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A expressão motores flex diesel-etanol aparece com mais frequência em pesquisas e projetos de montadoras, mas ainda é pouco conhecida do público em geral. Diferentemente do flex tradicional, que combina gasolina e etanol no mesmo tanque, essa nova geração de motores busca unir a robustez do diesel à menor pegada de carbono do etanol, com foco principalmente em veículos comerciais, pesados e frotas urbanas. A proposta é reduzir emissões e custos operacionais sem abrir mão do desempenho necessário para o transporte de cargas e passageiros.

Na prática, trata-se de motores que continuam sendo, em essência, motores diesel, mas adaptados para funcionar com grande participação de etanol no processo de combustão. Em muitos projetos, o sistema é chamado de dual fuel (duplo combustível): o diesel entra em menor quantidade, enquanto o etanol assume o papel de combustível predominante. Essa combinação se apoia no fato de que o Brasil já possui uma cadeia estruturada de produção e distribuição de etanol, além de ampla experiência com motores flex em veículos leves.

Como funciona a combinação de diesel e etanol

O funcionamento de um motor flex diesel-etanol é baseado na ignição por compressão, característica típica dos motores a diesel. A diferença está na forma como os dois combustíveis participam do ciclo. Primeiro, uma quantidade relativamente pequena de diesel é injetada sob alta pressão na câmara de combustão. Ao ser comprimido, esse diesel atinge altas temperaturas e entra em autoignição, gerando a chama inicial necessária para o processo.

Em seguida, o etanol, injetado em outro ponto do sistema (no coletor de admissão ou diretamente na câmara, conforme o projeto), é inflamado pelo calor e pela pressão gerados pela queima inicial do diesel. Com isso, o etanol passa a responder por grande parte da energia produzida, enquanto o diesel atua como uma espécie de “gatilho” da ignição.

Todo esse processo é monitorado por sistemas eletrônicos de gerenciamento, que ajustam em tempo real a proporção entre os combustíveis, o tempo de injeção e outros parâmetros para equilibrar desempenho, consumo e emissões.

Essa arquitetura permite uma certa flexibilidade: em alguns casos, o motor pode operar com diferentes proporções de etanol e diesel, adaptando-se à disponibilidade de combustível e ao tipo de uso do veículo. Em situações específicas, ainda é possível rodar apenas com diesel, o que garante segurança operacional, mas sem os mesmos ganhos ambientais proporcionados pelo uso combinado com etanol.

Vantagens e desafios da tecnologia diesel-etanol

A aposta em motores flex diesel-etanol está diretamente ligada à busca por soluções de descarbonização do transporte, especialmente em países com forte vocação para biocombustíveis, como o Brasil.

Entre as principais vantagens está a redução potencial de emissões de CO₂, já que o etanol é um combustível renovável com ciclo de carbono mais favorável em comparação ao diesel fóssil. Outra vantagem relevante é a tendência de menor emissão de material particulado e fumaça, problema historicamente associado à frota movida apenas a diesel, sobretudo em áreas urbanas.

Do ponto de vista econômico, a tecnologia abre espaço para aproveitar melhor a infraestrutura já existente de etanol, tanto na produção quanto na distribuição, além de reduzir a dependência direta do petróleo em períodos de volatilidade internacional de preços. Para frotas que atuam em setores intensivos em logística (como abastecimento de supermercados, bares, restaurantes e serviços urbanos) a combinação pode significar, no médio prazo, menor impacto ambiental sem comprometer a eficiência operacional.

Por outro lado, a tecnologia ainda enfrenta desafios importantes. O controle da queima simultânea de dois combustíveis com características tão diferentes torna o sistema mais complexo e sofisticado, exigindo eletrônica avançada e calibração precisa. O etanol também apresenta comportamento distinto em baixas temperaturas, o que pode exigir soluções específicas de aquecimento e partida. Além disso, questões de regulamentação, padrões de homologação e custos iniciais precisam ser amadurecidas antes de uma adoção em larga escala pelo mercado.

Diferenças em relação ao flex gasolina-etanol

A semelhança no nome pode gerar confusão, mas o motor flex diesel-etanol é bem diferente do flex que combina gasolina e etanol, encontrado na maioria dos automóveis brasileiros. O ponto central está no tipo de ignição: nos motores flex gasolina-etanol, a combustão depende da vela de ignição e de uma mistura ar–combustível preparada no sistema de injeção; já no diesel-etanol, não há vela: a combustão é iniciada pela compressão do diesel, responsável por criar as condições para que o etanol também queime.

Outra diferença importante está no armazenamento dos combustíveis. No flex de veículos leves, gasolina e etanol são colocados no mesmo tanque, em qualquer proporção, sem necessidade de intervenção do motorista. No caso do diesel-etanol, é comum que o sistema conte com tanques e circuitos separados, um para o diesel e outro para o etanol, com gerenciamento automático da proporção usada em cada momento. Além disso, enquanto o flex gasolina-etanol se consolidou no mercado de veículos leves, o flex diesel-etanol nasce com foco prioritário em veículos pesados, ônibus, caminhões e equipamentos agrícolas, justamente os segmentos em que o consumo de diesel é mais alto.

Perspectivas para o Brasil e o papel do etanol

O avanço dos motores flex diesel-etanol dialoga diretamente com as discussões sobre descarbonização do transporte e ampliação do uso de biocombustíveis no Brasil. O país reúne um conjunto de fatores favoráveis: grande produção de cana-de-açúcar e etanol, experiência comprovada em tecnologia flex nos carros de passeio e uma frota expressiva de veículos a diesel que movimenta a economia.

Se a tecnologia se consolidar, pode abrir um novo e importante mercado para o etanol, indo além dos veículos leves e ganhando espaço em frotas urbanas e rodoviárias. Projetos-piloto com ônibus urbanos, caminhões de distribuição e veículos de serviço podem servir de vitrine para demonstrar ganhos reais em emissões e custos operacionais. Em paralelo, políticas públicas ligadas a metas de descarbonização e programas de incentivo a biocombustíveis tendem a influenciar o ritmo de adoção dessa solução.

 

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Fonte : CNN

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