Quem acompanha futebol se surpreendeu com a notícia confirmada pelo São Paulo por volta das 14h20 desta segunda-feira (9): o treinador argentino Hernán Crespo foi demitido ao lado de outros cinco integrantes da comissão técnica.
Mas, por trás disso, há alguns momentos que podem ajudar a explicar a saída aparentemente repentina do ex-centroavante, que agora deve ser substituído por Roger Machado. Por isso, o CNN Esportes relembra momentos-chave da segunda passagem de Crespo pelo Morumbi.
Rosto já conhecido para estancar a crise
Em 18 de junho do ano passado, o São Paulo anunciava Hernán Crespo como novo técnico, substituindo Luis Zubeldía. O argentino trazia boas memórias ao torcedor tricolor: tinha sido o comandante na campanha do título do Paulistão de 2021, encerrando uma fila sem conquistas que vinha desde a Sul-Americana de 2012.
Naquele momento, o futebol nacional estava paralisado, aguardando a realização da Copa do Mundo de Clubes, nos Estados Unidos. Os tricolores estavam a apenas um ponto da zona de rebaixamento do Brasileirão, mas apareciam nas oitavas de final da Copa do Brasil e da Liberadores.
Estreia com derrota, mas horizonte parece promissor
O debute de Crespo para a segunda passagem pelo Morumbi não poderia ser mais desafiador: Flamengo no Maracanã — e, de fato, o São Paulo impôs pouca resistência e acabou derrotado por 2 a 0, em 12 de julho.
Na sequência, porém, os tricolores emendaram bons resultados, pelo Brasileirão: empate em visita ao Red Bull Bragantino, vitória sobre o Corinthians no Clássico Majestoso, triunfo em ida a Caxias do Sul para encarar o Juventude e vitória tranquila sobre o Fluminense, em 27 de julho.
Primeira crise
O bom momento continuou por mais dois jogos. Os são-paulinos receberam o Athletico-PR, que penava na Série B do Brasileirão, e venceram por 2 a 1, desperdiçando chance de abrir boa vantagem nas oitavas da Copa do Brasil. Na sequência, os tricolores foram ao Sul para dois jogos consecutivos como visitantes.
Primeiro, veio a vitória sobre o Internacional, pelo Brasileirão. Mas, depois, o torcedor são-paulino teve um banho de água fria pela Copa do Brasil: eliminação para o Furacão, em partida que ficou marcada pela polêmica expulsão do goleiro Rafael e teve vitória rubro-negra por 1 a 0 para forçar os pênaltis, em 6 de agosto.
Sequência invicta
Apesar da eliminação, o cenário seguiu parecendo favorável ao São Paulo. Logo no duelo seguido, em 9 de agosto, o time de Crespo venceu o Vitória por 2 a 0, em duelo que marcou o retorno de Lucas Moura, recuperado de lesão ligamentar e estiramento na região posterior do joelho direito, após quatro meses.
Na sequência, sonhando com vaga no G6 do Brasileirão, os tricolores visitaram o Atlético Nacional, seguraram o empate sem gols na Colômbia e se aproximaram da classificação para as quartas de final da Libertadores.
No final de semana seguinte, o São Paulo foi até o Recife e acabou empatando com o lanterna Sport — por ainda estar vivo na Libertadores e ter usado uma formação praticamente reserva, o resultado acabou sendo relevado na ocasião, mas acabaria fazendo falta lá na frente.
Em 19 de agosto, os tricolores receberam o Atlético Nacional, carrasco na Libertadores de 2016, impedindo o sonho do tetracampeonato continental, e, nos pênaltis, avançaram para as quartas de final, naquele que talvez tenha sido o ápice do trabalho de Crespo.
Vivo na Libertadores, o São Paulo recebeu o Atlético-MG na partida seguinte pelo Brasileirão, venceu por 2 a 0 e, em meio a 11 jogos adiados, aparecia na sétima colocação, com 32 pontos, o mesmo de Botafogo e Mirassol, que levavam a melhor nos critérios de desempate para fechar o G6.
Primeiros sinais?
A vitória sobre os alvinegros de Minas foi em 24 de agosto, dois dias depois de uma declaração polêmica do então presidente tricolor, Julio Casares. O mandatário “cornetou”, em entrevista ao canal Arquibancada Tricolor, um possível interesse do diretor de futebol, Carlos Belmonte, em ser candidato à presidência.
Já em 25 de agosto, os tricolores sofreram um transfer ban da Fifa por falta de pagamento ao Cerro Porteño pelo volante Bobadilla, impedindo, brevemente, a inscrição do lateral-direito Mailton. Aquele dia, porém, foi agitado. O clube rapidamente quitou a dívida com o Ciclón.
Porém, viu duas importantes peças do elenco com lesões confirmadas. O volante Marcos Antônio teve detectada uma lesão muscular na região posterior da coxa esquerda, enquanto o centroavante André Silva, uma lesão no ligamento cruzado posterior e um estiramento no ligamento cruzado anterior.
As más notícias continuaram nos dias seguintes. Em 28 de agosto, o São Paulo confirmou que Lucas Moura precisaria passar por mais uma artroscopia para tratar uma lesão ligamentar parcial e estiramento na cápsula posterior do joelho direito.
Queda livre
Dois dias depois, começou a derrocada tricolor na temporada. Os são-paulinos foram ao Mineirão e perderam para o Cruzeiro, por 1 a 0, antes de mais uma data Fifa. Sem jogos, a diretoria olhava o mercado para tentar reforçar o sistema ofensivo.
O “sonho de consumo” era Marcos Leonardo, em situação delicada no Al-Hilal. Já Crespo pedia um velho conhecido do torcedor tricolor: o argentino Rigoni, que estava no León. O primeiro acabou não retornando ao Brasil por questões financeiras, mas o segundo foi de fato contratado.
Paralelamente a isso, visando fortalecer o combalido caixa, o São Paulo vendeu o jovem atacante Henrique Carmo para o CSKA, em negociação na qual o clube russo pode pagar até 7 milhões de euros.
Na primeira partida após a paralisação, ainda houve um respiro: Juan Dinenno marcou o gol da vitória sobre o Botafogo, em 14 de setembro. Mas o duro golpe veio na sequência: derrota por 2 a 0 em visita à LDU, pelas quartas da Libertadores.
Antes da volta, mais um revés: 1 a 0 para o Santos na Vila Belmiro, naquele que já era o pior momento de Crespo na segunda passagem — pelo menos, até ali. Afinal, sem aproveitar as chances que teve na frente e vacilando atrás, o Tricolor perdeu para a LDU, encerrando o sonho do tetracampeonato continental, em 25 de setembro.
Péssima sequência
Com a eliminação na Libertadores, a situação de Casares começou a ficar mais delicada, com pedidos de renúncia. O clima tinha “azedado” no Morumbi. Pelo Brasileirão, veio uma sequência com quatro derrotas em cinco jogos, para Ceará, Palmeiras, Grêmio e Mirassol, com uma vitória sobre o Fortaleza para dar uma “aliviada”.
O revés para o Leão em Mirassol aconteceu em 19 de outubro. Naquele momento, o São Paulo era nono colocado, com 38 pontos após 29 rodadas incompletas, já que cinco jogos ainda estavam pendentes. Botafogo e Bahia, com 46 pontos, fechavam o G6. Vitória, com 31, abria o Z4.
Respiro e bom momento
Os últimos dias de outubro e o começo de novembro foram de leve melhora no Brasileirão, a única disputa que restava na temporada. O São Paulo embalou vitórias sobre Bahia e Vasco e empate contra o Flamengo e viu o G6 virar G7 com a confirmação da final entre Mengão e Palmeiras na Libertadores.
Fim do sonho pelas próprias pernas
A reta final de novembro, porém, foi trágica nas pretensões tricolores de voltar à Libertadores sem depender de outros resultados. Entre os dias 8 e 27, foram quatro jogos, com vitória apenas sobre o Juventude, derrotas diante de Red Bull Bragantino e Corinthians e uma goleada humilhante do Fluminense.
Após o revés contra o Massa Bruta, inclusive, a saída de Crespo já passou a ser especulada, mas o argentino mostrava esperanças de melhoras. Já no dia 11, uma bomba atingiu a Barra Funda: o meia Oscar teve detectada uma “intercorrência com alterações cardiológicas“, com a aposentadoria sendo cogitada desde então.
Em 28 de novembro, quando a ida para a Libertadores dependia de ficar na oitava colocação e que Cruzeiro ou Fluminense vencesse a Copa do Brasil — portanto, precisando de dois resultados —, Belmonte deixou o cargo de diretor de futebol.
Nos últimos jogos do Brasileirão, em que atuou os quatro jogos finais como mandante na Vila Belmiro, nada de novo para o São Paulo, que bateu o Internacional e perdeu para o Vitória. Veio mais um transfer ban, em 3 de dezembro, por dívida com ex-agente de Calleri.
Só piora…
Em 14 de dezembro, Corinthians e Vasco garantiram vaga para a final da Copa do Brasil, enterrando qualquer possibilidade tricolor de ir à Libertadores como oitavo lugar, o que colocou o São Paulo de volta para a Sul-Americana. Os dias seguintes foram de uma série de novidades envolvendo o “escândalo do camarote”.
Ano novo, vida nova?
Já em janeiro, quando Danielzinho tinha sido anunciado como reforço e encaminhado a contratação de Carlos Coronel, o São Paulo convivia com a Polícia Civil na cola de Casares, após relatório do Coaf apontar que o dirigente recebeu R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro vivo entre janeiro de 2023 e maio de 2025.
Na segunda metade de janeiro, em meio a uma série de investigações, Casares viu integrantes do Conselho Deliberativo aprovarem o pedido de impeachment, com Harry Massis assumindo a presidência tricolor até o final do ano após a renúncia do antigo mandatário.
Em 23 de janeiro, já sob nova direção, o São Paulo aceitou o pedido de Muricy Ramalho para deixar o cargo de coordenador técnico. Três dias depois, o ex-lateral-direito Rafinha foi confirmado para atuar como elo entre elenco e diretoria.
Na apresentação como dirigente, o ex-jogador rebateu Crespo, que havia dito que o objetivo era chegar aos 45 pontos no Brasileirão e evitar o rebaixamento: “o São Paulo jamais vai entrar em uma competição pensando em permanecer”, disse Rafinha.
As polêmicas não paravam nos bastidores. Em 20 de fevereiro, Harry Massis precisou afastar a possibilidade de renunciar após denúncias envolvendo a filha, Christina Massis, suspeita de venda irregular de ingressos de cortesia no MorumBIS.
Ainda houve polêmicas na montagem no elenco nesse começo de temporada — sendo que uma delas se arrastou por longas semanas. Após longo imbróglio em negociação com o Corinthians, o meio-campista Alisson acabou sendo emprestado ao Fluminense.
Dentro de campo, o São Paulo embalou na reta final da primeira fase do Paulistão e avançou ao mata-mata, em que parou no Palmeiras, em polêmica semifinal. Crespo, porém, foi criticado por ter colocado Luan entre os titulares.
Até aquele momento, em 1º de março, o volante tinha três jogos na temporada até ali, sempre vindo do banco de reservas. Também houve reclamações de uso de André Silva no ataque, mesmo após longo período de inatividade e tendo Ferreirinha e Tapia como opções.
Outras situações que teriam desgastado a relação de Crespo com a direção teriam sido o interesse em Kevin Zenón, negociação confirmada por veículos como ge.globo e Lance!, e, segundo a ESPN, três dias e meio de folga depois da eliminação no Paulistão.
O próximo compromisso do São Paulo, possivelmente já com Roger Machado, é na quinta-feira (12), contra a Chapecoense, no Estádio do Canindé, em São Paulo (SP), às 20h, pela quinta rodada do Brasileirão, em que é vice-líder, com dez pontos, atrás do Palmeiras apenas pelo saldo de gols.
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Fonte : CNN