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Desde a invenção do cinema, diretores têm sido atraídos pelo clássico gótico do século 19 de Mary Shelley, “Frankenstein”. Em 1931, James Whale ofereceu a versão definitiva da história com o ator Boris Karloff, o crânio achatado e fala gutural.

O filme foi um sucesso comercial e solidificou a reputação da Universal Pictures como a casa do horror. A criatura foi, então, desenterrada e reanimada através do olhar de Terence Fisher em 1957, Mel Brooks em 1974 e Kenneth Branagh em 1994, para citar alguns.

A última refilmagem — uma versão emocionalmente simpática, ainda que disneyficada, na qual os longos cílios escuros de Jacob Elordi ganham destaque — veio do diretor mexicano Guillermo del Toro há apenas alguns meses. Mas, enquanto o clima, gênero e direção artística dessas adaptações podem ter mudado ao longo do último século, um elemento permaneceu relativamente consistente: quase todas foram dirigidas por homens.

Agora uma rara voz feminina entra no cânone de “Frankenstein” com “A Noiva!” de Maggie Gyllenhaal, estrelando Jessie Buckley, estreando nos cinemas dos EUA e Reino Unido esta semana. A atriz que se tornou diretora se inspira na sequência spin-off de Whale de 1935, “A Noiva de Frankenstein”, estrelando Elsa Lanchester com um penteado bufante e eletrizante com mechas e sobrancelhas em forma de flechas. No romance de Shelley, a criatura solitária exige uma companheira romântica após ser rejeitada pela humanidade. Seu criador cientista, Victor Frankenstein, relutantemente concorda, mas no último momento despedaça a companheira inacabada membro por membro enquanto a criatura observa horrorizada. Whale, e posteriormente os diretores Franc Rodman, Branagh e agora Gyllenhaal, imaginaram o que poderia ter acontecido se Frankenstein tivesse completado o monstro feminino.

O lançamento de “A Noiva!” levanta algumas questões mais amplas sobre como poucas mulheres adaptaram esta história, apesar do fato de ter sido originalmente escrita por uma. Perguntamos a estudiosos, curadores de cinema e especialistas na obra de Shelley por que isso acontece — e o impacto que isso tem sobre como entendemos o conto de 200 anos.

Por que tantos diretores homens refilmaram “Frankenstein”?

A resposta pode ser tão simples quanto a desigualdade de gênero

Durante o início do século XX, diretoras de cinema eram raras e podiam frequentemente ser contadas nos dedos de uma mão — de Alice Guy-Blanché e Lois Weber a Dorothy Arzner. “No cinema, há muito mais diretores homens”, disse a Dra. Jo Botting, curadora de ficção do Arquivo Nacional BFI em Londres, de forma direta. “E acho que o horror é um gênero que possivelmente atrai mais homens.”

Ainda assim, alguns estudiosos acreditam que há mais a dizer sobre o que atrai a psique diretorial masculina ao romance de Shelley. “Uma visão cínica seria que eles se identificam com o Complexo de Deus”, disse Daniel Cook, professor da Universidade de Dundee na Escócia e especialista em literatura dos séculos 18 e 19. “De muitas maneiras, o romance “Frankenstein” pode funcionar como uma espécie de metáfora para o próprio processo criativo e seus desafios, mas também para as recompensas que vêm com isso.” Assim como Victor Frankenstein cria vida, os diretores criam uma imagem da vida na tela. “Acho que os cineastas talvez sintam uma estranha afinidade com isso”, disse Cook.

Eleanor B. Johnson, professora de inglês da Universidade Columbia e autora de “Scream with Me: Horror Films and the Rise of American Feminism” (“Grite Comigo: Filmes de Terror e a Ascensão do Feminismo Americano”, em tradução livre), acredita que os diretores homens anteriores tendiam a focar exclusivamente nos temas de ambição e arrogância do romance. “Os cineastas realmente gostam de uma narrativa sobre húbris”, ela disse. “O problema central de Victor Frankenstein é que ele superestima seu próprio poder. É a ideia de um homem que tem húbris e então fracassa. Isso é épico. Esse é como nosso paradigma de história mais antigo no cânone ocidental.”

“É um tema muito sexy para diretores”, ela continuou.

Será que entendemos “Frankenstein” de forma errada?

É talvez fácil esquecer, com uma história tão duradoura quanto “Frankenstein”, cujos personagens masculinos alcançaram status tão mítico, que o conto foi originalmente escrito por uma garota adolescente. Na verdade, o romance de Shelley era tão inventivo em seu horror que muitos de seus contemporâneos simplesmente não acreditavam que ela poderia tê-lo escrito.

Na introdução do livro de 1831, Shelley escreveu sobre os questionamentos frequentes que enfrentava sobre como ela, “uma jovem garota, veio a pensar e se alongar sobre uma ideia tão hedionda?”

Mas para Johnson, é exatamente este contexto que nos falta ao interpretar — e adaptar — o livro. “Existe uma tentação feminista de resistir ao impulso de ler o romance de Mary Shelley como um romance escrito por uma mulher”, disse ela. “Mas o fato é que ela era uma mulher e escreveu o romance em meio a repetidas perdas e traumas reprodutivos”, acrescentou Johnson. “E não prestar atenção a isso realmente diminui o que o romance está fazendo.”

O próximo livro de Johnson, “Mother of Frankenstein: Mary Shelley’s Creature in the 21st Century” (“A Mãe de Frankenstein: A Criatura de Mary Shelley no Século XXI” em tradução livre), relê a história através da lente da própria experiência trágica de maternidade da autora. Quando começou a escrever o romance, Shelley já havia perdido sua primeira filha, Clara — e até mesmo sonhado em trazer o bebê de volta à vida, segundo registros em seu diário. Ela perdeu mais dois filhos em 1817 e 1819. Shelley reutilizou o nome Clara para sua segunda filha, que morreu na infância. “O que não é insignificante”, disse Johnson. “Ela queria trazer aquele bebê de volta.” Deste ponto de vista, a história pode ser entendida como “uma meditação sobre perda, vulnerabilidade e luto”, disse Johnson. “Em particular, dano reprodutivo e perda reprodutiva.”

Mesmo na sala de aula, estudiosos estão embarcando em novas leituras de um texto antigo. Segundo Cook, que leciona “Frankenstein” em nível universitário, seus alunos recentemente têm se interessado mais pela dinâmica de gênero do romance. Particularmente, a introdução da noiva antes de ela ser despedaçada e jogada ao mar. “Eles ficam realmente impressionados com a violência que Victor impõe naquela cena”, disse ele

“Foi apenas nos últimos dois ou três anos, acho que conforme o discurso sobre violência de gênero realmente avançou, que eles aplicam essas ideias a um romance como “Frankenstein”.”

O gênero de um diretor realmente importa?

Dra. Botting argumenta que não. “Toda história precisa ter uma nova perspectiva feminina? Não sei”, disse ela. “Para miim, o ponto central desta história é que ela trata da hubris masculina e de um homem brincando de Deus. Acho que há um limite para quanto você pode mexer com a história em termos de gênero.”

Para Johnson, a resposta é mais complexa. A leitura de “Frankenstein” como um conto de perda reprodutiva e luto materno foi largamente perdida nas telas. “Se você olhar para as principais franquias do século 20”, disse ela, “todas elas quase que totalmente obliteram qualquer perspectiva feminina da história.” Ela aponta várias “adaptações oblíquas” centradas no feminino — filmes que indiretamente se inspiram em temas do romance de Shelley — como a vencedora da Palma de Ouro em Cannes 2021, “Titane”, de Julia Ducournau, ou “Birth / Rebirth” (2023), de Laura Moss. Mas entre as quase 20 adaptações explícitas de “Frankenstein” criadas entre 1931 e 1977, ela disse, “todos esses filmes focam em homens.”

O filme original de 1935 que inspirou a versão de Gyllenhaal também seguiu essa linha. “Eu assisti ao filme e pensei: “Ah, a “Noiva de Frankenstein” é um filme de Frankenstein””, Gyllenhaal disse ao New York Times. No filme de Whale, a noiva não fala — apenas grita ou sibila como um gato irritado — e ganha vida 5 minutos antes dos créditos finais. Foi esse silenciamento cinematográfico que irritou Gyllenhaal. “Quando vi aquele filme, me fez pensar: “Espere””, disse ela na estreia de seu próprio filme em Londres. “Eu quero saber o que ela tem a dizer”

“Eu quero saber como ela está pensando e sentindo.”

Por mais completo que o cânone de “Frankenstein” possa parecer, há espaço para pelo menos mais um.

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Fonte : CNN

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