O diretor de cinema Kleber Mendonça Filho, 57, está em Los Angeles, nos Estados Unidos, para a cerimônia do Oscar, que acontece no próximo domingo (15) no Dolby Theatre, localizado na famosa Hollywood Boulevard.
“O Agente Secreto”, filme dirigido por Mendonça que disputa quatro estatuetas, é o resultado de uma trajetória iniciada no final da década de 1980, marcada por câmeras emprestadas, importação de fitas VHS e sessões diárias de cinema.
A construção desse repertório é detalhada por José Afonso Jr., 56, professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e colega de turma do diretor desde 1988, quando ambos ingressaram no curso de jornalismo nessa universidade pública.
“Na época, o Kleber viajou para a Inglaterra e voltou super antenado. Ele trazia muito repertório, era uma espécie de internet do cinema antes da internet”, afirma Afonso.
Essa sensibilidade para a preservação e para a história tem raízes familiares profundas. A mãe de Kleber, Joselice Jucá, historiadora da Fundação Joaquim Nabuco, foi peça fundamental em sua formação, dando o suporte necessário para os primeiros passos do filho. Ela morreu em 1995.
Afonso recorda que essa rede de afeto se estende até hoje à madrasta do diretor, Estela, de 90 anos, a quem ele trata como uma “segunda mãe” e que recentemente enviou áudios elogiando a forma como o filme retrata as pontes do Recife.
Na época da faculdade, em uma Recife com pouco acesso a publicações especializadas, o diretor direcionava todos os seus recursos para a formação cinematográfica.
“Ele nunca foi um cara ligado a ter roupa cara ou sapato caro. Toda a grana que ele pegava era para comprar uma revista francesa Cahiers du Cinéma [cadernos de cinema] ou pedir para alguém trazer um VHS de um filme que não existia no Brasil.”
A urgência em produzir transformou a casa dos amigos em estúdios improvisados, onde Kleber já demonstrava uma “precisão maníaca” com o som.
Desde o início, o grupo de amigos realizava experimentos práticos que extrapolavam a sala de aula. Afonso recorda o uso de uma câmera VHS própria para os primeiros curtas e videoclipes, alguns que chegaram a ser exibidos na MTV.
“A gente começou a fazer experimentos, coisas em vídeo, e aquilo agregou um círculo coeso de amigos que tinham essa vontade de mexer com imagem”, diz Afonso. Essa fase foi o embrião do que viria a ser a marca registrada do diretor: o rigor técnico. “Ele tinha uma coisa maníaca com o som. Dedicava muito mais tempo que qualquer outra pessoa para a mixagem. Isso era uma coisa bem presente.”
Esse rigor o acompanha desde os videoclipes feitos para a MTV até as referências visuais que agora levam seu trabalho ao Oscar. Em “O Agente Secreto”, o olhar de fã de Steven Spielberg, que Kleber acompanhava em fitas importadas, aparece em cenas que remetem a clássicos como “E.T.” (na cena do ataque da Perna Cabeluda) e “Tubarão”, conectando lendas urbanas recifenses ao repertório de Hollywood.
História real
Um dos pontos mais emocionantes para a turma de 1988 é o arco do personagem Alexandre, o projecionista que aparece no novo filme, sogro de Marcelo (Wagner Moura).
Ele é uma figura real que Kleber documentou pela primeira vez em seu trabalho de conclusão de curso em 1992, intitulado “Homem de Projeção”.
Ver Alexandre na tela, mais de 30 anos depois, é um testemunho da coerência artística do diretor, para Afonso. “Eu me reconheço e me pertenço àquilo.”
Apesar do reconhecimento internacional e de dividir o mesmo teto que ídolos como Spielberg em premiações como o Globo de Ouro, Kleber preserva a vida comum no Recife. “Ele não mudou nada. É o cara que vai buscar os filhos na escola de bicicleta e circula pela cidade com naturalidade”, conta Afonso.
Recife, cenário de Kleber
A cidade do Recife aparece nessa trajetória não apenas como cenário, mas como o próprio estúdio do cineasta. Para Afonso, o diretor utiliza o tecido urbano para traduzir tensões contemporâneas.
“Eu concordo com o que se diz: Recife é o estúdio de Kleber. No filme ‘O Som ao Redor’, ele coloca toda a questão da vida anonimizada e das milícias dentro do cotidiano local, porque essas coisas também acontecem aqui”, afirma o professor.
Ele rebate críticas sobre um suposto regionalismo da obra, comparando-a a grandes nomes do cinema mundial: “Eu consigo compreender [o diretor e roteirista italiano Federico] Fellini sem morar em Roma, então o filme do Kleber tem camadas que tornam seu filme universal”.
Essa universalidade se reflete no impacto emocional que as obras causam até mesmo no círculo mais íntimo. Afonso cita que sua mãe, de 90 anos, assistiu a “O Agente Secreto” e se reconheceu nas pontes e no enredo, apesar de se chocar com alguns palavrões do roteiro.
O professor também vê suas próprias imagens de arquivo e fotografias da cidade serem incorporadas nos filmes do amigo, como em “Retratos Fantasmas”. “Eu me reconheço e me pertenço nessas obras. Ali tem a nossa turma indo para o cinema, tem as fotos que eu fiz e ele pediu para usar. É a nossa história sendo contada”, conclui Afonso.
Para o professor, essa vivência urbana permite que Kleber transforme Recife em um estúdio universal. “Estou na torcida porque ele é o mesmo colega de faculdade de sempre. É feliz ver esse espaço no mapa ocupado por alguém que nunca se desviou do caminho.”
CNN Brasil terá live especial na noite do Oscar
Além de matérias especiais no site, vamos realizar uma live das 19h do domingo (15) às 1h de segunda (16) com Elisa Veeck e Mari Palma na TV e no YouTube. Ao lado de artistas e influenciadores, vamos mostrar desde o tapete vermelho até a divulgação dos vencedores da 98ª edição do prêmio.
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Fonte : CNN