Mesmo sendo um setor que movimenta mais de R$ 45 bilhões por ano no Brasil, o mercado de sementes — especialmente o de soja — deve enfrentar um 2026 ainda desafiador. Projeções da consultoria Celeris indicam excesso de oferta, guerra de preços e compressão de margens, cenário agravado por estoques elevados e menor apetite do produtor diante das cotações da commodity.
Na avaliação de Marino Colpo, CEO da Boa Safra, maior empresa de sementes do país, o setor vive um momento de ajuste após anos de forte expansão. “Nos anos de soja valorizada, houve muito investimento. Hoje temos excesso de oferta e algumas empresas enfrentando dificuldades, inclusive com recuperações judiciais”, afirmou em entrevista ao CNN Money.
A empresa, que teve o raiting revisado para baixo pelo Itaú BBA no mês passado, fez cortes de direção e operação em 2025 para tentar driblar o aperto das sementeiras.
De acordo com o último balanço financeiro divulgado em novembro do ano passado – e referente ao terceiro trimestre de 2025 -, a empresa teve lucro líquido de R$ 67,9 milhões, um crescimento de 26% em relação ao mesmo período de 2024. No período, a receita líquida totalizou R$ 1,13 bilhão, alta de 56% em comparação aos R$ 727,4 milhões registrados no terceiro trimestre de 2024.
Os resultados dão otimismo, mesmo no cenário adverso, segundo Colpo. Mas para 2026, a estratégia será conter os investimentos. Segundo o executivo, os cortes já foram feitos e a expectativa é que o cenário de altos estoques de sementes melhorem no segundo semestre de 2026.
Ciclo de baixa perto do fim
Segundo ele, nos Estados Unidos, a crise seria ainda mais severa, com redução de área plantada de soja, enquanto o Brasil segue mais competitivo. “Os estoques, que estavam muito elevados, já começam a cair. Não será uma virada rápida, mas os sinais indicam que o ciclo de baixa está perto do fim”, avaliou.
Com estoques elevados, o mercado de sementes entrou em uma fase de concorrência intensa. Para Copol, a diferença está na capacidade financeira e na credibilidade das empresas.
“O produtor quer comprar semente de uma companhia sólida. Mesmo com margens líquidas menores, na faixa de 7% a 8%, temos crescido mais rápido porque o cliente confia no nosso balanço”, disse.
Para a empresa, a virada do cenário está, agora, na revisão de processos e na integração das unidades. Após triplicar de tamanho em quatro anos, a empresa passou de três para 16 fábricas, nem todas operando com o mesmo nível de eficiência.
“Crescer rápido traz desafios. Estamos ajustando processos e enxugando a companhia para sair desse ciclo mais eficientes e ainda mais relevantes no mercado”, enfatizou o executivo.
Copo meio cheio: crescimento em meio à crise
Apesar do ambiente adverso, a Boa Safra tem conseguido crescer. Em 2025, a companhia avançou cerca de 30% em volume e ganhou participação de mercado. Segundo Colpo, a solidez financeira da empresa tem sido decisiva para esse desempenho.
“A Boa Safra é vista como um bastião de segurança no setor. Temos um balanço muito sólido, caixa líquido e nenhuma dívida. Isso faz com que muitos clientes migrem para a empresa, mesmo num cenário de margens apertadas”, disse.
A estratégia para 2026 combina controle rigoroso de custos com continuidade da expansão comercial, ainda que sem novos investimentos relevantes em capacidade produtiva. “Não é um cenário fácil de preço, mas seguimos ganhando market share”, destacou o executivo.
Expansão sem capex e ajuste produtivo
Embora tenha interrompido grandes investimentos, a companhia segue ajustando sua estrutura para crescer. No fim de 2025, a Boa Safra arrendou duas novas unidades no Paraná, que já estão entrando em operação.
“Mesmo sem capex relevante, conseguimos crescer porque há muitas indústrias parando no setor. Aproveitamos oportunidades e ajustamos a produção”, explicou Copol. Segundo ele, o movimento não altera o quadro geral de margens comprimidas, mas posiciona a empresa para sair mais forte do atual ciclo de baixa.
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Fonte : CNN