As mudanças climáticas e o passivo de pastagens degradadas — que hoje atinge metade dos pastos brasileiros em níveis que variam de médio a severo — forçaram o agronegócio a repensar a lógica da lucratividade.
No cenário de 2026, a eficiência não é mais medida apenas por saca ou arroba, mas pela capacidade de otimizar o fluxo de caixa e mitigar riscos climáticos em uma mesma área.
A pressão não vem só do clima. A degradação do solo já aparece como custo recorrente no dia a dia do produtor, com perda de matéria orgânica, desequilíbrio biológico e queda da fertilidade natural, o que compromete produtividade e encarece o pacote tecnológico.
“Estamos vendo solos que produzem menos, exigem mais investimento e entregam menor retorno ao produtor. Esse desequilíbrio pressiona a rentabilidade e compromete a sustentabilidade do sistema produtivo”, afirma a CEO da Vitalforce, Sheilla Albuquerque.
É nesse contexto que sistemas como ILP (Integração Lavoura-Pecuária) e ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) deixam de ser “pautas verdes” para se tornarem ferramentas de gestão de risco — com impacto direto em caixa, custo e resiliência produtiva.
A conta das pastagens é o centro do problema e, ao mesmo tempo, a maior oportunidade de escala. Levantamento recente da Vitalforce indica que cerca de 109 milhões de hectares apresentam algum nível de degradação, exigindo investimentos elevados em recuperação e manejo para manter a pecuária viável no longo prazo.
E, do lado do potencial, o país tem 159 milhões de hectares de pastagens que podem ser convertidos em ILPF, ampliando produção sem necessidade de novas aberturas, segundo o presidente-executivo da Rede ILPF, Francisco Matturro.
Além disso, a própria base de área integrada vem sendo atualizada. Enquanto estimativas anteriores apontavam 17 milhões de hectares, números da Rede ILPF indicam que o sistema chega hoje a aproximadamente 21,8 milhões de hectares.
“A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta significa a emancipação do produtor. De que forma? Porque tem uma renda de curto prazo, que são as lavouras de grãos e cereais. Tem o gado no médio prazo e o componente florestal no longo prazo”, ressalta Matturro.
A lógica do fluxo de caixa: o caso da Fazenda Gabinete
Para o pecuarista Ruy Fachini Filho, sócio-proprietário da Fazenda Gabinete (MS), a adoção da ILP foi uma resposta direta à perda de viabilidade econômica do modelo extensivo.
“Se a gente não mudasse nosso sistema, ia estar vendendo terra e impactando negativamente o negócio”, afirma.
Fachini reestruturou a propriedade de 4.500 hectares para operar em ciclos rápidos e intensivos. O cronograma financeiro é desenhado para reduzir o “tempo morto” da terra: em outubro, o arrendatário planta soja; após a colheita em fevereiro, entra a forragem.
Em maio, Fachini compra bezerros de 210 kg que, em um pasto de alta qualidade nutricional auxiliado pelo TIP (Trato Intenso a Pasto), chegam ao abate em julho do ano seguinte com até 540 kg.
“O que eu levava quatro anos para engordar um boi, hoje faço em um ano e meio. O animal entra com 10 meses e sai com 22 meses, precoce e bem acabado”, explica Fachini.
A estratégia permite dois abates anuais e aproveita bonificações de exportação e incentivos estaduais que chegam a cobrir 50% dos custos de acabamento.
“Estou usando muito melhor meu solo, a minha área, e respeitando a sustentabilidade. Antes a fazenda era 90% pecuária e eu não conseguia abater o mesmo volume de hoje”, frisa.
O desenho do negócio, nesse caso, combina intensificação de pasto, previsibilidade de oferta de forragem no período seco e maior giro de capital, um ponto crítico em anos de crédito mais caro e incerteza climática, quando alongar ciclo significa alongar risco.
O custo da conversão e o retorno sobre investimento
Apesar do ganho de eficiência, a barreira de entrada continua sendo capital e conhecimento. Segundo Laurent Micol, sócio e diretor de Inovação e Carbono da Caaporã Agrosilvopastoril, a recuperação de uma pastagem degradada para sistemas integrados pode exigir investimentos entre R$ 6 mil e R$ 8 mil por hectare, dependendo do estado da área e da infraestrutura existente.
“É um investimento produtivo, mas tem riscos. Depende da situação da fazenda; tem área coberta com plantas invasoras onde a remoção é cara”, detalha.
Criada há cerca de seis anos, a Caaporã nasceu com a proposta de tratar a pecuária como solução climática. Em vez de comprar propriedades, a empresa arrenda fazendas degradadas, recupera o solo, implanta sistemas silvipastoris e estrutura a produção com manejo intensificado e metas de carbono desde o início do ciclo.
Hoje, a companhia opera cerca de 8 mil hectares distribuídos principalmente no norte do Tocantins, no norte do Mato Grosso e no oeste da Bahia, parte ainda em fase de implantação. A meta é crescer para algo próximo de 50 mil hectares na próxima década, apostando em uma combinação de capital filantrópico, linhas públicas e instrumentos financeiros híbridos.
O modelo produtivo combina manejo rotacionado, divisão de piquetes, nutrição estratégica e produção própria de silagem para garantir ganho de peso constante dos bois ao longo do ano.
Com isso, a empresa sustenta que o ganho médio pode sair da média nacional de 400 gramas por dia para cerca de 600 gramas de engorda, com maior lotação por hectare e redução da idade de abate.
A lógica do sistema inclui também o componente florestal, que fornece sombra ao rebanho, melhora o microclima e cria um ativo de longo prazo. Em termos de emissões, a empresa calcula que a pegada de carbono pode cair pela metade — de cerca de 50 kg de CO₂ equivalente por quilo de carne produzida para 25 kg.
“As árvores captam 3 toneladas de carbono por hectare/ano e o solo recuperado mais meia tonelada. A pecuária passa a ser ferramenta de mitigação climática”, afirma Micol.
A estratégia exige, porém, horizonte longo e estrutura financeira robusta. O componente florestal demora anos para gerar retorno direto e a implantação envolve reforma de pastagens, cercas, água encanada, infraestrutura logística e tempo de adaptação do sistema — mas que são altamente rentáveis no longo prazo.
O desafio da monetização ambiental
Embora o sistema ILPF seja o que mais sequestra carbono, a remuneração direta por esse serviço ainda é um gargalo. William Marchió, gerente da Rede ILPF, aponta que, para cada R$ 1,00 investido, o retorno sistêmico é de R$ 2,70, mas o mercado de créditos de carbono ainda é proibitivo para a maioria.
“Qualquer projeto internacional custa cerca de US$ 500 mil para ser apresentado. Ou é feito por gigantes, ou por um pool de fazendas. No Brasil, uma fazenda recebe de 2 a 5 toneladas de crédito por hectare, valendo de 5 a 10 dólares. Não paga nem a intenção do produtor”, critica Marchió.
Ele defende uma certificadora nacional para baratear acesso e permitir escala, inclusive para pequenos. “O pequeno não tem desculpa. Se você tiver um jabuti e um pé de alface, consegue fazer integração”, brinca.
A Caaporã já tenta endereçar a trava do investimento inicial em parcerias privadas e governos para atender produtores familiares (5 a 20 hectares), fornecendo tecnologia e garantindo a compra de bezerros como forma de sustentar o caixa no começo do ciclo — quando o produtor ainda está “pagando” a reforma do sistema.
A ciência por trás da eficiência
A base técnica da ILP e da ILPF não é nova, mas ganhou tração com maquinário mais adaptado, protocolos de manejo e tecnologias de plantio que reduzem risco e ampliam previsibilidade. É o que aponta Roberto Guimarães Júnior, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
“Sistemas integrados já é uma história antiga, praticamente desde quando a Embrapa começou a se estudar essa diversificação de cultivos numa mesma área, ou seja, como que a gente faz para poder produzir mais com os mesmos recursos?”.
Para Guimarães, a vantagem competitiva do Brasil está na possibilidade de sobrepor produções ao longo do ano agrícola, aproveitando o clima tropical e a dinâmica de sucessão entre lavoura e pastagem.
“Hoje no Brasil, talvez a gente tenha uma condição única de um país: clima tropical que nós temos, em algumas regiões do país, a gente pode ter três safras numa mesma área, no mesmo ano agrícola. Isso não tem em nenhum lugar do mundo”, pontua.
A lógica, segundo ele, vai além do ganho agronômico: sistemas integrados aumentam a cobertura do solo, favorecem a infiltração de água e elevam a resiliência em períodos de estresse climático — com efeito também sobre o balanço de carbono.
Na prática, a integração se apoia numa conta simples: parte do investimento feito para a lavoura vira “empurrão” para o pasto, reduzindo custo de renovação e acelerando a recuperação da área.
“Uma vez que ele [o produtor] colhe a cultura do milho, o pasto consegue se estabelecer só com a adubação residual que o milho não consegue utilizar ao longo do ciclo. Então você praticamente tem um pasto de bônus nesse sistema”, explica.
Para reduzir o risco climático, a Embrapa também tem apostado em ferramentas de antecipação de plantio. Um exemplo é o sistema Antecipe, que permite semear o milho safrinha ou o pasto antes da colheita da soja, ganhando tempo em uma janela cada vez mais apertada.
“O produtor tem ganhado em média uma saca, uma saca e meia por dia de antecipação”, afirma Guimarães, ao explicar que 20 dias podem definir o sucesso da safrinha.
Seguro e financiamento: quando o risco vira produto
A “reengenharia” também chega ao seguro rural. Para Glaucio Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg (Federação Nacional de Seguros Gerais), a heterogeneidade dos sistemas é o principal entrave para produtos massificados de ILPF e SAF (Sistemas Agroflorestais).
“Apesar disso, há caminhos: é possível combinar apólices agrícolas, pecuárias e florestais ou estruturar seguros de receita que considerem o desempenho conjunto do sistema, desde que haja clareza sobre produtividades esperadas, volumes florestais, cobertura pecuária e demais parâmetros. São produtos altamente customizados, analisados caso a caso”, explica.
Toyama também aponta que recuperar área degradada tende a melhorar o risco, mas o início do ciclo tem “nível tecnológico” próprio — e isso muda o gatilho de indenização e o cálculo do seguro considera um “nível tecnológico inicial”.
No mapa de sinistros, ele resume o que pesa no caixa do produtor: excesso e falta de chuva, responsáveis por mais de 70% das ocorrências.
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Fonte : CNN