O senador Flávio Bolsonaro (PL) afirmou nesta quarta-feira (11) que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi “pequeno” ao cancelar a ida à posse do novo presidente chileno, José Antonio Kast. A declaração foi feita após a cerimônia de posse do chefe de Estado do Chile.
“Lula foi muito pequeno com essa postura, porque ele não consegue conviver com pessoas que pensam diferente dele. O Chile é um parceiro do Brasil e pode ser a saída do Brasil no oceano pacífico. Ele deixa de defender os interesses brasileiros por uma questão pessoal, uma birra, um rancor em primeiro lugar. Então, graças a Deus temos aqui um senador brasileiro”, declarou.
O senador também comparou o presidente brasileiro ao novo presidente chileno.
“Presidente Kast é muito maior que Lula. Se eu fosse ele, iria descansar, já deu o que tinha que dar no Brasil”, disse o parlamentar.
Na terça-feira (10), em entrevista ao veículo chileno 24 Horas, da emissora pública chilena Televisión Nacional de Chile (TVN), Flávio comentou que Lula “não respeita quem pensa diferente e, o tempo todo, fala com muito ódio e ressentimento no coração.”
Já Lula definiu como “indelicadeza” o convite feito pelo presidente eleito do Chile ao senador Flávio Bolsonaro.
Governo do Chile
A posse de José Antonio Kast como presidente do Chile, nesta quarta, consolida a tendência regional dos últimos anos de eleições que interrompem ciclos progressistas e levam governos de direita ao poder em diversos países latino-americanos.
Após as posses de Rodrigo Paz, na Bolívia, e Nasry Asfura, em Honduras, a chegada de Kast ao Palácio de La Moneda equilibra a proporção de países governados pela direita e pela esquerda na região.
Na América do Sul, os países sob liderança da direita passam a ser cinco. Além de Kast no Chile, e Paz na Bolívia, essa ideologia é representada na Argentina por Javier Milei, no Paraguai por Santiago Peña, e no Equador por Daniel Noboa.
A esquerda ainda predomina devido à recente mudança no governo interino do Peru. Após o impeachment de José Jerí, de direita, assumiu José María Balcázar, identificado como de esquerda.
A balança progressista também é composta pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por Gustavo Petro, na Colômbia, por Yamandú Orsi, no Uruguai, por Delcy Rodríguez na Venezuela, Irfaan Ali na Guiana, e Jennifer Geerlings-Simons no Suriname.
A Colômbia e o Brasil, no entanto, terão eleições presidenciais neste ano, em maio e outubro, respectivamente.
Na América Central, a direita ganhou espaço nos últimos anos, com o governo de Nayib Bukele em El Salvador, a recente eleição de Nasry Asfura em Honduras, a chegada ao poder de José Raúl Mulino no Panamá e de Rodrigo Chaves na Costa Rica.
A esquerda, porém, resiste em países como Cuba, Nicarágua e na Venezuela, apesar do crescente alinhamento do governo de Delcy Rodríguez com o governo de Donald Trump após a captura de Nicolás Maduro.
Além disso, as principais economias latino-americanas, caso do Brasil, do México e da Colômbia, continuam governadas por presidentes de esquerda.
Fatores e desafios da direita
Para Felippe Ramos, analista internacional de risco político, o equilíbrio da balança a favor da direita se explica pela crescente preocupação da população com a segurança e com os problemas migratórios.
José Antonio Kast venceu as eleições com uma plataforma de “mão dura” e prometeu expulsar do país todos os migrantes irregulares a partir desta quarta.
“A segurança é o calcanhar de Aquiles da esquerda, que defende uma visão mais voltada para a inclusão social, em uma conjuntura em que a população em geral, inclusive as classes mais pobres, que são as mais afetadas pela insegurança, quer mão dura”, avaliou.
Apesar da variedade entre os governos de direita, ele ressalta a atual conjuntura, em que a maioria das administrações, inclusive as menos radicais, estão orbitando ao redor de Trump.
Alinhamento com os Estados Unidos
O exemplo mais recente foi a participação de diversos presidentes latino-americanos, inclusive de centro-direita e até Irfaan Ali, de esquerda, no evento “Escudo das Américas”, liderado por Trump, na Flórida.
Na ocasião, Trump chegou a dizer, na frente do presidente panamenho, José Raúl Mulino, que não permitirá influência estrangeira no Canal do Panamá e que não falaria a “maldita língua” da maioria dos líderes presentes, em referência ao idioma espanhol.
Apesar do constrangimento, Ramos analisou ser conveniente para os presidentes da região ter acesso a Trump, num momento de ameaças dos EUA a diversos países.
Segundo ele, os ataques à Venezuela que resultaram na captura de Maduro em janeiro mostraram que as grandes economias regionais — Brasil, México e Colômbia — já não são capazes de liderar a coordenação de posições multilaterais.
“Quando o tema é geopolítico, o Brasil não é a China, o México não é a Rússia, não têm condições realmente de liderar, de proteger. Então, na prática, os países pequenos, principalmente os que estão na órbita direta dos Estados Unidos, não têm o que fazer. Vão pedir ajuda ao Brasil? O Brasil não consegue proteger nada”, exmplicou.
O alinhamento acaba provocando um giro em posicionamentos históricos unificados na região. Cuba é um dos casos mais ilustrativos.
Em 2025, a Argentina abandonou a postura de 30 anos contra o embargo à ilha comunista. Também alinhado aos EUA, o Paraguai, que desde 2015 votava contra o bloqueio, mudou de posição no ano passado. Da mesma forma, o Equador abandonou o voto contra o embargo e optou pela abstenção.
Avanço na região
Para Gabriel Vommaro, pesquisador das direitas da Argentina e América Latina e professor de sociologia política da Universidade Nacional de San Martín, houve um fortalecimento das opções de direita na última década capazes de competir com a hegemonia de movimentos como o peronismo, na Argentina.
Ao mesmo tempo, ele observou a ascensão de uma direita radical, inaugurada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que rompe consensos e ultrapassa limites que previamente havia no debate público e muda a forma de lidar com questões raciais, culturais e de direitos humanos.
De acordo com ele, essa reformulação encontrou um contexto favorável com o segundo mandato de Trump. Vommaro ressaltou, no entanto, que o presidente norte-americano tem conseguido aglutinar ao seu redor governos de diferentes características em termos programáticos, inclusive os mais moderados.
“Há dois fenômenos: a consolidação e o crescimento da direita em sua diversidade como oferta política. E com eles, veio a particularidade da ascensão da extrema direita, que é algo novo em termos eleitorais na região, onde ela já existia, mas com pouca influência nas urnas”, pontuou.
A dúvida, para o analista, é a durabilidade desses governos. “Macri não se reelegeu na Argentina, Bolsonaro não se reelegeu no Brasil, Iván Duque não conseguiu nem colocar um candidato próprio na seguinte eleição na Colômbia. Já não parece haver ciclos políticos tão longos na região, as reeleições estão mais difíceis”, finalizou.
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Fonte : CNN