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Danielle Pereira Baliza já pesquisava sistemas agroflorestais no café quando nasceu seu primeiro filho, em 2014.  A rotina acadêmica seguia o ritmo acelerado da carreira, com projetos, publicações e atividades administrativas.

Depois da licença-maternidade, no entanto, ela percebeu que a dinâmica da instituição não acompanhava essa mudança na vida pessoal. “Eu precisei deixar o cargo de direção, e não foi por falta de competência, mas porque o sistema é difícil para as mulheres. As reuniões tinham hora para começar, mas não para acabar, e a maior parte da direção era formada por homens”, afirma.

O período, lembra ela, foi marcado por frustração e pela necessidade de redefinir sua atuação como pesquisadora, buscando um tema que trouxesse de volta o entusiasmo. Foi então que surgiu a vontade de aliar os conhecimentos em agronomia a um aspecto social da agricultura, estudando a presença feminina no setor. 

Segundo Danielle, colegas do sexo masculino estranhavam a escolha: uma agrônoma, que lidava com plantas e cultivos, e agora queria estudar pessoas. Ela explicou que, de alguma forma, o aspecto social era o que produzia culturas como o café.

Segundo a pesquisadora, hoje professora do Instituto Federal Sudeste de Minas Gerais, até cerca de uma década atrás havia pouca informação sistematizada sobre o tema. “Existiam publicações em inglês dizendo que a cafeicultura brasileira era basicamente feita por homens e máquinas. Quem está no dia a dia sabe que não é bem assim. Elas sempre estiveram ali mas escondidas atrás dos homens”, frisou.

Entre os pontos de atenção citados pela professora, estão a situação de agricultoras familiares e de trabalhadoras rurais. Em muitas propriedades, segundo ela, documentos e registros da produção ainda estão no nome de homens. “Quando a nota fiscal e o cadastro de produtora rural não estão no nome da mulher, isso pode gerar dificuldades para aposentadoria ou acesso a benefícios como licença-maternidade”, explicou.

Em parceria com pesquisadores de diferentes instituições e com apoio da Embrapa Café (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária em Café), foi realizado em 2016 um levantamento nacional com quase mil questionários aplicados em diferentes regiões produtoras. 

O reconhecimento também surgiu com a apresentação dos resultados do estudo em espaços internacionais, incluindo a ONU (Organização das Nações Unidas) e a Organização Internacional do Café. Além disso, Danielle foi reconhecida no prêmio Mulheres do Agro, organizado pela ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio) e a Bayer, na categoria de pesquisa e inovação em 2024.

A iniciativa busca mapear demandas de diferentes perfis de produtoras e trabalhadoras do setor. “O Brasil é muito diverso. Existem várias realidades na produção de café, com níveis diferentes de mecanização, clima e topografia. As demandas das mulheres também são distintas”, disse.

Atualmente, um grupo de trabalho formado por cerca de 20 instituições nacionais elabora uma proposta de política pública voltada para mulheres da cafeicultura, semelhante à criada em Honduras, primeiro país com uma política do tipo. 

Enquanto a pesquisa de Danielle se voltou para compreender o papel das mulheres na cadeia do café, a presença feminina no agro também pode ser observada em outras frentes da agronomia.

É o caso da pesquisadora Dalilla Carvalho Rezende, professora do Instituto Federal do Sul de Minas Gerais. Sua área de atuação está ligada ao estudo de doenças de plantas e ao desenvolvimento de métodos de controle biológico, linha de pesquisa voltada ao manejo de patógenos na agricultura.

Suas pesquisas por alternativas biológicas para o controle de doenças se iniciaram ainda na graduação, em 2005, quando pesquisas sobre o tema eram nada comuns. Pelo reconhecimento ao seu trabalho, Dalila também foi reconhecida pelo prêmio de pesquisa do Mulheres do Agro, em 2025.

O interesse pela agronomia surgiu ainda na infância, influenciado pelo pai, que era um pequeno produtor rural.

Durante a graduação, ela lembra que o número de mulheres nas turmas ainda era reduzido. Segundo Dalilla, esse cenário vem mudando gradualmente. Hoje, em algumas turmas em que leciona, as mulheres já são maioria. “Já tive turmas com 30 alunos e três ou quatro meninas. Hoje tenho turmas com 40 alunos e 25 ou 30 meninas”, afirmou.

Na própria área de agronomia dentro da instituição, ela diz que ainda há predominância masculina entre os professores, mas a diferença é menor do que em décadas anteriores.

No início da docência, quando trabalhava em uma faculdade, dava aulas no período noturno para estudantes que já estavam inseridos no mercado de trabalho. Como havia concluído recentemente o doutorado, alguns alunos mais velhos demonstravam certa resistência. “Eu sentia que alguns homens mais velhos me testavam”, lembrou.

Na academia, por outro lado, Dalilla sempre sentiu que teve o apoio de seus professores, independente do gênero, e complementava o trabalho dos colegas do sexo masculino. 

Hoje, além de orientar alunos e desenvolver pesquisas, ela também participa de atividades de divulgação científica em escolas. 

Em uma palestra recente para estudantes do ensino fundamental e médio, a professora propôs um exercício: pediu que os alunos citassem nomes de cientistas conhecidos. A maioria mencionou apenas homens, como Albert Einstein. Depois de algum tempo, um estudante lembrou de Marie Curie.

Para a pesquisadora, “isso mostra como as referências são predominantemente masculinas”. Ao mesmo tempo, ela observa mudanças na forma como os estudantes percebem a presença feminina na ciência.

Após a palestra, alguns alunos, inclusive meninos, se aproximaram para conversar sobre sua formação acadêmica e sobre os temas de pesquisa que ela desenvolveu no mestrado e no doutorado.

“Eles vieram perguntar sobre o que eu estudei, sobre a pesquisa. Isso mostra que é importante falar de ciência e mostrar que também existem mulheres nesse espaço. Que bom que nós estamos numa geração que está mudando a mente. E é isso, não só falar para as meninas, mas falar para os meninos e eles também terem uma referência de uma profissional feminina”, pontuou Dalilla.

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Fonte : CNN

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