Ele faz questão de corrigir antes mesmo da pergunta terminar. Não é só Lucas. Não é só Pinheiro. Não é só Braathen.
“Meu nome é Lucas Pinheiro Braathen”, diz, com naturalidade. “O Pinheiro é da família da minha mãe, o Braathen é norueguês. Meu nome é a representação das minhas duas nacionalidades.”
Neste sábado, 14 de fevereiro de 2026, é esse nome inteiro que o Brasil acompanha na pista do slalom gigante nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina.
A primeira descida começou no fim da manhã, com a segunda programada a partir das 9h30. Lucas entrou como um dos principais candidatos ao pódio. Se confirmar o favoritismo, pode conquistar a primeira medalha olímpica de inverno da história do país.
Da rua de São Paulo às montanhas da Europa
Filho de mãe brasileira e pai norueguês, Lucas nasceu em Oslo, mas cresceu dividido entre a Noruega e o interior de São Paulo, onde vive boa parte da família materna. A conexão com o Brasil nunca foi protocolar.
“Eu cresci meu amor pelo esporte aqui no Brasil, jogando futebol na rua de São Paulo”, contou à reportagem em entrevista concedida em maio de 2024. “Essa é a minha relação com o esporte.”
As referências vieram do futebol. Ronaldinho, Ronaldo, Neymar. Não eram apenas ídolos técnicos. Eram personagens que, segundo ele, contavam histórias maiores do que títulos.
“Eu queria escrever uma história maior do que o esporte que eu praticava. Sempre vai surgir um novo esquiador da Noruega. Mas não é sempre que surge um esquiador do Brasil.”
De campeão pela Noruega à escolha pelo Brasil
Antes de trocar de bandeira, Lucas já era um dos grandes nomes do circuito mundial. Campeão da Copa do Mundo de slalom na temporada 2022-23, acumulou vitórias e pódios representando a Noruega, uma das maiores potências do esqui alpino.
Em 2023, anunciou aposentadoria precoce após divergências com a federação norueguesa envolvendo autonomia e direitos de imagem. Meses depois, surpreendeu ao voltar ao circuito defendendo o Brasil.
A decisão foi estratégica e simbólica. Estratégica porque encontrou mais liberdade para conduzir a própria carreira. Simbólica porque enxergou a chance de abrir um novo caminho.
“Eu queria falar uma coisa que tem uma importância maior do que só resultados. Trazer 200 milhões de pessoas para o esporte de inverno é importante. Eu quero ser uma inspiração. Não importa de onde você é. Não existem limitações, só oportunidades.”
A mudança dividiu opiniões na Noruega. Parte do público lamentou. Outra parte reconheceu a coragem. No Brasil, a recepção foi imediata e calorosa, ainda que acanhada pela baixa popularidade da modalidade no país.
Resultados que explicam o favoritismo
A aposta não demorou a dar resultado. Desde que passou a competir pelo Brasil, Lucas colecionou feitos inéditos.
Em novembro de 2025, venceu a etapa de Levi, na Finlândia, tornando-se o primeiro brasileiro a conquistar uma prova da Copa do Mundo de esqui alpino. Em janeiro de 2026, subiu ao pódio em Schladming, na Áustria, consolidando-se entre os líderes do ranking mundial nas provas técnicas.
Na atual temporada, chega aos Jogos brigando pelas primeiras posições tanto no slalom quanto no slalom gigante. A regularidade e a agressividade nas descidas o colocaram como nome real na disputa por medalha em Milão-Cortina.
O slalom gigante exige precisão e potência. Os atletas descem a montanha em alta velocidade, contornando portas espaçadas em trajetórias amplas. Vence quem soma o menor tempo nas duas descidas. Erros custam caro. Milésimos decidem medalhas.
O brasileiro que pensa diferente na neve
Lucas acredita que parte do seu diferencial está justamente na formação híbrida.
“A mentalidade brasileira me ajudou a pensar fora da caixa. A achar jeitos novos de treinar, de esquiar. Esse jeito diferente sempre me ajudou nas competições.”
Fora das pistas, mantém rituais que reforçam essa identidade. Sempre que desembarca no país, a parada é quase obrigatória.
“A primeira coisa que eu faço quando entro no Brasil é comer pão de queijo e tomar guaraná. Sempre.”
Depois vêm o churrasco em família, o brigadeiro, a água de coco. Ele mesmo brinca que retorna à Europa um pouco acima do peso ideal de competição, mas diz que é o preço de se sentir inteiro.
“Eu vou estar no jornal no Brasil, e meus avôs vão ver o nome do neto deles. Isso é muito especial.”
A bandeira no peito e o peso da história
O Brasil nunca conquistou medalha em Jogos Olímpicos de Inverno. A melhor campanha do país até hoje esteve longe do pódio. Lucas sabe que carrega um peso histórico, mas não foge da responsabilidade.
“Eu não voltei para esse esporte para participar. Eu adoro o gosto do ouro.”
Nesta sexta, enquanto o cronômetro corre e a neve voa, o país tropical aprende a torcer por curvas em alta velocidade montanha abaixo. Se depender de Lucas Pinheiro Braathen, o frio nunca se pareceu tanto com o calor brasileiro.
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Fonte : CNN