A recente tragédia na Zona da Mata mineira, em que fortes chuvas resultaram em mais de 60 mortes em Juiz de Fora (MG) trouxe novamente ao centro do debate público a vulnerabilidade das cidades brasileiras perante eventos climáticos extremos.
Este episódio, no entanto, não é isolado; ele se soma a um histórico recente de desastres, como os deslizamentos em Petrópolis (2022) e as enchentes históricas no Rio Grande do Sul (2024). Embora as causas meteorológicas variem, o diagnóstico dos especialistas é unânime: o país enfrenta um problema estrutural de falta de adaptação urbana diante de fenômenos cada vez mais intensos e frequentes.
Impacto das mudanças climáticas nos centros urbanos
O aumento do risco de tragédias é potencializado pela combinação entre as mudanças climáticas, o crescimento urbano desordenado e a ocupação de áreas de risco, como encostas e margens de rios com drenagem insuficiente.
Nesse cenário, a gestão de riscos exige uma mudança de paradigma, saindo da cultura da reação para a da antecipação. O uso de monitoramento em tempo real, sistemas inteligentes e análise de dados surge como um aliado indispensável para proteger a população e orientar as decisões das autoridades de forma ágil e precisa.
Para Pedro Curcio Júnior, CEO da iNeeds — empresa especializada em tecnologia para gestão pública — a integração de soluções inteligentes deve ser a base do novo planejamento urbano. “Eventos extremos não podem mais ser tratados como exceções. Eles precisam fazer parte do planejamento das cidades. Hoje já existem tecnologias capazes de monitorar variáveis ambientais, analisar dados em tempo real e gerar alertas que ajudam gestores públicos a agir antes que a situação se torne uma tragédia”, afirma o executivo. De acordo com Curcio Júnior, o uso de inteligência artificial e sensores permite criar modelos preditivos que cruzam o histórico de chuvas com a topografia e a ocupação do solo, identificando gargalos antes que o desastre ocorra.
Além do monitoramento técnico, a digitalização da gestão pública facilita a coordenação entre diferentes órgãos, como a Defesa Civil e as equipes de campo, através de dashboards de controle e sistemas de alerta antecipado para a população.
O executivo destaca que esses dados também permitem priorizar investimentos em infraestrutura de forma mais eficiente. “Com tecnologia é possível priorizar investimentos, identificar gargalos urbanos e planejar intervenções com base em dados concretos. Isso torna as cidades mais resilientes e evita que tragédias anunciadas continuem acontecendo”, pontua Curcio Júnior, que se colocou à disposição da prefeitura de Juiz de Fora para auxiliar na implementação de soluções.
Contudo, a tecnologia não atua sozinha. Especialistas reforçam que a inovação digital deve caminhar junto a medidas estruturais clássicas, como a recuperação de encostas, ampliação de redes de drenagem, preservação de áreas verdes e controle rigoroso da ocupação urbana.
A conclusão é que a adaptação das cidades brasileiras precisa deixar de ser uma promessa de longo prazo para se tornar uma prioridade imediata de gestão. “O Brasil precisa avançar para um modelo de cidades mais inteligentes e resilientes. Isso significa integrar planejamento urbano, sustentabilidade e tecnologia. Quando governos passam a trabalhar com dados e previsibilidade, conseguem agir antes do desastre acontecer”, resume Curcio Júnior.
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Fonte : CNN