Cinco jogadoras da Seleção Feminina do Irã solicitaram asilo na Austrália e atualmente estão em segurança sob proteção policial, disse uma fonte à CNN Sports. O pedido acontece em meio a temores sobre a segurança das atletas.
Segundo a jornalista esportiva Raha Pourbakhsh, pelo menos sete jogadoras deixaram o hotel da equipe, e cinco delas já solicitaram asilo à Polícia Federal Australiana.
Pourbakhsh, que trabalha para a Iran International TV, disse à CNN que as famílias de três dessas cinco jogadoras, que agora estão em segurança com a polícia, foram ameaçadas e afirmou que o paradeiro de pelo menos outras duas jogadoras é desconhecido após elas também terem deixado o hotel da equipe.
A CNN entrou em contato com a Polícia Federal Australiana e com os Departamentos australianos de Interior e de Relações Exteriores para comentários.
As integrantes da equipe iraniana, que estavam disputando a Copa da Ásia na Austrália, estão no centro de uma crescente polêmica desde a última segunda-feira (2), depois que as jogadoras permaneceram em silêncio durante o hino nacional do Irã antes de sua primeira partida da fase de grupos contra a Coreia do Sul — uma decisão que muitos temem que seja punida pelo regime iraniano.
Por isso, torcedores e até o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, iniciaram um apelo para que as jogadoras não retornem a seu país de origem por medo perseguição enquanto o país está em guerra com os Estados Unidos e Israel sob comando de um novo líder supremo.
Pourbakhsh também acrescentou que Mehdi Taj, presidente da Federação de Futebol do Irã, teve seu visto negado ao tentar viajar para a Austrália para levar a equipe de volta para casa, e a vice-presidente Farideh Shojaei teve que viajar em seu lugar.
Em uma declaração na rede Truth Social, Donald Trump disse que seria um “grave erro humanitário” se a Austrália permitisse que a equipe voltasse ao Irã e que os Estados Unidos concederiam asilo às jogadoras iranianas caso a Austrália não o fizesse.
Mais tarde, Trump publicou novamente, escrevendo que havia conversado com o primeiro-ministro australiano Anthony Albanese e que cinco jogadoras “já haviam sido cuidadas” e que “o restante está a caminho”.
Entenda o caso
Antes da primeira partida do torneio na última segunda-feira (2), as jogadoras iranianas permaneceram em silêncio durante o hino nacional — um gesto que elas não explicaram, mas que foi interpretado por alguns setores mais radicais dentro do Irã como um sinal de traição.
Fontes disseram à CNN Sports que elas foram forçadas a cantar o hino nacional antes da segunda partida, na quinta-feira (5), e no domingo, antes da derrota por 2 a 0 para as Filipinas, voltaram a cantar o hino e fizeram uma saudação militar.
Após a derrota na última partida do torneio no domingo, torcedores se aglomeraram ao redor do ônibus da equipe, gritando para a polícia “salvem nossas meninas” enquanto o veículo se afastava.
Hadi Karimi, ativista de direitos humanos e membro da comunidade iraniana local, disse que apoiadores do lado de fora do ônibus puderam ver claramente pelo menos três jogadoras dentro dele fazendo o sinal internacional de pedido de ajuda com as mãos.
No entanto, uma fonte próxima à equipe expressou ceticismo à CNN de que as integrantes da equipe saberiam o que o gesto significa.
Nesta segunda-feira (9), Karimi acrescentou que havia esperança de que outras jogadoras agora se juntassem às cinco companheiras que atualmente estão com a polícia, acrescentando que era uma “notícia incrível” que algumas jogadoras haviam conseguido sair.
Atenção global
A situação das jogadoras chegou até Reza Pahlavi, filho do xá deposto do Irã, que também se juntou aos apelos para que o governo australiano garanta sua segurança, alertando em uma publicação na rede X que elas enfrentarão “graves consequências” se retornarem ao Irã.
“Como resultado de seu corajoso ato de desobediência civil ao se recusarem a cantar o hino nacional do atual regime, elas enfrentarão consequências severas caso retornem ao Irã”, escreveu Pahlavi no X. “Peço ao governo australiano que garanta sua segurança e ofereça todo o apoio necessário.”
Uma fonte próxima à equipe disse à CNN que algumas pessoas presentes na partida de domingo (8), entre Irã e Filipinas, estavam lá por razões políticas para tentar obter apoio para Pahlavi como possível futuro líder do Irã.
A entidade máxima do futebol mundial, a Fifa, disse à CNN Sports que também está em contato próximo com as partes relevantes, incluindo a Confederação Asiática de Futebol (AFC), que organizou o torneio em que o Irã jogou na semana passada.
“A segurança da seleção feminina do Irã é prioridade da Fifa, e por isso permanecemos em contato próximo com a AFC e com as autoridades australianas relevantes, incluindo a Football Australia, em relação à situação da equipe”, disse um porta-voz da Fifa.
Dificuldade de comunicação
A seleção feminina iraniana disputava a Copa da Ásia na Austrália durante uma semana de turbulência para seu país, enquanto o conflito com os Estados Unidos e Israel se intensificava e envolvia países vizinhos.
A guerra interrompeu as viagens internacionais, e embora voar para o Oriente Médio neste momento seja difícil devido ao fechamento do espaço aéreo e ao risco de ataques aéreos, apoiadores temem que as mulheres sejam levadas para um terceiro país — talvez China, Rússia ou Malásia — antes de seguir viagem para o Oriente Médio.
Craig Foster, ex-jogador da seleção australiana e ativista de direitos humanos, disse que “uma vasta gama de organizações” tentou falar com as jogadoras durante sua estadia na Austrália, mas não teve a oportunidade.
“Nenhum grupo de atletas deveria jamais ser efetivamente mantido como refém por sua própria federação e impedido de ter acesso a redes externas de apoio”, disse ele. Como as jogadoras foram eliminadas da competição, ele afirmou que a AFC tem responsabilidade pelo bem-estar delas.
“A primeira coisa que a comunidade do futebol australiano está pedindo é que seja concedido acesso às jogadoras a redes de apoio seguras e culturalmente adequadas, para que elas possam expressar de forma privada e confidencial se estão se sentindo inseguras e o que gostariam que acontecesse”, disse.
A CNN entrou em contato com a AFC e com a Federação de Futebol do Irã para comentários.
Beau Busch, presidente da FIFPRO Ásia/Oceania, que representa jogadores de futebol na região, disse à ABC que eles não conseguiram entrar em contato com integrantes da equipe iraniana.
Embora isso seja “extremamente preocupante”, ele disse que o grupo já antecipava problemas após a repressão do regime iraniano contra manifestantes no início deste ano.
“Nossa responsabilidade agora é fazer tudo ao nosso alcance para garantir que elas estejam seguras”, afirmou.
A ministra das Relações Exteriores da Austrália, Penny Wong, recusou-se a comentar no domingo (8) quando questionada se houve contato entre autoridades australianas e as jogadoras iranianas. Ela disse que não queria “entrar em comentários sobre a equipe feminina iraniana”.
“Estamos em solidariedade com os homens e mulheres do Irã, especialmente com as mulheres e meninas iranianas”, disse à emissora nacional ABC. “Obviamente, sabemos que este é um regime que reprimiu brutalmente seu povo.”
Em uma coletiva de imprensa após a partida no domingo, a treinadora do Irã, Marziyeh Jafari, disse que a equipe estava ansiosa para voltar para casa.
“Pessoalmente, gostaria de retornar ao meu país o mais rápido possível e estar com meus compatriotas e minha família”, afirmou.
Karimi, que também é vice-presidente da sociedade iraniana de Queensland, disse que apoiadores se reuniram do lado de fora do hotel das jogadoras e, quando não conseguiram contato com elas devido à forte segurança, buscaram ajuda da polícia australiana local.
Eles voltaram ao local nesta segunda-feira (9), observando para ver se o ônibus sairia com as jogadoras a bordo em direção ao aeroporto.
“Nós queremos que vocês as separem do IRGC”, disse ele, referindo-se à Guarda Revolucionária Islâmica.
“Separem-nas dos membros do regime islâmico e as entrevistem”, afirmou.
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Fonte : CNN