Ataques aéreos paquistaneses atingiram 22 alvos militares afegãos, disse o porta-voz militar do Paquistão nesta sexta-feira (27), após intensos combates entre os vizinhos do sul da Ásia que começaram durante a noite.
Pelo menos 12 soldados paquistaneses foram mortos e 274 oficiais e militantes do Taliban foram mortos desde a noite de quinta-feira (26), afirmou o porta-voz militar Ahmed Sharif Chaudhry aos repórteres.
Os dois lados divulgaram números diferentes de baixas. Além das 274 vítimas, o Paquistão afirmou também que deixou 400 feridos. Já o Afeganistão declara que 13 de seus soldados foram mortos e 22 ficaram feridos no ataque desta sexta-feira.
O porta-voz do governo talibã, Zabiullah Mujaid, também afirmou que o Afeganistão matou 55 soldados paquistaneses e capturou outros, além de ter destruído 19 postos militares paquistaneses.
A CNN não conseguiu verificar as informações vindas da região remota onde os combates estão ocorrendo.
Os países estão em guerra novamente, trocando bombardeios e disparos mortais ao longo da fronteira. O ministro da Defesa de Islamabad afirmou na madrugada desta sexta-feira (27) que a paciência de seu país “se esgotou” e declarou “guerra aberta” contra o vizinho controlado pelo Talibã.
Esse é o episódio mais recente de um conflito intermitente que opõe as forças armadas paquistanesas, bem financiadas, poderosas e com armamento nuclear, aos combatentes talibãs afegãos, experientes em batalhas há décadas – incluindo a vitória sobre as forças dos Estados Unidos e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em 2021, após anos de insurgência.
Como começou?
Na noite de quinta-feira (26), as forças armadas do Talibã lançaram ataques contra posições paquistanesas em alguns trechos de sua disputada fronteira, que se estende por 2.575 quilômetros passando por montanhas acidentadas e um deserto.
Cabul afirmou que esses ataques foram uma retaliação ao bombardeio paquistanês contra o que considerou campos de militantes no Afeganistão no fim de semana, que deixou pelo menos 18 mortos.
Em resposta, na madrugada desta sexta-feira (27), o Paquistão lançou a Operação Ghazab Lil Haqq – ou “Operação Fúria Justa”.
Ataques aéreos paquistaneses atingiram Cabul, a província de Paktia, no sudeste do país, e Kandahar, considerada o berço espiritual do Talibã, onde se acredita que esteja baseado o líder secreto do grupo, Hibatullah Akhundzada.
O Paquistão afirmou que seus ataques na madrugada desta sexta-feira tiveram como alvo instalações de defesa do Talibã afegão, uma escalada significativa na estratégia de retaliação do país.
Uma moradora de Cabul descreveu o momento em que sua família foi acordada por uma forte explosão: “Eu estava aterrorizada”, disse a mulher, cujo nome a CNN não está divulgando por razões de segurança.
“Então ouvimos tiros. Quando olhamos pela janela do nosso apartamento, vimos chamas como balas subindo no céu”, disse ela, acrescentando que não conseguiu dormir e ainda estava acordada às 5h, temendo o que poderia acontecer em seguida.
“Desde a primeira explosão, as luzes da maioria das casas e apartamentos ao nosso redor têm estado acesas”, relatou a mulher. “Tenho certeza de que todos os moradores de Cabul estão sentados com medo de serem atingidos por uma bomba.”
Os dois lados relataram números diferentes de baixas para o ataque desta sexta-feira. O Paquistão afirmou que seu exército matou 133 combatentes do Talibã afegão, enquanto o Afeganistão disse que oito de seus soldados foram mortos
A CNN não consegue verificar relatos da região remota onde os combates estão acontecendo.
No distrito de Bajaur, no noroeste do Paquistão, uma granada de morteiro disparada pelo Talibã afegão atingiu uma casa, ferindo cinco pessoas, incluindo duas crianças e uma mulher, segundo o policial Fazal Akbar.
Histórico de conflito entre os países
Sim. Apesar de compartilharem laços econômicos e culturais próximos, os dois países têm uma história complicada.
Em outubro de 2025, eles travaram seu conflito mais mortal em anos, com um frágil cessar-fogo em vigor desde então.
Após o Talibã afegão ter sido destituído do poder pelas forças da Otan em 2001 por abrigar os autores dos ataques de 11 de setembro, o Paquistão tornou-se um de seus principais apoiadores.
Seus combatentes encontraram refúgio do outro lado da fronteira, no Paquistão, e apoio para a subsequente insurgência contra o governo afegão apoiado pelos EUA, naquela que se tornou a guerra mais longa da história dos EUA.
Mas desde a vitória final do Talibã nessa guerra após a caótica retirada americana e seu retorno ao poder em Cabul, o Paquistão tem enfrentado um aumento na violência islâmica.
Islamabad culpa os militantes do Talibã paquistanês por grande parte dessa violência – e acusa Cabul de dar-lhes abrigo em seu território.
Muitos desses ataques são realizados com armas americanas deixadas para trás durante a retirada caótica, informou a CNN. O Talibã afegão nega abrigar seu homônimo paquistanês.
Mais de 1.200 pessoas, incluindo militares e civis, foram mortas em ataques militantes em todo o país em 2025, segundo dados compartilhados com a CNN pelo Exército paquistanês. Isso é o dobro do número registrado em 2021, quando os EUA se retiraram de Cabul e o Talibã afegão retornou ao poder.
Muitas figuras do Talibã afegão ainda têm propriedades e famílias no Paquistão, disse o ministro da Defesa do país, Khawaja Asif, à CNN em novembro. Quando perguntado pela CNN se o atual pico de violência era a definição de retaliação, ele respondeu: “Sim, eu acho que sim.”
Asif recorreu às redes sociais na manhã de sexta-feira para acusar o Afeganistão de reunir “todos os terroristas do mundo” e “exportar terrorismo”, enquanto priva seu próprio povo de direitos humanos.
“Nossa paciência se esgotou”, escreveu Asif no X. “Agora é guerra aberta entre nós e vocês.”
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Fonte : CNN