Conversas em aplicativos de mensagens enviadas pelo tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto para a esposa Gisele Alves Santana, também policial militar, deixaram expostas as marcas de uma relação abusiva em que a mulher era vítima.
O conteúdo dos registros revela uma mistura de cobranças sofridas por Gisele e até mesmo “regras de comportamento” impostas por Geraldo no relacionamento. Além de se dirigir à esposa como “fêmea beta submissa”, o homem se colocava por diversas vezes como um “macho alfa provedor” e chegou a se autodeclarar como “rei, religioso e gostoso”.
A CNN Brasil separou as principais conversas entre o tenente-coronel e a esposa, e te mostra os detalhes. Todas as mensagens foram retiradas do celular de Geraldo. As em cinza são de Gisele. Já as em verde são do homem. Veja abaixo:
“Macho alfa e fêmea beta”
Geraldo Leite Rosa Neto, tenente-coronel da Polícia Militar, disse, dois dias antes da morte de Gisele Alves Santana, que ela deveria ser uma “fêmea submissa” e que ele era um “macho alfa”.
“Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa – com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser”, escreveu.

“Regras de comportamento”
Em outra conversa, Geraldo mostra um comportamento abusivo ao descrever o que seria “o papel da mulher” no casamento e como ela deveria se comportar a partir de regras impostas por ele mesmo.
“Enquanto vc estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito… Mulher casada comprometida e que o marido é o único provedor do lar tem regras a cumprir”.
Outro registro aponta uma espécie de lista do que Gisele podia ou não fazer como ter “fotos juntos no perfil”, “não cumprimentar homens com beijo no rosto e abraços” e “não usar roupas tarjas coladas”.

“Sou rei, religioso e gostoso”
Em outro registro de conversas entre o tenente-coronel e Gisele, a PM afirma que, em determinado momento, teria achado que o homem era uma pessoa diferente, com comportamentos que se assemelhavam ao de “um príncipe, cavalheiro, romântico”.
No entanto, ela diz que ele perdeu “toda a essência do xaveco” e passou a tratá-la “de qualquer jeito”.
Geraldo, então, responde que é mais que “um príncipe” e se declara em tópicos como “rei, religioso, gostoso, bonito, honesto, trabalhador” e outros.

“Jamais será solteira”
Em mensagens trocadas entre o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto e sua esposa Gisele Alves Santana no dia 13 de fevereiro, a mulher deixou claro a ele que o relacionamento havia acabado e que não se sentia mais casada.
No diálogo, a PM afirmou estar “praticamente solteira”. A resposta do tenente-coronel foi: “Jamais! Nunca será!”.

Segundo o relatório da Polícia Civil, Gisele manifestava de forma clara o desejo de encerrar o casamento.
Em outras mensagens enviadas nos dias anteriores ao crime, ela chegou a escrever: “quero o divórcio”, além de solicitar o envio de documentos para formalizar a separação e afirmar: “Se considere divorciado”.
A mulher ainda teria dito frases como “acabou a admiração”, “vamos separar” e “não tem como viver assim”.
Tenente-coronel foi preso
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, indiciado pela Polícia Civil de São Paulo pela morte da esposa, a PM Gisele Santana, foi preso na manhã de quarta-feira (18).
A polícia havia pedido à Justiça paulista o mandado de prisão preventiva nesta terça (17), que foi concedido e cumprido pela Corregedoria da Polícia Militar com apoio do 8º DP (Belenzinho).
Geraldo foi preso em sua residência em São José dos Campos, no interior de São Paulo, e conduzido ao Presídio Militar Romão Gomes.
Veja como foi feminicídio
A abordagem, contenção da vítima e disparo contra a cabeça de Gisele podem ser descritos em quatro atos, segundo laudo. Veja abaixo:

De acordo com os peritos da Polícia Científica de São Paulo, o tenente-coronel abordou a vítima no interior da residência. A abordagem ocorre por trás, pegando Gisele de surpresa.
Geraldo teria imobilizado a vítima, agarrando-a pelas costas. Gisele tentou se desvencilhar do ataque. Nesse momento, o suspeito empunha uma arma de fogo próxima à cabeça dela.
O laudo identificou lesões compatíveis com pressão de dedos na parte de baixo do rosto da PM e na lateral direita do pescoço. Também foi encontrada uma marca superficial de unha.
Para os peritos, essas marcas indicam que houve uma luta corporal ou tentativa de esganadura antes do disparo fatal.
O que diz a defesa do tenente-coronel
“O escritório de advocacia MALAVASI SOCIEDADE DE ADVOGADOS, contratado para assistir o tenente-coronel GERALDO LEITE ROSA NETO no acompanhamento das investigações relativas ao suicídio de sua esposa, vem a público prestar esclarecimentos.
Ante o recente decreto dúplice de prisão do tenente-coronel pelos mesmos fatos tanto perante a Justiça Militar quanto pela Justiça Comum, a defesa encontra-se estarrecida pela manutenção da competência de ambas as jurisdições.
Informa que sabedor dos pedidos de prisão em seu desfavor desde a data do dia 17/3 não só não se ocultou, como forneceu espontaneamente comprovante de endereço perante a Justiça, local onde foi cumprido o mandado de prisão, ato ao qual, embora manifestamente ilegal, pois proferido por autoridade incompetente, não se opôs, tendo mantido a postura adotada desde o início das apurações de colaboração com as autoridades competentes.
Informa, por fim, que já ajuizou Reclamação perante o STJ contra o decreto oriundo da Justiça castrense e que estuda o manejo de habeas corpus quanto à decisão da 5.ª Vara do Júri da Capital.
Reitera que seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade. A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, X), razão pela qual a divulgação de elementos pertencentes a essas esferas encontra limites nas garantias constitucionais, sendo certo que, no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao Tenente-Coronel.
Por fim, o escritório reafirma sua confiança na atuação das autoridades responsáveis pela condução das investigações e reitera que o Tenente-Coronel aguarda a completa elucidação dos fatos”.
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Fonte : CNN