O panorama de companhias no Brasil com problemas de caixa gera um alerta para algo sintomático.
Em 2025, houve recorde de registros de pedidos de recuperação judicial no país.
O mesmo se repete ao observar os números de recuperação extrajudicial. No ano passado, 80 empresas recorreram ao processo, número recorde, segundo dados do Obre (Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial).
A dívida de 248 companhias brasileiras subiu de R$ 1,4 trilhão, em 2020, para R$ 2,3 trilhões no ano passado. Os dados são do consultor Einar Rivero, CEO da Elos Ayta.
São múltiplos os fatores que explicam o cenário, mas existe um denominador comum: a taxa de juros.
Com a Selic operando em um patamar historicamente alto e por um período prolongado, o custo do credito disparou no Brasil e passou a asfixiar o caixa das empresas.
Isso se soma ainda ao cenário econômico adverso, com guerras no Oriente Médio e na Europa, além das idas e vindas da politica tarifária dos Estados Unidos.
Em meio a um cenário macroeconômico de risco crescente, são dois os remédios possíveis para o diagnóstico de alto endividamento que compromete as operações: a recuperação extrajudicial e a recuperação judicial.
Casos emblemáticos já foram registrados em 2026. O mais recente deles foi a Raízen, que protocolou processo extrajudicial no início do mês para tentar uma saída aos R$ 65 bilhões em dívidas, sendo o maior caso do tipo já registrado no Brasil.
Caminho semelhante ao Grupo Pão de Açúcar, que pouco antes havia alertado em seu balanço trimestral os riscos de continuidade da operação.
Quando a empresa ainda consegue negociar de forma organizada com uma base de credores relativamente concentrada, Alexandre Temerloglou, especialista em recuperação judicial e CEO da Siegen, indica que a recuperação extrajudicial tende a ser o caminho mais eficiente.
“É um instrumento mais rápido, menos custoso. Já a recuperação judicial costuma ser acionada quando essa janela de negociação se fecha. Em cenários de pulverização de credores, conflitos mais intensos ou risco iminente de execuções que comprometam a operação”, explica.
Na semana passada, o Banco Central decidiu pela redução da taxa básica de juros, que saiu dos 15% para 14,75%. Apesar do corte, o patamar elevado segue comparável a altas registradas 20 anos atrás.
Analistas explicam que essa corrosão do caixa das empresas começou a se formar em 2020. Diante da pandemia e a necessidade de socorrer as companhias que suspenderam ou reduziram drasticamente suas atividades, o juro no Brasil tombou para 2%.
A taxa altamente atrativa provocou uma corrida por crédito e tomada de decisões de capital.
“As empresas que necessitaram de dinheiro para se manter contraíram dívidas, e as empresas que não estavam nessa situação crítica também contraíram dividas, mas com olhar de crescimento”, conta Rodrigo Gallegos, sócio da consultora RGF, especialista em reestruturação de empresas.
“Elas viram que o negócio estava crescendo, e com uma taxa de juros atrativa, a empresa opta por pegar o dinheiro barato, investir para gerar resultado”, pontua.
A carga tributária do Brasil também pesa nas planilhas das empresas brasileiras. Seguindo dados do Ministério da Fazenda, ela passou de 29,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2020 para 32,3% em 2024.
A tendência indica que essa alta deve seguir. Em janeiro deste ano, por exemplo, houve mais um recorde histórico de arrecadação, somando R$ 325,7 bilhões. E entre os destaques que impulsionaram esse resultado, esta o ganho maior com impostos que foram elevados pelo governo.
Impacto disseminado
O principal setor afetado pela alta taxa de juros é o varejo. Com a Selic elevada, o custo para financiar capital de giro passa a apertar ainda mais as margens das companhias, ao mesmo tempo que diminui o poder de compra do consumidor.
O agronegócio também não sai ileso. No ano passado, o setor registrou o maior número de processos de recuperação judicial da história, com 1.990 pedidos. Esse número representa um aumento de 56,4% em relação a 2024.
Apesar do grande volume de processos em todo o pais, a perspectiva nao é de alívio.
Estudos econômicos da Siegen mostram que existe uma defasagem média de aproximadamente 12 meses entre a manutenção da taxa básica de juros em patamares elevados e o impacto pleno sobre os pedidos de recuperação judicial.
Quando as séries são ajustadas por essa defasagem, a correlação entre juros e recuperações é extremamente alta.
“Isso significa que, mesmo com a estabilização da taxa básica, os pedidos continuam avançando porque as empresas ainda estão absorvendo os efeitos do aperto monetário passado”, explica Alexandre Temerloglou, da Siegen.
Segundo ele, a queda dos juros é o principal elemento capaz de reverter o atual ciclo de crescimento das recuperações judiciais. Mesmo assim, os efeitos não seriam imediatos e as expectativas pela redução da Selic estão cada vez menos otimistas.
Na ata da última reunião, o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central) deixou claro que novos cortes dependerão de dados e salientou que o cenário global teve suas incertezas elevadas, sendo necessário serenidade na condução da política monetária.
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Fonte : CNN