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O Grupo Pão de Açúcar (GPA) firmou acordo com seus principais credores para apresentação de um plano de recuperação extrajudicial, de acordo com fato relevante divulgado nesta terça-feira (10). No entanto, a crise na companhia não é recente, de acordo com analistas ouvidos pelo CNN Money.

O dono da rede de supermercados Pão de Açúcar, que vem registrando prejuízos consecutivos nos últimos anos, passou por mudanças relevantes no ano passado, com o Grupo Coelho Diniz assumindo como principal acionista (24,6%). Outrora controlador, o francês Casino ainda detém uma fatia de 22,5%.

Em outubro, o empresário André Coelho Diniz foi eleito presidente do conselho de administração. Na sequência, o presidente-executivo, Marcelo Pimentel, que estava no cargo desde 2022, renunciou. No começo de 2026, Alexandre de Jesus Santoro foi eleito como diretor-presidente da companhia.

Recuperação extrajudicial

O plano de recuperação extrajudicial abrange determinadas obrigações de pagamento sem garantia que não constituem obrigações correntes ou operacionais da companhia, no montante total de aproximadamente R$ 4,5 bilhões, de acordo com fato relevante da varejista.

“Ficam expressamente excluídas obrigações correntes junto a fornecedores, parceiros e clientes, bem como obrigações trabalhistas, que não serão afetadas”, afirmou a empresa.

O acordo teve autorização unânime do conselho de administração.

“Nesse período, a Companhia confia que conseguirá o apoio da maioria dos créditos sujeitos ao processo e espera chegar a uma solução estruturada que resolva simultaneamente a liquidez de curto prazo e a sustentabilidade financeira de longo prazo”, diz o documento.

Segundo o GPA, operações de lojas deverão seguir funcionando normalmente.

“Suas operações são saudáveis, e a Companhia está em dia com suas obrigações junto a fornecedores, clientes e parceiros, os quais estão excluídos e não serão afetados pelo processo de recuperação extrajudicial”.

Balanço negativo

O GPA registrou que teve prejuízo líquido de R$ 572 milhões no quarto trimestre de 2025, o valor foi 48,2% abaixo do registrado no mesmo período do ano anterior, mas acima das estimativas. Apesar da redução em relação a 2024, o que acendeu o alerta no mercado foi o montante de dívidas previstas para vencer ao longo do ano, que alcança R$ 1,7 bilhão.

A varejista de alimentos teve o resultado operacional medido pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado da companhia ficou em R$ 510 milhões no período, alta de 2,5% sobre um ano antes, segundo o relatório de resultados da companhia.

Analistas, em média, esperavam prejuízo líquido de R$ 134 milhões nos três meses encerrados em dezembro e Ebitda de R$ 466 milhões no período, segundo dados da LSEG.

Já as vendas totais do grupo, que incluem a bandeira Extra, somaram R$ 5,6 bilhões, o que representa um recuo de 0,4% na comparação com o mesmo período de 2024, “principalmente em função da descontinuação do formato Aliados”, disse a companhia.

No conceito mesmas lojas, as vendas aumentaram 2,7% no quarto trimestre de 2025. No relatório, a empresa destacou que “a dinâmica do mercado alimentar seguiu com uma demanda mais arrefecida, somada a um menor impacto de inflação alimentar na maior parte das categorias de produtos na comparação com os trimestres anteriores”.

Dúvidas sobre a continuidade operacional

O próprio GPA destacou uma “incerteza relevante” sobre a continuidade operacional da companhia após o balanço publicado no fim de fevereiro.

Em documento, o grupo afirmou que no final do ano passado a companhia apresentava um capital circulante líquido negativo de cerca de R$ 1,22 bilhão, decorrente de empréstimos e debêntures com vencimento em 2026 no montante de R$ 1,7 bilhão.

Mesmo com melhora na geração positiva dos caixas operacionais e dos demais principais indicadores operacionais, o GPA continua apurando prejuízo durante os últimos 3 meses de 2025.

A administração do GPA disse que estava adotando um “conjunto de iniciativas que incluem negociações para o alongamento de prazos de dívidas financeiras, redução do custo financeiro e de despesas e monetização de créditos tributários.”

Além disso, a companhia afirmou que os resultados financeiros foram realizados de acordo com o pressuposto da continuidade operacional.

Sobre a incerteza da continuidade de operação, a companhia concluiu que as demonstrações financeiras não incluem quaisquer ajustes para refletir os possíveis efeitos futuros sobre a recuperabilidade e a classificação de ativos e passivos que possam resultar nessa situação.

Com as medidas, a empresa quer melhorar o perfil de liquidez, considerando a concentração de vencimentos prevista para este ano. O objetivo é evitar o risco de descontinuidade operacional da companhia.  

Na época, a empresa disse, em comunicado, que segue monitorando indicadores para a adoção de outras alternativas, com foco na sustentabilidade financeira e execução da estratégia. 

Carta para acalmar fornecedores

Na semana passada, o CEO do GPA, Alexandre Santoro, entrou em contato com fornecedores para explicar a série de notícias que apontam para uma crise no grupo.

Na carta, o executivo buscou acalmar os parceiros afirmando que as dívidas serão renegociadas diretamente com os bancos, e não com os fornecedores.

“As referências feitas na conferência de resultados relacionadas a ‘negociações’ dizem respeito exclusivamente às tratativas para reperfilamento de parte da dívida financeira da Companhia, conduzidas junto a instituições financeiras e credores bancários, com foco nos vencimentos previstos para 2026. Essas conversas têm ocorrido de forma estruturada e dentro da normalidade de processos dessa natureza”.

No início do mês, o GPA também comunicou que analisava diferentes ​alternativas para a melhoria do perfil do seu endividamento e que contratou consultores para assessorá-la nessas frentes.

Dívida elevada e juros altos

Um dos principais fatores que contribuem para a difícil situação financeira do GPA é sua dívida bruta, que se mantém em torno de R$ 4 bilhões. Com a taxa de juros atual em 15%, o custo para manter essa dívida tornou-se extremamente elevado, comprometendo a capacidade da empresa de se recuperar financeiramente.

A dívida, que chegou a R$ 6 bilhões em 2023, teve uma redução, mas estagnou no patamar atual.

No balanço divulgado, a própria companhia reconheceu a gravidade da situação, afirmando que “apesar da melhora nos principais indicadores, bem como geração positiva recorrente de caixa, a companhia continua apurando prejuízo”.

O documento ainda destaca que “essas condições indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”.

Como o GPA chegou até aqui?

O GPA, que já foi uma das maiores empresas da bolsa brasileira, vem passando por um longo ciclo de deterioração, segundo a avaliação do economista Felipe Paletta, uma série de problemas contribuíram para o cenário atual da companhia

“O GPA sempre teve o Abílio [Diniz] como uma referência e depois que os franceses [Grupo Casino] entraram no negócio, as decisões foram muito pulverizadas. Os próprios problemas do Casino lá fora geraram várias repercussões aqui, que acabou se desfazendo de muitos negócios para conseguir gerar caixa”, relembra.

Ana Paula Tozzi, CEO da AGR, concorda que o último balanço não é resultado somente do quarto trimestre do ano passado, mas de “um consistente acúmulo de prejuízos”, que trouxe a necessidade de buscar mais caixa, aumentando o endividamento.

“Temos que olhar para o GPA nos últimos dois anos, com a troca de comando da companhia nós vimos uma dificuldade estratégica. Afinal de contas, vai ser um supermercado premium ou vai ter foco no atacado? Tem um pouco de crise identidade nesse sentido.”

Tozzi destaca também que o pano de fundo de juros elevados não contribui para a situação da empresa. “A expectativa de queda de juros, que não aconteceu, faz com que o custo de carregamento da dívida seja maior do que a capacidade de geração de caixa.”

Para Paletta, em um cenário de queda lenta no ciclo de juros, o GPA pode sofrer ainda mais para conseguir equilibrar as contas.

“Neste momento, estamos vivendo um processo de desaceleração da atividade econômica no Brasil, o que acaba prejudicando muito o setor de alimentação, e, dado que o Pão de Açúcar é um pouco mais premium em um segmento tão competitivo como é o varejo, ele está sofrendo muito com a conjuntura.”

Phil Soares, chefe de análise na Options, também apontou uma transformação significativa no setor varejista de alimentos nos últimos 10 a 15 anos.

“O que a gente observou foi um desmonte do setor de supermercados e um ganho muito grande de espaço do atacarejo”, explicou. Segundo Soares, o modelo de atacarejo tem se destacado por sua competitividade de preços, sem foco em serviço ou localização.

Esta mudança estrutural no mercado coloca em xeque o modelo tradicional de supermercados. “O modelo de supermercado stand-alone, sem atacarejo, sem atacado, realmente entra em questionamento e uma crise existencial, podendo até se extinguir ou existir somente associado a outros tipos de loja que justifiquem a logística”, destacou.

*Com informações da Reuters

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Fonte : CNN

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