O Carnaval de São Paulo de 2026 promete, mais uma vez, ocupar as pistas do Anhembi como um grande cenário de celebração da cultura afro-brasileira, reunindo escolas de samba que levam à avenida a força dos orixás, das entidades espirituais e da ancestralidade.
Iemanjá, Oxum e Exú são algumas das divindades homenageadas, ao lado de figuras marcantes na cultura popular brasileira, como Zé Pelintra, Maria Navalha e Maria Padilha. Contudo, outros orixás e entidades espirituais, ainda que menos familiares para o público em geral, também são lembradas.
Ao inserir essas referências em destaque nos desfiles, as agremiações evidenciam a riqueza cultural dessas tradições e colaboram para a desconstrução de preconceitos, reforçando o papel da herança africana na construção da identidade do povo brasileiro.
Orixás e entidades homenageadas no Carnaval 2026 em São Paulo
Barroca Zona Sul
O samba-enredo da Barroca Zona Sul, localizada na zona sul de São Paulo e fundada em 1974, é “Oro Mi Maiô Oxum”. Oxum, que figura no título, é a principal orixá citada. Orunmilá, Iemanjá, Oxalá, Exú, Oxóssi e Logun Edé também são mencionados.
Trecho do samba-enredo:
- “Ayêyê Oxum, da sedução ao mensageiro, Laroyê! O sagrado fundamento a revelar, se tornando então eleita de Orunmilá, a filha d’Iemanjá e Oxalá”.
Camisa Verde e Branco
Fundada em 1953, a Camisa Verde e Branco é uma das escolas de samba pioneiras na região da Barra Funda, Zona Oeste de São Paulo. O samba-enredo da agremiação é “Abre Caminhos“, sendo Bará/Eleguá o principal orixá mencionado.
Diversas entidades conhecidas dos frequentadores de terreiros também são mencionadas, como é o caso dos Exús Capa Preta, Tranca Rua e Marabô, além de Zé Pelintra, Maria Navalha e Maria Padilha, entidades marcantes e sempre presentes nas passarelas do país.
Trechos do samba-enredo:
- “Bará Mojubá, Agoyê, é boca que tudo come. É olho que tudo vê. Arreda que Exu abre caminhos. Arreda pra Exu movimentar”.
“Eu sou da rua, macumbeiro, sim sinhô. Quem me guarda é Capa Preta, Tranca Rua e Marabô”.
“Gira saia, pombogira, soberana ela é. Quem carrega uma Padilha sabe a força da mulher”.
“E a Barra Funda, berço da malandragem, se espelha na coragem do seu Zé e da Navalha”.
Mocidade Alegre
Fundada em 1967, a escola leva para a avenida o samba-enredo “Malunga Léa: Rapsódia de Uma Deusa Negra“, em homenagem à atriz brasileira Léa Garcia, filha do orixá Oxumarê.
Trechos do samba-enredo:
- “Laroyê! Bate três vezes. E Mojubá! A deusa negra é ela! A filha de Oxumarê, que traz no sangue a força da mulher”.
- “Ô! Malunga é! Malunga, Léa! Arroboboi. Toca o bravum com ancestralidade, no terreiro Mocidade”.
Mocidade Unida da Mooca
A agremiação, fundada no ano de 1987, cita nos versos de seu samba-enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin” as orixás Oxum e Iemanjá, sendo a última uma das mais conhecidas e cultuadas no país.
Trechos do samba-enredo:
- “Odociá! Yemanjá Odò! A mãe de todas tem a nossa cor. Oromimá… Oraieieô… Oraieieô Oxum. Deusa do ouro, um tesouro do Orun!”
Quem são os principais orixás e entidades em destaque na passarela em 2026?
Iemanjá
Iemanjá (ou Yemanjá) é conhecida como a grande mãe dos orixás e a divindade que rege os mares e as águas salgadas. Sua força está associada ao cuidado, à proteção e aos laços familiares, simbolizando acolhimento e equilíbrio emocional.
Embora represente afeto e generosidade, a “rainha do mar”, como também é chamada, expressa firmeza diante daqueles que desconsideram seus princípios. No Brasil, sua devoção é amplamente difundida, com destaque para as celebrações realizadas em 2 de fevereiro, quando oferendas como flores são lançadas ao mar. As tonalidades que a representam costumam ser o azul e o prateado.

Oxum
Oxum é a orixá que governa as águas doces, como rios, lagos e cachoeiras, além de simbolizar o amor não ocidental, a visão política e a abundância. Sua presença está ligada à fertilidade, à maternidade e ao cuidado, sendo frequentemente associada à proteção das mulheres, das gestantes e das crianças, além de representar a beleza interna e externa, a vaidade e a autoestima, mas também o equilíbrio entre delicadeza e força.
Oxum expressa sabedoria e firmeza, atuando como mediadora emocional e promotora da harmonia. É cultuada como fonte de prosperidade e equilíbrio espiritual, sendo tradicionalmente representada pelas cores amarelo e dourado, que remetem ao ouro, à luz e à riqueza.

Oxalá
Oxalá é compreendido, na tradição yorubá, como a divindade primordial ligada à criação da vida e da humanidade. Sua energia simboliza serenidade, equilíbrio e sabedoria, sendo associada à tolerância, à paciência e à busca pela harmonia espiritual. Seu arquétipo reflete a figura de um guia justo, que conduz com tranquilidade e resolve desafios por meio do diálogo e da consciência.
No Candomblé, Oxalá se expressa por meio de duas manifestações complementares: Oxalufã, que representa a experiência, a calma e a ancestralidade, e Oxaguiã, ligado à juventude, à iniciativa e ao espírito inovador. Tradicionalmente, sua cor é o branco, que remete à pureza e à paz, e suas oferendas costumam incluir alimentos claros, como a canjica branca.

Oxumarê
Oxumarê é a divindade ligada ao movimento constante da vida, à renovação e à permanência dos ciclos naturais. Simbolizado tanto pelo arco-íris quanto pela serpente, representa a transformação contínua, a prosperidade e o equilíbrio entre os planos material e espiritual.
Seu arquétipo possui natureza dual: em algumas narrativas, manifesta-se como o arco-íris que conecta o céu e a terra; em outras, surge como a serpente que sustenta e envolve o mundo, garantindo sua estabilidade. Associado à fluidez e à harmonia entre forças opostas, Oxumarê costuma ser representado pelas cores amarelo e azul, recebendo oferendas como batata-doce e mel.

Orunmilá
Orunmilá é reconhecido como o orixá da sabedoria e da revelação dos destinos, sendo o detentor do conhecimento do Ifá, o tradicional oráculo de origem africana. É por meio dele que se compreendem os caminhos do passado, do presente e as possibilidades do futuro, orientando os fiéis a agir com discernimento e consciência diante dos desafios da vida.
Sua força está associada ao aconselhamento espiritual e à busca pelo entendimento profundo da existência. Diferente de outras divindades, Orunmilá não interfere diretamente nos acontecimentos, mas oferece orientação para que cada pessoa faça suas próprias escolhas. As cores que o representam costumam ser o verde e o amarelo, e entre suas oferendas estão frutas e o azeite de dendê.
Bará/Eleguá (Exu ou Èsù)
Bará, também conhecido como Eleguá ou Èsù, é uma das divindades centrais das religiões de matriz afro-brasileiras e associada à dinâmica do movimento, da comunicação e das transformações. Sua atuação simboliza a ligação entre o plano material e o espiritual, garantindo o fluxo e o equilíbrio entre os dois planos.
Nas tradições do Candomblé, Èsù é cultuado como orixá, seguindo rituais de origem africana, com fundamentos e oferendas próprias. Nas práticas da Umbanda e da Jurema, Exú manifesta-se como entidade espiritual, exercendo a função de guardião, protetor dos caminhos e auxiliando na limpeza, harmonização espiritual e quebra de magia.

Zé Pelintra
Zé Pelintra é uma entidade espiritual amplamente conhecida por sua atuação ligada à malandragem, à astúcia e à proteção dos que vivem às margens da sociedade. Sua figura simboliza inteligência prática, jogo de cintura e senso de justiça, atuando como conselheiro e defensor daqueles que enfrentam dificuldades no cotidiano urbano.
Com trânsito entre diferentes tradições religiosas, Zé Pelintra é especialmente cultuado na Umbanda, onde se manifesta como entidade da linha dos malandros, orientando caminhos, abrindo oportunidades e auxiliando na resolução de conflitos. No Candomblé, é compreendido dentro do universo dos ancestrais e das entidades ligadas à rua e ao movimento, enquanto na Jurema Sagrada (Catimbó) aparece como mestre, associado à sabedoria popular, à cura espiritual e ao conhecimento transmitido pela tradição oral. Essa presença plural reflete sua capacidade de adaptação e diálogo entre diferentes expressões da religiosidade afro-brasileira.
Curiosidade: ao entrar em uma loja de artigos religiosos de matriz afro-brasileira, certame você será recepcionado por um Zé Pelintra gigante. Aos adeptos é comum, ao adentrar, saudar Seu Zé com um “Saravá”, que significa “salve” ou “saúde” e utilizado para desejar boas energias e caminhos.

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Fonte : CNN