A guerra no Oriente Médio trouxe o que os economistas chamam de um “choque imprevisto tão destrutivo que ninguém está imune a ele”.
Enquanto a guerra continua no Oriente Médio, onde centenas de civis foram mortos, um terremoto econômico surge a partir do Golfo Pérsico. Praticamente todos estão prestes a sentir o impacto.
“Ninguém sai ganhando nessa situação”, disse Josh Lipsky, presidente de economia internacional do Atlantic Council.
O choque energético se intensificou esta semana após o Irã atacar centros de distribuição de gás natural liquefeito (GNL) no Catar — uma retaliação ao ataque de Israel à instalação iraniana de South Pars, parte do maior campo de gás natural do mundo.
A disparada dos preços do gás já levou governos a restringir o consumo de energia. O Paquistão fechou escolas por duas semanas; a Índia está racionando o fornecimento de gás natural para a indústria; e em pelo menos uma grande cidade indiana, Pune, crematórios movidos a gás suspenderam as operações.
Embora os Estados Unidos, juntamente com Israel, tenham iniciado a guerra, a economia americana provavelmente será a menos afetada, em parte devido à produção nacional de petróleo e gás natural do país, que é líder mundial.
“Teremos um impacto econômico bastante significativo aqui, caso a guerra continue”, ressaltou, porém, Joe Brusuelas, economista-chefe para os EUA da RSM. “Mas não estamos na mesma situação que a da Ásia, onde há uma destruição generalizada da demanda que causará uma recessão em algumas economias muito rapidamente”, acrescentou.
A natureza global dos mercados de matérias-primas significa que mesmo um exportador como os Estados Unidos não estará totalmente imune ao aumento dos preços. Os EUA produzem toda a energia de que necessitam, mas as refinarias não estão totalmente equipadas para processar o tipo específico de petróleo bruto proveniente dos campos petrolíferos americanos. É por isso que os preços da gasolina subiram mais de 30% no último mês, para uma média de US$ 3,88, contra US$ 2,92.
É um problema tanto financeiro para os consumidores quanto político para o presidente dos EUA, Donald Trump, e os republicanos, às vésperas das eleições de meio de mandato. Mas o choque energético por si só provavelmente não será suficiente para levar a maior economia do mundo à recessão.
“Uma economia de US$ 30 trilhões não vai simplesmente desmoronar por causa de um aumento de 30% no preço da gasolina”, argumentou Brusuelas. “É preciso um conjunto mais amplo de condições que se unam para que isso aconteça. E agora, mesmo com a escalada da última semana, ainda não chegamos lá”.
Ásia enfrenta dificuldades
A Coreia do Sul impôs na semana passada o primeiro teto para o preço do combustível no atacado em 30 anos. Além de fechar escolas temporariamente, o Paquistão cortou alguns salários do governo para equilibrar o orçamento. A Tailândia ordenou que alguns funcionários trabalhassem de casa e as Filipinas instituíram uma semana de trabalho de quatro dias. Em Bangladesh, motociclistas formavam filas de horas para abastecer os tanques após o governo impor um teto à compra de combustível.
Há relatos de racionamento generalizado de gás natural em Bangladesh, inclusive para fabricantes de roupas, que agora enfrentam cortes significativos na produção, observa a empresa de pesquisa Wood Mackenzie.
A China, a maior economia da Ásia, pode estar mais protegida do que os vizinhos, embora seja a maior compradora de petróleo iraniano e cerca de metade de suas importações de petróleo bruto passem pelo Estreito de Ormuz. Isso se deve principalmente ao fato de o carvão ainda dominar a matriz energética do país. Mas a China também adotou veículos elétricos e energia renovável, amenizando o impacto dos preços mais altos dos combustíveis fósseis, de acordo com Julian Evans-Pritchard, chefe da área da China na Capital Economics.
Pequim também possui reservas consideráveis de petróleo bruto, estimadas em 120 dias de suprimento, escreveu Evans-Pritchard em uma nota de 10 de março. Considerando todos esses fatores, eles podem até mesmo dar aos fabricantes chineses uma vantagem no comércio global, sinalizou ele, à medida que os concorrentes são afetados pelo aumento dos custos de produção.
Choque na Europa
Para os europeus, esse choque energético parece desconfortavelmente familiar.
Após a invasão da Ucrânia pela Rússia há quatro anos, os governos europeus buscaram diversificar as fontes de energia, reduzindo a dependência da Rússia. Quem se beneficiou dessa mudança? O Golfo Pérsico.
O gás natural é a principal fonte de energia para as famílias da União Europeia e, desde o início da guerra, os preços de referência europeus quase dobraram. Mesmo antes disso, os preços da energia já eram muito altos, disse o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, na quinta-feira (19), à margem de uma cúpula da UE.
Embora a UE compre a maior parte do gás natural liquefeito dos Estados Unidos, a perda do fornecimento do Catar está elevando os preços globais.
Desde o início da guerra, pelo menos 11 navios-tanque carregados com gás destinado à Europa foram desviados para a Ásia, onde os compradores ofereceram preços mais altos do que os concorrentes europeus, apontou Gillian Boccara, diretora sênior de gás e energia da Kpler, empresa de inteligência de commodities, à CNN no início desta semana.
A inflação de preços ao consumidor na União Europeia — que se situou em 2% em janeiro — poderá subir mais de um ponto percentual se o conflito se prolongar por vários meses, segundo Holger Schmieding, economista-chefe do banco Berenberg. E até meio ponto percentual poderá ser perdido pelo crescimento econômico nesse cenário, afirmou anteriormente à CNN.
https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/por-que-o-estreito-de-ormuz-e-tao-importante-para-a-economia-do-mundo/
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Fonte : CNN