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A desaceleração da economia em 2025 é reflexo da política monetária contracionista na avaliação de especialistas consultados pelo CNN Money. Além da expectativa de juros altos, na casa dos dois dígitos ainda em 2026, um novo fator se soma a essa equação – junto com a eleição – e que pode pesar para a atividade ao longo deste ano: a guerra no Oriente Médio.

A taxa básica de juros está acima de dois dígitos desde o início de 2022. Na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), o colegiado decidiu manter a Selic em 15%, maior patamar desde 2006.

O economista-chefe da Warren Investimentos, Felipe Salto, afirma que a desaceleração já era esperada diante da manutenção da taxa básica de juros em um patamar bastante prolongado associada à uma política fiscal deficitária com dívida crescente.

“A desaceleração é um movimento típico do padrão de crescimento do Brasil desde a estabilização, com o Plano Real. Na presença de uma política fiscal deficitária e dívida crescente, bem como de uma meta de inflação agressiva, os juros elevados limitam a capacidade de crescer”, explica Salto ao CNN Money.

Para o professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Gesner Oliveira, o principal canal de transmissão do aperto monetário foi o crédito.

“Juros mais altos encarecem o financiamento para famílias e empresas, reduzindo a demanda por empréstimos, especialmente aqueles voltados à aquisição de bens duráveis — como veículos e eletrodomésticos — e ao investimento produtivo”, disse em entrevista ao CNN Money.

Na perspectiva de Silvia Matos, pesquisadora FGV Ibre, embora a União tenha mantido uma política fiscal expansionista — com aumento dos gastos do governo —, o impulso estava dentro do esperado, o que justifica o acerto das projeções.

Silvia Matos também disse ao CNN Money que é preciso mapear os gastos dos estados e municípios. Em 2025, os entes subnacionais registraram o pior resultado fiscal em mais de 10 anos com aumento de despesa.

“A inflação tem cedido, o que é uma boa notícia, mas a gente não pode se esquecer que o externo ajudou muito. É uma certa leniência achar que a gente já combateu a inflação, que já está resolvido. Para reduzir a taxa de juros, a política fiscal precisa ser mais contracíclica do que está sendo. A gente não tem certeza se isso virá no próximo governo e qual vai ser a velocidade desse ajuste fiscal”, declarou Silvia.

As eleições e o comportamento do governo são as dúvidas que pesam, na avaliação do economista Gustavo Cruz, para 2026. Ele aponta que se as pesquisas indicarem ascensão de Flávio Bolsonaro, o governo pode adotar medidas de estímulos econômicos como resposta, aquecendo a atividade.

Guerra entra do radar

O cenário para 2026 mudou drasticamente em poucos dias. O que parecia ser um início de ano mais favorável, agora se apresenta com mais incertezas.

No sábado (28), os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã. Em resposta, o regime iraniano revidou e informou que fechou o Estreito do Ormuz – passagem estratégica para parte significativa da produção global de petróleo.

Os preços da commodity dispararam e seguem altamente pressionados. O cenário produz um temor generalizado com atenção para o efeito inflacionário, já que o encarecimento dos combustíveis respinga em toda a cadeia econômica.

A despeito da queda já esperada da Selic no decorrer do ano, o grau demasiadamente elevado de alavancagem de empresas e famílias deve seguir como freio ao nível de consumo privado, que tende a ficar concentrado em itens de caráter essencial, em especial os alimentos.

“Este quadro ganha importância adicional com os desdobramentos recentes envolvendo o cenário geopolítico internacional, que tem tornado os riscos de cauda assimétricos e com viés de alta para variáveis como câmbio e inflação, o que pode reforçar o cenário de consumo restrito no decorrer do ano, prejudicando a recuperação do setor industrial e mantendo contido o crescimento do setor de serviços”, explica Matheus Pizzani, economista do PicPay.

Gustavo Cruz, por outro lado, cita a preocupação com o quadro geopolítico, mas entende que o cenário interno ainda deve pesar mais para o resultado do ano.

“Quando vimos o Fórum Econômico Mundial, eles alertaram que a geopolítica é a grande preocupação dos CEOs do mundo todo. Vimos o episódio da Venezuela, Groenlândia e agora o Irã. Tem ainda as eleições nos Estados Unidos… essas questões mexem com os preços, mas acredito que os grandes vetores para a economia ainda são mais internos esse ano”, complementa o estrategista chefe da RB Investimentos.

Felipe Salto avalia que ainda é cedo para compreender os impactos do conflito. O economista avalia que no curtíssimo prazo, o Brasil pode até se beneficiar, por exemplo, por meio de preços de petróleo mais elevados e capacidade de suprir parte da demanda. “Mas, não tenho dúvida de que, no caso de uma escalada, todos sairão perdendo”.

PIB por setor

Segundo Gesner, o desempenho da agropecuária e da indústria extrativa em 2025 foi determinante para sustentar o crescimento de 2,3% do PIB brasileiro. No ano passado, a agropecuária e indústria extrativa registraram expansão de 11,7% e 8,6%, respectivamente.

O professor da FGV ressalta que o crescimento industrial em 2025 foi concentrado em atividades primárias e exportadoras, enquanto os segmentos mais ligados ao mercado interno e ao crédito — como bens duráveis e manufaturas — sentiram mais intensamente os efeitos dos juros elevados.

“Esse padrão reforça uma característica recorrente da economia brasileira: em ciclos de aperto monetário, setores exportadores e menos dependentes de financiamento tendem a sustentar o crescimento”, declarou Gesner ao CNN Money.

Já Felipe Salto atribui PIB da agropecuária e indústria extrativa ao cenário externo, considerado “bastante favorável”.

Ao CNN Money, o economista-chefe da Warren Investimentos destacou que o agronegócio conseguiu negociar com agilidade com outros países em 2025, apesar da política tarifária dos Estados Unidos, o que possibilitou o escoamento das mercadorias, assegurando um bom ritmo de atividade.

Investimentos x consumo das famílias

Pela ótica da demanda, o consumo das famílias registrou um crescimento de 1,3% em 2025, uma desaceleração frente ao ano anterior, quando subiu 5,1%. Segundo Gesner Oliveira, o avanço, apesar de tímido, reflete a melhora no mercado de trabalho, o aumento do crédito e os programas governamentais de transferência de renda.

Em relação ao avanço de 2,9% nos investimentos, Gesner Oliveira atribui ao aumento da importação de bens de capital e pelo desenvolvimento de software, além da alta na indústria da construção. De acordo com o professor da FGV, o movimento compensou a queda na produção interna de bens de capital.

Por outro lado, a taxa de investimento foi de 16,8%, em uma leve desaceleração em comparação ao ano anterior (16,9%). Para Felipe Salto, o nível está “muito aquém” do desejado.

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Fonte : CNN

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