégias de atuação dos grupos armados?
As principais estratégias são a “colonização” (ocupação de áreas não dominadas) e a “conquista” (tomada violenta de territórios já controlados).
3. Qual a relação entre desigualdade social e domínio armado?
O estudo mostra que áreas sob domínio armado apresentam níveis mais baixos de renda e uma maior proporção de moradores não brancos, evidenciando a ligação entre desigualdade e a vulnerabilidade ao controle de grupos armados.
Se você se sente impactado por esta realidade e busca formas de contribuir para um futuro mais seguro e justo, considere apoiar organizações que trabalham no desenvolvimento social e na promoção da paz nas comunidades afetadas.