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Desde os primórdios, o uso de cristais, incensos e cartomancia eram ferramentas de percepção do invisível, pontes simbólicas entre a matéria e o mistério. O que antes habitava templos, feiras esotéricas e círculos secretos, hoje aparece no quarto de adolescentes, no feed do TikTok e até em reuniões de trabalho.

Millennials, geração Z e até as crianças da geração Alpha tratam práticas místicas não como exotismo, mas como parte de suas rotinas. E essa disseminação, para o astrólogo Gabu Camacho, está profundamente conectada ao momento histórico em que vivemos.

“As pessoas perderam alguns referenciais tradicionais e estão descobrindo maneiras novas de se orientar. As práticas místicas aparecem como uma forma de reconstruir o próprio eixo, encontrando um diálogo entre a vida concreta e a vida invisível”, explica à CNN.

Um retorno que diz mais sobre o presente do que sobre o passado

O interesse renovado pelo sagrado não é mera nostalgia dos anos 1990, nem apenas uma estética de velas, névoa e filtros etéreos nas redes sociais. Ele responde a um mundo acelerado, saturado de informações e marcado por instabilidades constantes.

Muitas dessas tensões também são influenciadas por movimentos planetários que moldam o clima cultural da década. A entrada de Plutão em Aquário, por exemplo, condensa a sensação de ruptura e reinvenção que percorre a sociedade. Questões sobre identidade, futuro e pertencimento se intensificam — e não encontram respostas rápidas.

“Plutão mexe nas camadas mais profundas e Aquário fala de novas formas de existir. O resultado é uma geração que tenta entender quem é no meio de tantas mudanças, quem se é e quem se pode ser entre o consultório do analista e a leitura com o tarólogo”, comenta Gabu.

E, embora pareçam simples, objetos como cartas de tarô, pedras energéticas e incensos funcionam como pequenas tecnologias emocionais. Eles criam pausas em uma rotina hiperestimulada, oferecendo linguagem para o que muitas vezes não conseguimos formular.

Para o astrólogo, esses elementos operam como tradutores simbólicos de estados internos que, sem elaboração, viram ruído mental. “O tarô mostra padrões que se transformam em insights, o cristal funciona como um ponto de foco, um minuto meditativo e de oxigenação entre o caos cotidiano e o incenso cria um ritual de presença, um logoff da vida. São formas simples de lidar com tensões internas que estavam abafadas”, diz.

Para o especialista, essa apropriação do místico vai além do modismo: ela responde à necessidade de dar corpo ao que não cabe no racional, especialmente para gerações que carregam histórias emocionais anteriores às delas.

“Essas gerações carregam questões que não começaram nelas. O místico oferece uma linguagem para acessar sentimentos que estavam escondidos, padrões geracionais que não conseguem ser transmitidos somente por meio da palavra”, complementa.

Identidade, autonomia e espiritualidade

Ao que parece, os jovens de hoje não seguem uma única doutrina espiritual. Eles mesclam referências, criam rituais próprios e combinam práticas intuitivas. Gabu explica esse movimento como parte de uma busca por pertencimento sem aprisionamento.

“As pessoas querem pertencimento sem perder liberdade. O místico oferece essa autonomia. Cada um cria seu jeito de se sentir bem, sem precisar seguir dogmas ou regras que não fazem sentido”, diz o astrólogo.

Esse comportamento dialoga diretamente com as transformações coletivas aceleradas por Plutão em Aquário. Em tempos de quebra de estruturas, recorrer ao simbólico vira uma forma de se localizar.

“É um período de mudança profunda. A astrologia é aquariana, por exemplo. Quando o mundo fica instável, as pessoas procuram aquilo que dá sentido. É isso que explica a força desse movimento.”

E tudo indica que o movimento só vai crescer

Para Gabu, a expansão do interesse pelo místico não é apenas tendência estética: é sintoma de uma necessidade emocional profunda. “O místico voltou porque oferece linguagem, presença e, acima de tudo, acessibilidade. Uma leitura de tarô, muitas vezes, é a primeira chance de alguém se sentir acolhido, escutado e guiado. Um mapa astral é a oportunidade de ser e estar, de fazer as pazes com suas luzes e sombras”, finaliza.

Ainda segundo o astrólogo, a força desse movimento também está ligada ao amplo acesso que essas práticas oferecem. Terapia e acompanhamento psicológico são fundamentais, mas ainda esbarram em barreiras como custo, disponibilidade de profissionais e até estigmas culturais.

Já o místico costuma circular por outros caminhos. A cartomancia, por exemplo, nasceu nas ruas, em contextos populares, e sempre funcionou como um instrumento de escuta e acolhimento imediato.

Por isso, muitas pessoas encontram nessas práticas uma via de autoconhecimento mais próxima, menos burocrática e mais compatível com a realidade cotidiana. Para quem busca respostas rápidas, conforto simbólico ou simplesmente um espaço para reorganizar emoções, o universo místico acaba se tornando uma porta de entrada um pouco mais acessível, porém intuitiva e profundamente humana.

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Fonte : CNN

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