O diretor executivo do Atlético-MG, Paulo Bracks, fez um desabafo sobre a pressão no futebol brasileiro e afirmou que já foi profundamente afetado pelas cobranças do ambiente.
Em entrevista ao programa CNN Esportes S/A deste domingo (22), o dirigente disse que a exposição e as críticas fazem parte do cargo, mas apontou excessos.
Bracks revelou o impacto pessoal da pressão acumulada ao longo do tempo.
Eu já chorei demais, já chorei escondido demais. A gente chora de angústia, de raiva, de vontade de extravasar, porque a gente é achincalhado como se estivesse fazendo de propósito para poder prejudicar uma pessoa, para poder diminuir a vida de uma pessoa. Isso a gente não faz. E isso não se aplica só a mim, não. (…) Os jogadores sofrem muito.
O dirigente disse que entende a responsabilidade atrelada ao cargo ocupado, e que sabe que grande parte das críticas não são pessoais.
“Eu creio que nenhum diretor de futebol no Brasil é unanimidade. (…) Para vestir a camisa do Atlético como diretor executivo de futebol, em tudo dentro. Vem pressão, cobrança, crítica, agressão verbal”, ponderou.
Bracks detalhou como faz para lidar com o peso ao mesmo tempo em que tenta não deixar os comentários afetarem a performance.
“Eu lido com a crítica que é natural, só que ter ela todos os dias não faz bem para ninguém. Então, eu não quero que isso atrapalhe o meu trabalho. É óbvio que eu recebo as críticas através de um filtro ou através de dia a dia mesmo”, contou.
O diretor do Atlético-MG explicou que tenta se blindar, inclusive evitando redes sociais, mas que não é fácil lidar com as críticas mais constantes e pessoais.
“Eu mal coloco o pé fora de casa aqui em Belo Horizonte, mas às vezes dentro do condomínio, dentro do prédio, a gente já escuta algumas coisas que são inevitáveis no dia a dia. Mas eu lido bem com as críticas, eu procuro ser leve, eu procuro entender de onde vem. Algumas justas, outras injustas”, sopesou.
Saúde mental no futebol
Segundo Bracks, o acesso direto e a amplificação de opiniões têm impacto na saúde mental de profissionais do futebol.
Eu não respondo às críticas. Eu recebo elas em silêncio. E isso é muito difícil. Você ter essa resiliência, não é qualquer pessoa que suporta. Vários amigos meus e do mercado já não conseguem trabalhar com futebol mais. Há jogadores que hoje estão com dificuldade de continuar sendo jogadores.
O diretor citou exemplos recentes para ilustrar o cenário.
“O Philippe Coutinho ele retorna para o Vasco, abrindo mão de parte financeira para ter o sonho de de jogar no clube que ele saiu antes de 20 anos de idade, e ele sai porque ele não aguenta mais. Mentalmente ele está esgotado. O próprio treinador agora do Vasco, o Renato Gaúcho, quando estava no Fluminense, ele fala muito disso de parte mental”, lembrou.
Ele também mencionou a pressão sobre treinadores e dirigentes mesmo após conquistas recentes.
“É uma falta de respeito que eu nunca vivenciei no futebol o que fizeram com o Filipe Luís. Isso é um exemplo que tem que servir para todos. Eu acho que tratar as pessoas de forma correta, o ser humano e o profissional, é o mínimo que a gente tem que exigir”, declarou.
Entre a sociedade doente e o cargo de vidraça
Bracks ainda criticou o papel de parte dos formadores de opinião na amplificação desse ambiente.
Hoje a gente tem formadores de opinião que elevam essa raiva, elevam esse ódio da opinião do torcedor. É um cenário sombrio. A crítica engaja muito mais do que o elogio. Hoje em dia existe críticas aos elogios. Quando a pessoa faz o elogio, ela recebe pedra e eu sei que o meu cargo é um cargo de vidraça.
O dirigente também relatou situações de desrespeito e disse que o limite da crítica tem sido ultrapassado.
“Isso é fruto e é retrato desse imediatismo, dessa sanha de ‘hoje serve, amanhã não serve’, das pessoas serem descartáveis. Esse ódio que está disseminado, ele prejudica o futebol sim. Eu não sei até quando o futebol vai conviver harmonicamente com isso”, confessou.
O dirigente afirmou que o cenário atual ultrapassa o limite da crítica esportiva e reflete um ambiente mais amplo.
A sociedade está doente, e o futebol é a catarse disso. É uma coisa incrível. A gente vive hoje com uma onda tóxica muito grande do ser humano. (…) A crítica é sempre muito bem-vinda na vida, quando ela é construtiva, quando ela é produtiva, mas há um excesso hoje em algum nível.
CNN Esportes S/A
Com Paulo Bracks, diretor executivo de futebol do Atlético-MG, o CNN Esportes S/A chega à 131ª edição. Apresentado por João Vitor Xavier, o programa aborda os bastidores de um mercado que movimenta bilhões e é um dos mais lucrativos do mundo: o esporte.
Em pauta, os assuntos mais quentes da indústria do mundo da bola, na perspectiva de economia e negócios.
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Fonte : CNN