Em uma sessão marcada por forte emoção, o Conselho de Sentença do III Tribunal do Júri do Rio de Janeiro condenou, nesta quinta-feira (5), Cíntia Mariano Dias Cabral a 49 anos, 6 meses e 20 dias de reclusão, em regime inicial fechado, por envenenar os enteados com “chumbinho”.
Ela foi considerada culpada pelo homicídio qualificado de Fernanda Carvalho Cabral, de 22 anos, e pela tentativa de homicídio qualificado contra Bruno Carvalho Cabral, então com 16, em crimes ocorridos em 2022, em Padre Miguel, na zona oeste da capital.
O julgamento, iniciado na tarde de quarta-feira (4), durou cerca de 15 horas e foi encerrado na madrugada desta quinta. A sessão foi presidida pela juíza Tula Corrêa de Mello, que destacou a gravidade da conduta da ré ao anunciar a sentença.
Pela morte de Fernanda, a pena foi fixada em 30 anos de prisão. Já pela tentativa de homicídio contra Bruno, a condenação foi de 19 anos, 6 meses e 20 dias. Os jurados reconheceram as qualificadoras de emprego de veneno e motivo fútil, este último relacionado ao ciúme que a acusada demonstrava da relação do companheiro, Adeilson Jarbas Cabral, com os filhos.
Ao justificar a decisão, a magistrada afirmou que o crime foi planejado. Segundo ela, a acusada agiu de forma premeditada e tentou despistar os médicos durante o atendimento de Fernanda ao sugerir que a jovem poderia ter passado mal por causa do uso de anabolizantes, o que teria prejudicado o diagnóstico e reduzido as chances de sobrevivência.

Embate entre defesa e acusação
Durante o julgamento, a defesa de Cíntia Mariano sustentou que as provas periciais seriam insuficientes para comprovar que ela havia administrado o veneno nas vítimas. Os advogados questionaram a consistência dos laudos técnicos, afirmaram que resultados iniciais teriam sido negativos e também contestaram a validade da exumação do corpo de Fernanda.
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, por meio do GAEJURI (Grupo de Atuação Especializada do Tribunal do Júri) e da 1ª Promotoria de Justiça junto ao III Tribunal do Júri da Capital, rebateu os argumentos com laudos que indicaram a presença de grânulos de raticida clandestino do tipo carbamato — substância presente no veneno conhecido como “chumbinho”.
Segundo os promotores, exames apontaram vestígios da substância no suco gástrico de Bruno e em registros médicos de Fernanda, confirmando que ambos apresentaram sintomas compatíveis com intoxicação exógena.
Depoimentos considerados decisivos
Os depoimentos dos filhos biológicos da ré, Lucas e Carla Mariano Rodrigues, também tiveram peso no julgamento. Em juízo, os dois afirmaram que a mãe confessou informalmente ter envenenado os enteados após receber alta hospitalar de uma suposta tentativa de suicídio.
Lucas relatou que Cíntia disse ter colocado “chumbinho” no feijão servido a Bruno e afirmou que havia feito “a mesma coisa” com Fernanda, justificando o ato como motivado por amor ao companheiro. Já Carla mencionou conflitos frequentes e disse que a mãe demonstrava incômodo até com o dinheiro que a enteada recebia no trabalho.
Relatos das vítimas e familiares
Bruno Carvalho Cabral, que sobreviveu ao envenenamento, também prestou depoimento durante o julgamento. Ele contou que percebeu um gosto amargo no feijão servido pela madrasta e notou a presença de “bolinhas azuis” na comida.
Segundo o jovem, ao questionar a madrasta sobre o alimento, ela teria demonstrado nervosismo. Bruno ficou internado por cinco dias no CTI (Centro de Terapia Intensiva) após o episódio.
O pai das vítimas, Adeilson Jarbas Cabral, relatou que Cíntia demonstrava ciúme da relação dele com os filhos e chegou a apagar mensagens enviadas por eles no celular para evitar que ele as visse.
Já Jane Carvalho Cabral, mãe de Fernanda e Bruno, afirmou que, durante a internação da filha, os batimentos cardíacos da jovem aumentavam sempre que Cíntia se aproximava do leito.
Relembre o caso
O primeiro episódio ocorreu em 15 de março de 2022, quando Fernanda passou mal após o jantar na casa da madrasta. A jovem apresentou sintomas como tontura e visão turva e permaneceu internada por 13 dias, morrendo em 27 de março. Inicialmente, a morte foi tratada como natural, mas a suspeita de envenenamento surgiu cerca de dois meses depois, levando à exumação do corpo.
Em 15 de maio do mesmo ano, Bruno também passou mal após consumir uma refeição preparada por Cíntia. O adolescente relatou ter sentido gosto amargo no feijão e percebido “bolinhas azuis” no alimento. Ele foi levado rapidamente ao hospital e sobreviveu após passar por lavagem estomacal, procedimento que confirmou a presença do veneno.
Ao encerrar a sessão, a juíza Tula Corrêa de Mello dirigiu palavras à família das vítimas.
“A Fernanda não vai voltar, mas de certa forma acredito que esse é um momento importante, no momento que a justiça está sendo feita”, afirmou.
Cíntia Mariano já estava presa preventivamente desde julho de 2022 e teve a prisão mantida. Segundo a decisão judicial, ela não poderá recorrer em liberdade.
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Fonte : CNN