Relatórios técnicos e documentos oficiais obtidos com exclusividade pela CNN mostram que, pelo menos desde 2016, órgãos federais alertam para sinais de instabilidade estrutural em depósitos que armazenam rejeitos radioativos no IEN (Instituto de Engenharia Nuclear), na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro.
Apesar das advertências e da abertura de um inquérito civil pelo Ministério Público Federal (MPF), a solução definitiva para o problema ainda não está resolvida e 103 m³ (metros cúbicos) de rejeitos seguem armazenados nas mesmas instalações.
Os depósitos estão interditados desde maio de 2019 por conta das falhas estruturais. A interdição foi determinada pela então DRS (Diretoria de Radioproteção e Segurança) da Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear) — área regulatória que hoje integra a ANSN (Autoridade Nacional de Segurança Nuclear).
Documentos mostram sinais de degradação das edificações, acompanhados de movimentação do solo, trincas em paredes, infiltrações, lajes com espessura inferior à prevista em projeto, armaduras expostas, entre outros problemas.
Laudos técnicos apontam que as causas incluem falta de manutenção generalizada, falhas na drenagem e execução de piso sobre base não compactada.
Os depósitos são operados pelo IEN, órgão vinculado à Cnen, e recebem rejeitos radioativos de baixo e médio nível provenientes de atividades médicas, industriais e de pesquisa. O conjunto do depósito é composto por três edificações, duas delas (Edificações 1 e 3) estão no centro do inquérito do MPF.
O MPF (Ministério Público Federal) apura “riscos de danos ambientais na Ilha do Fundão”, em decorrência de falhas de segurança e do “perigo de desmoronamento”.
O órgão também cobra providências da Cnen, visto que a estrutura há quase uma década já “demonstrava sinais claros de instabilidade” e que “intervenções precisariam ser feitas com urgência”. Os relatórios de fiscalização apontam ainda que exigências técnicas feitas desde 2019 continuam pendentes ou apenas parcialmente atendidas.
Embora os laudos não afirmem que haja risco de colapso iminente, a interdição foi determinada após a identificação de não conformidades estruturais apontadas em fiscalização regulatória e a ANSN alerta que a degradação pode, em cenários adversos, comprometer o confinamento e gerar risco de dispersão de material radioativo.
Uma empresa de engenharia estrutural foi contratada em 2023 para realizar levantamentos técnicos, o que indicou a necessidade de intervenções de engenharia. No entanto, as ações só podem ser realizadas após a retirada prévia dos rejeitos das edificações afetadas.
A alternativa encontrada é a transferência temporária dos rejeitos para o chamado “Galpão L”, prédio que deverá receber o material após a retirada das edificações interditadas e que atualmente passa por obras de adaptação. Somente após essa desocupação será possível realizar a recuperação estrutural definitiva dos depósitos originais.
Em nota conjunta, a Cnen e o IEN disseram que o projeto foi concluído e, em janeiro de 2026, após processo licitatório, contratou-se a empresa responsável pela execução das obras, bem como a empresa encarregada da fiscalização técnica. Segundo os órgão, “as obras encontram-se em plena execução, com previsão de conclusão em maio de 2026”, diz a nota.
As instituições frisam que os rejeitos estão devidamente acondicionados e monitorados conforme as normas técnicas e regulatórias vigentes internacionalmente. Apesar das não conformidades, as instituições sustentam que não há indicação de risco de colapso estrutural.
Procurado, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) também declarou que “não há instabilidade estrutural predial”, posição que diverge da avaliação apresentada pelo MPF no inquérito, e citou relatórios da Defesa Civil do Rio de Janeiro e do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD) que reconhecem os problemas, mas atestam a integridade das edificações.
No entanto, os relatórios mencionados pelo ministério foram elaborados em 2022. Desde então, documentos técnicos posteriores registraram a necessidade de intervenções corretivas e a manutenção da interdição.
A pasta informou ainda que o recebimento de novos rejeitos foi interrompido e que, quando necessário, o armazenamento ocorre em unidades da Cnen em São Paulo, Belo Horizonte e Recife. Segundo o ministério, já foram investidos R$ 2 milhões na reforma do “galpão L”, com previsão adicional de R$ 800 mil para conclusão da obra.
A transferência do material, no entanto, envolve riscos e não está autorizada. Segundo a ANSN, tais atividades, pela sua natureza, envolvem riscos radiológicos e operacionais adicionais, razão pela qual o plano encontra-se em fase de análise técnica e avaliação de segurança pela ANSN e não há qualquer autorização para essa execução antes da conclusão do processo regulatório.
A Autoridade Nuclear alerta que a progressão dos danos observados, caso não sejam implementadas intervenções corretivas adequadas, “pode resultar em comprometimento gradual da segurança estrutural e no surgimento de riscos localizados de falha”, disse a entidade.
Segundo a ANSN, falhas estruturais, ainda que parciais, como o comprometimento de coberturas ou de elementos construtivos, podem favorecer desde a entrada de água na edificação até a perda de integridade dos embalados, ampliando a probabilidade de dispersão de contaminantes em cenários de degradação acentuada.
“Nessas condições, não se pode descartar a ocorrência de impactos potenciais ao meio ambiente, bem como riscos adicionais de exposição ocupacional para trabalhadores envolvidos em atividades operacionais, de resposta ou de remediação”.
O Brasil já viveu um episódio de contaminação radiológica, no acidente com o césio-137 em Goiânia, em 1987.
O problema ocorre em um contexto em que o CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) debate a retomada ou não da usina de Angra 3. Fontes a par do assunto temem que o agravamento do problema com os rejeitos radiológicos no IEN possa colocar em xeque todo o programa nuclear brasileiro.
A ANSN afirma, no entanto, que a população do entorno permanece protegida pelas barreiras de confinamento existentes e pelo acesso controlado à instalação, mas afirmou que a progressão da degradação estrutural, em cenários adversos, reforça a necessidade de medidas preventivas contínuas para proteção radiológica de todos os grupos potencialmente expostos.
Em nota, o MPF disse que o IEN realizou, em 2025, simulações de transferência com materiais não radioativos para mapear necessidades logísticas. “A próxima etapa será a verificação do cumprimento do trabalho de transferência conforme previsão de conclusão do plano de trabalho de transferência.”
Questionado sobre eventual responsabilização administrativa, civil ou penal pelo prolongamento da situação, o MPF não respondeu.

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Fonte : CNN