Os preços dos ovos de chocolate nesta Páscoa não estão tão baratos como esperava o consumidor e a explicação está no campo. A cadeia de cacau global foi prejudicada por eventos climáticos entre 2023 e 2024, pressionando as cotações da tonelada nas bolsas internacionais. Quando a equação da oferta e demanda ficam desbalanceadas, a indústria paga mais caro pela matéria-prima do chocolate e, consequentemente, o repasse de preços acontece nos supermercados.
Os preços do cacau, entretanto, voltaram a cair e oscilar entre US$ 3 mil a US$ 5 mil na bolsa de Nova York, dando um fôlego para as fabricantes de chocolate no Brasil, que esperam recuperar a margens de lucro este ano, como é o caso da Cacau Show, o que deve refletir melhores preços no varejo no segundo semestre do ano e em 2027.
Nesta Páscoa, supermercados trabalham com estoques e com produtos que foram produzidos – e comprados – com o valor do cacau mais alto. Contudo, dados da Organização Internacional do Cacau (ICCO) apontam para um superávit global estimado de cerca de 200 mil toneladas até o final de 2026, um sinal de que a oferta tem reagido, depois do choque de preços dos últimos anos.
Ao mesmo tempo, a moagem — um indicador de consumo — permaneceu pressionada ao longo de 2025, refletindo não apenas custos elevados, mas também uma queda no apetite por chocolate em mercados maduros.
A moagem de cacau na Europa caiu 8,3% em relação ao ano anterior, para 304,47 mil toneladas no quarto trimestre. Foi a sexta queda consecutiva e muito pior do que as previsões do mercado, que apontavam para uma baixa de 2,9%. O mercado europeu representa entre 40% e 45% do consumo global de cacau.
“Ainda que hoje o cenário seja mais positivo do ponto de vista da oferta de amêndoas, isso não traz tranquilidade para a cadeia como um todo. Extremos climáticos continuam impactando fortemente a cultura do cacau, e esse quadro pode mudar de uma hora para outra”, afirma à CNN Anna Paula Losi, presidente executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).
Para 2026, o desafio central será evitar que o ajuste se transforme em um novo ciclo de desequilíbrio. “Se o preço cair demais, há desestímulo à produção. A oferta encolhe, o preço volta a subir e o consumo cai novamente. É um ciclo vicioso”, afirma. “A grande pergunta é qual é esse ponto de equilíbrio. Ninguém sabe responder.”
Impacto na cadeia e no Brasil
A reintrodução de oferta e a queda dos preços internacionais não representam, no entanto, uma recuperação instantânea para todos os elos da cadeia. Oscilações climáticas nos polos africanos continuam a ser um fator de risco, e muitos produtores e processadores lidam com estoques baixos e custos elevados de frete e financiamento dos cacau.
No Brasil, a indústria doméstica segue sensível à precificação e à oferta, uma vez que grande parte da amêndoa utilizada pela indústria local continua a ser importada.
Com o mercado de cacau em ajuste, a indústria brasileira de chocolate olha para a Páscoa de 2026 com expectativas menos tensas do que nos anos anteriores, mas também com cautela.
“Se você perguntar ao produtor, ele vai dizer que não é suficiente. Se perguntar à indústria, ela também pode discordar. Os patamares de 2024 eram claramente insustentáveis”, afirma Losi.
Os traders agora aguardam dados de moagem da América do Norte e da Ásia. Enquanto isso, o clima favorável nas principais regiões produtoras da África Ocidental, particularmente na Costa do Marfim e em Gana, deve aumentar as colheitas em fevereiro e março, com os agricultores também prevendo uma melhor qualidade da safra. Segundo eles, os cacaueiros já estão começando a florescer, um sinal positivo que pode impulsionar a próxima colheita de meio de temporada, prevista para o período entre abril e setembro.
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Fonte : CNN