© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Encontros e debates entre mulheres negras de diversas localidades marcam a Black Zone, espaço instalado na Praça da República, em Belém, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). Além de amplificar vozes marginalizadas das negociações climáticas globais, o grupo se prepara para a Marcha das Mulheres Negras.

A iniciativa presta homenagem a Raimunda Nilma Bentes, conhecida como Dona Nilma, artista, escritora e ativista paraense, idealizadora da primeira marcha, realizada em 2015.

“Em 2011, durante uma atividade internacional na Bahia, senti a necessidade de uma ação mais impactante. Sugeri então, em uma pequena reunião da Associação de Organização de Mulheres Negras, a realização de uma marcha com 100 mil mulheres negras”, relembra Dona Nilma.

O ano de 2015 foi escolhido estrategicamente, considerando a realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil em 2014 e as Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016. “Coincidentemente, era o mesmo ano da primeira marcha mista de pessoas negras, em 1995. A proposta da marcha surgiu de forma quase natural”, acrescenta.

Com o tema “Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência pelo Bem Viver”, a ação refletia as principais lutas enfrentadas por elas. Em 18 de novembro de 2015, aproximadamente 70 mil mulheres marcharam até a Praça dos Três Poderes, em Brasília.

“Foi uma adesão surpreendente. Parecia haver uma demanda reprimida. Víamos mulheres chegando de todos os lados, sem ligação com nenhuma organização específica. Elas simplesmente queriam participar”, relata Dona Nilma.

Dez anos depois, no dia 25 de novembro, um novo contingente de mulheres negras se dirige aos centros de poder em Brasília, com demandas semelhantes: reparação e bem viver.

Maria Malcher, coordenadora de projetos do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará, explica que a reparação abrange um espectro amplo, incluindo a luta contra a violência, a xenofobia e o racismo.

“Trata-se da reparação histórica do processo de escravização da diáspora africana no Brasil. Queremos denunciar e aprofundar as pautas do movimento de mulheres negras”, afirma Malcher.

O conceito de “bem viver” engloba aspectos macro e lutas territoriais locais, segundo Dona Nilma. “No âmbito macro, propomos um projeto político com transição energética justa, rejeição ao consumismo, priorização do coletivo sobre o individualismo, cooperação em vez de competição, e subordinação da economia a fatores ecológicos”, detalha. Regionalmente, o “bem viver” abrange demandas por melhores condições específicas de cada território.

Para Dona Nilma, no contexto brasileiro, onde as mulheres são maioria, com um grande número de mulheres negras, a COP30 aborda a mudança do clima, uma urgência já vivida por elas.

“As mudanças climáticas afetam a todos, mas são agravadas pelas desigualdades socioeconômicas, culturais e ambientais”, lamenta Dona Nilma.

Para enfrentar esse desafio e lutar por maior representatividade nas decisões climáticas, foi criado o Comitê Nacional das Mulheres Negras por Justiça Climática, oficializado em 10 de novembro, em Belém.

“Lançamos o comitê com 36 organizações do movimento negro, algumas com acesso à COP, principalmente organizações nacionais do Sudeste. Não temos notícia de organizações do movimento negro na Amazônia com credenciais para a COP”, informa.

O colegiado pretende influenciar o ambiente da COP30 e entregar um manifesto aos chefes dos Três Poderes durante a marcha em Brasília, no dia 25.

A programação inclui mais de 50 atividades, como diálogos globais, assembleia da Rede Afrolatinoamericana e Caribenha, diálogo transnacional LGBTQAPN+ e diálogo das juventudes. Todos convergem para a marcha.

Além do documento final da marcha, serão apresentados um manifesto do Levante Negro pela Educação em defesa de um Plano Nacional de Educação (PNE) antirracista, um manifesto econômico e estudos.

“A marcha tem uma dimensão formativa. Construímos um manifesto econômico e realizamos pesquisas em parceria com organizações negras de pesquisa”, reforça Maria.

Uma cartilha organizada pela comunicadora Flávia Ribeiro serve de guia para organizações, redes e grupos de mulheres negras. Segundo Maria Malcher, o documento orienta, forma e mobiliza quem deseja participar da marcha.

“Flávia fez uma transposição didática sobre a marcha, especialmente a Marcha de Belém e nossa atuação no Pará, em formato de cartilha, trazendo a história e as proposições da reparação”, conclui.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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