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O aumento das temperaturas no Brasil não afeta apenas o clima, mas também o desenvolvimento de milhões de crianças.

Um estudo inédito da Fiocruz, publicado no periódico The Lancet, aponta que cada elevação de 1°C na temperatura ambiente acima de 26°C está associada a uma maior chance de desnutrição infantil. A pesquisa analisou dados de mais de 6 milhões de crianças entre 1 e 5 anos, coletados entre 2007 e 2017 em todo o país.

Os achados, conduzidos pelo Cidacs (Centro de Integração de Dados e Conhecimento em Saúde), da Fiocruz Bahia, revelam que o calor excessivo esteve ligado a 10% mais chance de baixo peso, 8% para desnutrição aguda e 8% para desnutrição crônica.

Para a pesquisadora Priscila Ribas, uma das autoras do estudo, esses resultados mudam a percepção sobre o calor, que passa de um simples desconforto para um determinante da saúde infantil.

“Temperaturas elevadas desencadeiam um efeito cascata: reduz o apetite, altera o metabolismo infantil, aumenta a chance de episódios agudos de diarreia; condição que prejudica diretamente a absorção de micronutrientes, afetando o estado nutricional das crianças”, disse Priscila no site da Fiocruz.

Impactos no peso e crescimento

A pesquisa detalha que os efeitos do calor não são imediatos e se manifestam em ritmos distintos. Para baixo peso e desnutrição aguda, os impactos surgem rapidamente, entre zero e três semanas após a exposição.

Já a baixa estatura, um indicador de desnutrição crônica, mostrou um padrão diferente, com o aumento da chance aparecendo semanas depois e relacionado à exposição contínua ao calor ao longo do tempo.

“Embora alguns impactos agudos possam ser temporários, a exposição prolongada a temperaturas elevadas pode ter efeitos permanentes no desenvolvimento físico e cognitivo da criança”, diz Priscila Ribas.

O estudo também identificou diferenças entre grupos. Meninas apresentaram maior proporção de baixo peso e desnutrição aguda, enquanto o atraso no crescimento foi mais frequente entre meninos.

O cenário mais crítico foi observado entre crianças indígenas, com 6,72% abaixo do peso e 26,65% com atraso no crescimento. Entre as crianças pretas, 5,86% tinham desnutrição aguda e 9,32% apresentavam atraso no crescimento.

Desigualdades socioeconômicas e climáticas

A pesquisa da Fiocruz destaca que o calor não afeta a todos da mesma forma, interagindo intensamente com as desigualdades socioeconômicas.

“O estudo oferece uma nova perspectiva sobre como as mudanças climáticas afetam crianças em países de renda média com alta desigualdade. A importância reside em identificar que o calor não é um risco universal e neutro; ele atua como um multiplicador de vulnerabilidades”, afirma Priscila.

Os riscos foram maiores em regiões como Norte e Nordeste, em áreas rurais e entre crianças filhas de mães indígenas e pretas, evidenciando uma profunda vulnerabilidade socioambiental.

A pesquisadora expressa preocupação com as mudanças climáticas futuras, pois períodos prolongados de calor podem reduzir a produtividade agrícola, encarecer alimentos e diminuir a diversidade alimentar.

“Isso gera um duplo impacto nas famílias mais pobres: a redução da disponibilidade de alimentos e a perda de renda, em particular, para pequenos produtores, forçando uma transição para dietas de menor qualidade nutricional“, diz Priscila.

Avanços na saúde infantil

Para a saúde pública, os resultados reforçam a necessidade de um novo olhar, já que temperaturas elevadas também aumentam a suscetibilidade a doenças infecciosas e parasitárias, fragilizando o sistema imunológico e comprometendo a absorção de nutrientes. Os autores sugerem o fortalecimento do monitoramento nutricional, especialmente durante e após períodos de calor intenso.

Priscila Ribas aponta para a necessidade de políticas multissetoriais e direcionadas. “Reforçar programas como o Bolsa Família em regiões mais afetadas pelo calor, garantindo que a insegurança alimentar causada pelo clima seja mitigada.” Ela também destaca a importância de políticas de adaptação climática com foco em equidade, priorizando intervenções nas regiões mais vulneráveis.

“Ao tratar o calor como um risco estrutural, o Brasil pode liderar o caminho para políticas públicas que protejam o desenvolvimento infantil em um planeta em aquecimento, garantindo que o clima não altere negativamente o futuro nutricional das nossas crianças”, diz a especialista da Fiocruz.

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Fonte : CNN

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