Após reverter prejuízo e registrar resultado recorde em 2025, a Minerva Foods projeta um cenário mais desafiador para 2026, marcado por pressão de custos, incertezas geopolíticas e mudanças no comércio internacional de carne bovina.
A companhia, maior exportadora de carne bovina da América do Sul, encerrou 2025 com lucro líquido de R$ 848,3 milhões, uma virada frente ao prejuízo superior a R$ 1,5 bilhão registrado em 2024.
No período, cerca de 60% da receita veio das exportações, reforçando o peso do mercado externo na estratégia da empresa.
Pressão de custos
Segundo o diretor financeiro da companhia, Edison Ticle, o início de 2026 já mostra sinais de maior dificuldade operacional. “Dependendo do que acontecer, devemos ter um ano de 2026 realmente pior do que em 2025”, afirmou.
Ele destacou que a companhia já espera repasse de custos ao longo do ano, em um ambiente de inflação pressionada por diesel, energia e frete. “Vai ter inflação de custos… isso tudo deve fazer a margem em 2026 ser pior que 2025”, disse.
O executivo também citou a expectativa de queda na produção global, o que pode retirar cerca de 1 milhão de toneladas de carne do mercado.
Menor oferta global pode sustentar preços
Apesar das pressões, a empresa vê um ponto de sustentação: a redução da oferta global de carne bovina.
Países-chave como Brasil, Estados Unidos, Austrália e China devem produzir menos em 2026, o que pode abrir espaço para aumento de preços em um cenário de demanda estável.
“Não adianta dar guidance porque vocês não acreditam… mas devemos ter crescimento de top line entre 6% e 10%, e o Ebitda de 2025 deve ser o piso para 2026.”
China impõe novo desafio ao Brasil
Um dos principais pontos de atenção está no mercado chinês, principal destino da carne bovina brasileira. A adoção de salvaguardas pela China prevê tarifas adicionais de até 55% para volumes que ultrapassarem a cota anual.
O CEO Fernando Galletti de Queiroz afirmou que o cenário exige adaptação. “Obviamente limita a China como destino, e o Brasil tem que trabalhar outras alternativas de mercado.”
Ele destacou ainda que a política de cotas foi baseada em uma média de exportações dos últimos três anos anteriores a 2025, o que acabou reduzindo o potencial de embarques dentro da nova regra. “2025 o Brasil acelerou muito. Com essa média, a salvaguarda ficou menor do que o potencial.”
Segundo o executivo, ainda há incertezas sobre a aplicação prática das cotas. “Existe ainda uma não oficialização de um critério… enquanto isso os embarques seguem normais.”
Estratégia: diversificação geográfica
Para mitigar esse risco, a Minerva aposta na diversificação de origens e mercados. A empresa destacou que suas operações in países como Argentina, Uruguai, Colômbia e Paraguai permitem reduzir a dependência do Brasil nas exportações para a China.
“Minerva tem uma distribuição geográfica única dentro da América do Sul. O Brasil é metade do resultado, o resto vem de outros países”, afirmou Queiroz.
Ele acrescentou que a própria restrição chinesa pode gerar oportunidades. “Por exemplo, a salvaguarda imposta pela China pode ser uma vantagem para outros países onde operamos.”
Consumo e mercado interno
Apesar da perspectiva positiva para preços globais, a companhia vê cautela no mercado doméstico. “Há uma preocupação com o consumidor brasileiro devido à pressão de custo e inflação. Podemos ver um mercado estável ou com leve contração”, disse Queiroz. Segundo ele, o consumidor pode migrar para produtos mais baratos.
Guerra no Oriente Médio
A exposição da Minerva ao Oriente Médio representa menos de 7% das exportações. “O impacto de faturamento é pequeno em relação aos destinos”, disse Ticle, destacando, porém, o aumento do custo logístico. A empresa também ressaltou que rotas alternativas seguem sendo utilizadas.
Aquisições seguem como diferencial
Os executivos ressaltaram que parte relevante do desempenho de 2025 veio da integração de ativos adquiridos da Marfrig, elevando o número de unidades de 26 para 38. Segundo a companhia, o processo de integração já foi concluído. “Houve a conclusão da integração e a normalização das operações. Ainda existe possibilidade de novas capturas de sinergias”, afirmou Ticle. Ele destacou que as aquisições permitiram diluir custos e melhorar a eficiência operacional.
Alavancagem e caixa
A Minerva também destacou a melhora na sua estrutura financeira. “A alavancagem está em um patamar saudável, equilibrado e deve continuar evoluindo nos próximos trimestres”, disse Ticle. O indicador ficou em 2,6 vezes, abaixo do consenso de mercado, que projetava 3,9 vezes.
Apesar do desempenho recorde, a companhia avalia que o mercado ainda não incorporou os resultados no preço das ações. “O mercado precifica a companhia no mesmo valor de 2024, mesmo depois do êxito do ano passado”, afirmou Ticle.
Dividendos
A Minerva retomou a distribuição de dividendos, com R$ 162 milhões pagos antecipadamente. Agora, a companhia propõe uma distribuição adicional de cerca de R$ 30,8 milhões, totalizando R$ 192,9 milhões referentes ao exercício de 2025.
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Fonte : CNN