Os custos de produção no campo devem permanecer em patamares elevados ao longo de 2026, pressionados principalmente pelos preços dos fertilizantes, segundo analistas de mercado. O movimento observado nas primeiras semanas do ano indica a continuidade de um ciclo de valorização desses insumos, influenciado por fatores globais de oferta, demanda e geopolítica.
O valor dos fertilizantes influencia toda a cadeia, uma vez que são essenciais para o desenvolvimento das plantas e representam parte significativa do custo de produção, diminuindo margens e repassando valores. No caso da soja, por exemplo, um terço dos custos de produção está ligado aos fertilizantes.
No Brasil, os compradores iniciaram o ano diante de preços mais altos em relação a 2025. Dados da StoneX mostram que, na última semana de janeiro, a ureia, um dos principais fertilizantes nitrogenados, estava cerca de 10% mais cara nos portos brasileiros na comparação anual. Já o superfosfato simples (SSP) e o cloreto de potássio (KCl) registraram altas próximas de 20% no mesmo período.
Segundo Bruno Fonseca, analista de insumos do Rabobank, a pressão é particularmente forte nos fertilizantes à base de fósforo, como o MAP (fosfato monoamônico) e DAP (fosfato diamônico), usados em larga escala no Brasil. De acordo com ele, esse grupo de produtos vem registrando aumentos de preços há pelo menos um a dois anos, tendência que segue presente em 2026. Além disso, do lado da oferta, Fonseca destaca que os principais produtos fosfatados negociados no mercado internacional tiveram diminuição na disponibilidade.
Mercado globalizado
De acordo com Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, a alta dos fertilizantes não é um fenômeno localizado. Segundo ele, o avanço dos preços em relação ao início de 2025 também é observado em outros mercados, ainda que com intensidades diferentes, o que caracteriza um movimento de alcance global.
Pernías aponta fatores sazonais, como a recomposição de estoques e a preparação para ciclos agrícolas em diversos países, além de riscos geopolíticos, como o aumento das tensões entre Estados Unidos e Irã.
O Oriente Médio tem papel estratégico na produção de fertilizantes nitrogenados, e episódios de instabilidade na região tendem a gerar volatilidade nos preços internacionais. Nos Estados Unidos, o início do ano marca a retomada das compras para a temporada de primavera, com aumento das importações entre fevereiro e abril, período que tradicionalmente concentra maior demanda e pressiona as cotações globais.
Fonseca, no entanto, avalia que eventuais problemas geopolíticos no Irã não teriam impacto imediato para o Brasil neste início de ano, já que o país intensifica suas importações do produto a partir de maio.
A China também exerce influência relevante, sobretudo pelo lado das exportações. Isso porque, segundo os analistas, em momentos considerados estratégicos, o governo chinês costuma impor restrições às vendas externas para priorizar o abastecimento interno. Essa estratégia reduz a oferta global e intensifica a competição entre importadores, com reflexos nos preços.
Outro ponto acompanhado pelo mercado é a demanda da Índia, que pode lançar um novo processo de compras nas próximas semanas. Caso isso ocorra, a entrada desse volume adicional tende a coincidir com um período de demanda mais aquecida em mercados como Estados Unidos, Canadá, China e Europa, reforçando o viés de alta.
Efeitos no Brasil
No Brasil, o impacto desses movimentos globais ocorre em um momento sensível do calendário de compras. Segundo Fonseca, o primeiro semestre concentra a maior parte das aquisições de fertilizantes pelos produtores, principalmente para a safra de soja, o que amplia a exposição do país às oscilações internacionais.
O analista acrescenta que “a gente tem um ano eleitoral aqui no Brasil, então pensando no preço em real, isso pode trazer uma volatilidade para o câmbio e para o preço do fertilizante no final do dia”.
Nesse contexto de preços firmes, Pernías avalia que os compradores brasileiros tendem a adotar uma postura mais cautelosa. “Os preços elevados, somados a relações de troca pouco atrativas, em alguns casos entre as piores dos últimos anos, reduzem o estímulo para a antecipação das compras da próxima temporada”, disse.
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Fonte : CNN