O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta uma das decisões mais importantes de seu segundo mandato com a possibilidade de um ataque contra o Irã após reunir o maior esforço militar no Oriente Médio em 22 anos.
Caso decida prosseguir com uma ofensiva, suas opções agora variam de ataques mais direcionados a operações prolongadas que poderiam durar semanas, segundo fontes familiarizadas com o assunto. Algumas delas incluem planos para eliminar os líderes de Teerã.
Muitas das opções seriam em uma escala muito maior do que o bombardeio de várias horas que teve como alvo as instalações nucleares iranianas em junho do ano passado, segundo fontes.
As pessoas consultadas pela CNN também afirmaram que as Forças Armadas dos EUA poderiam estar prontas já neste fim de semana para atacar o Irã, mas autoridades americanas e diplomatas regionais com conhecimento das negociações diplomáticas com Teerã não esperam que os ataques ocorram tão cedo.
O enviado para o Oriente Médio e genro de Trump, Jared Kushner — que ajudou a liderar a equipe de negociação dos EUA — está entre os diversos assessores de Trump que esperam chegar a um acordo nuclear com o Irã, segundo uma fonte.
As tropas americanas ainda não receberam uma lista de alvos para possíveis ataques ao Irã, um sinal de que Trump ainda não “deu a ordem” para qualquer operação militar específica, de acordo com uma fonte familiarizada com o planejamento.
Autoridades da Casa Branca afirmam que ele continua preferindo uma solução diplomática. Mas muitos dizem que veem cada vez menos chances de um acordo que satisfaça todas as exigências do presidente.
Até o momento, Trump não expôs publicamente tudo o que espera alcançar com o possível início de uma nova guerra.
Tampouco fez tentativas sérias de obter o apoio do público americano ou dos integrantes do Congresso, que estiveram fora de Washington nesta semana enquanto ele avaliava suas opções.
Além disso, os especialistas continuam céticos de que o Irã faria as concessões que Trump exigiu publicamente, como abandonar completamente o enriquecimento de urânio.
Trump fez advertências ao Irã para que aceite um acordo — cujos termos permanecem incertos. Na manhã de quinta-feira, ele disse que saberia “provavelmente nos próximos 10 dias” se um acordo seria possível. Mais tarde, a bordo do Força Aérea Um, o avião da Presidência, estendeu o prazo para 15 dias.
“Eles não podem continuar ameaçando a estabilidade de toda a região e precisam fazer um acordo, ou se isso não acontecer (…) coisas ruins acontecerão”, disse Trump na reunião inaugural de seu Conselho de Paz na quinta-feira.
Questionado posteriormente sobre quais “coisas ruins” poderiam ocorrer, Trump se recusou a dar detalhes.
“Não vou falar sobre isso com vocês”, disse ele.
Trump avalia opções sobre o Irã
Trump, que prometeu durante a campanha evitar se envolver em guerras, tem se mostrado abertamente cauteloso em aprovar uma operação que não tenha um resultado decisivo e que possa colocar americanos em perigo.
Ele recebeu inúmeros relatórios sobre as possíveis opções. Elas variam em escala, desde ataques a instalações nucleares ou de mísseis até tentativas de eliminar líderes governamentais e derrubar o regime.
Todas as opções abordariam, ao menos em parte, a ameaça de ataques militares do Irã contra Israel ou bases militares americanas na região, bem como a possibilidade de grupos aliados do Irã obterem uma bomba nuclear ou suja.
Trump insinuou desejo de mudança de regime no Irã, mas há pouca clareza dentro do governo americano sobre o que poderia acontecer se a liderança em Teerã caísse.
O secretário de Estado Marco Rubio afirmou, em depoimento ao Congresso no mês passado, que ninguém sabe ao certo quem poderia substituir o líder supremo Ali Khamenei caso ele fosse deposto.
A questão que permanece, no entanto, é se uma possível operação ordenada por Trump teria como foco eliminar a liderança iraniana, atingir suas instalações de enriquecimento de urânio ou destruir seu programa de mísseis balísticos.
“O presidente Trump deixou claro que o regime iraniano deve fazer um acordo, caso contrário, ‘será muito traumático’ para o regime”, disse a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, em um comunicado, acrescentando que Trump demonstrou que “ele fala sério” com ataques anteriores.
Autoridades ponderam motivos para ataque ao Irã
Nos bastidores, até mesmo alguns dos assessores do presidente não têm clareza sobre como transmitir ao público por que seria necessário que os Estados Unidos utilizassem uma possível intervenção militar no Irã.
Uma fonte afirmou que funcionários do governo estavam sendo intencionalmente vagos sobre as motivações em público.
Trump afirmou repetidamente que os ataques dos EUA em junho passado “obliteraram completa e totalmente” as instalações de enriquecimento nuclear do Irã.
Porém, o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, disse na quinta-feira que “a maior parte do material que o Irã havia acumulado até junho do ano passado, apesar dos bombardeios e ataques [dos EUA], ainda está lá, em grandes quantidades, onde estava na época dos ataques”.
“Parte dele pode ser menos acessível, mas o material ainda está lá. Do ponto de vista da não proliferação, o material permanece. É por isso que há tanto interesse — eu diria urgência — em chegar a um acordo que impeça novas ações militares na região”, acrescentou Grossi.
Na quarta-feira, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, despistou quanto aos motivos pelos quais um ataque ao Irã poderia ser necessário.
“Há muitas razões e argumentos que poderiam ser apresentados para um ataque contra o Irã”, pontuou Leavitt, sem detalhar quais seriam essas razões ou argumentos.
Ela também não quis dizer se Trump planejava expor seus objetivos ou justificativas para uma missão ao Irã durante seu discurso sobre o Estado da União na próxima semana, tradicionalmente um dos discursos com maior audiência televisiva anual para o presidente.

Dois assessores de Trump compararam o momento atual tanto à decisão de atacar o Irã no ano passado quanto à captura do líder venezuelano Nicolás Maduro em janeiro, observando que, em ambos os casos, Trump não decidiu firmemente sobre um curso de ação até pouco antes de dar a ordem, apesar de meses de planejamento.
Em ambos os casos, a CNN noticiou que o republicano ficou indeciso por semanas sobre o uso da força militar. Nesta semana, ele argumentou em particular a favor e contra a ação militar e consultou assessores e aliados sobre o melhor curso de ação.
Como o presidente dos EUA ainda não decidiu qual será seu curso de ação, todos os recursos militares necessários para conduzir uma série de operações estão posicionados, ou estarão nos próximos dias, segundo fontes.
Isso inclui o USS Gerald R. Ford, o porta-aviões mais avançado do mundo, que deve navegar para o Mediterrâneo Oriental no início da próxima semana.
Pelo menos parte do reforço militar visa ajudar a defender as tropas americanas caso o Irã lance um ataque preventivo ou retalie disparando drones ou mísseis contra bases americanas.
Trump recebe “conselhos” sobre ação sobre Irã
Donald Trump também recebeu diferentes conselhos sobre qual decisão tomar em relação ao Irã.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que fez uma visita à Casa Branca na semana passada, argumentou que o Irã nunca esteve tão fraco e que este é o momento certo para obter concessões de Teerã ou tentar eliminar seu programa de mísseis.
Marco Rubio, chefe da diplomacia americana, planeja visitar Israel no final da próxima semana para atualizar Netanyahu sobre as negociações, disse um funcionário do Departamento de Estado à CNN.
Outros aliados importantes de Trump, incluindo o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, têm defendido a intervenção dos EUA tanto publicamente quanto em privado.
De toda forma, não há indícios de que Trump esteja se preparando para pedir ao Congresso a aprovação de qualquer operação contra o Irã.
Dois parlamentares — o deputado democrata Ro Khanna, da Califórnia, e o deputado republicano Thomas Massie, do Kentucky — disseram na quinta-feira que planejam tentar forçar uma votação na próxima semana sobre uma resolução que exigiria autorização do Congresso antes que Trump ordene o uso da força militar.
“Não é uma decisão final de Donald Trump. A Constituição é muito clara sobre isso: ele não pode envolver as forças americanas em hostilidades sem autorização do Congresso”, pontuou outro parlamentar, o deputado democrata Jake Auchincloss, de Massachusetts, à CNN.
“Essa autorização para o uso da força militar não foi concedida pelo Congresso. A diplomacia coercitiva contra o Irã é apropriada, contra o financiamento de grupos terroristas por procuração, contra o desenvolvimento de mísseis balísticos e, claro, contra o programa nuclear”, acrescentou.
“O que não é apropriado é ele tomar a decisão unilateral de atacar o Irã e potencialmente envolver os Estados Unidos em outra guerra sem fim, algo que o público americano não deseja”, adicionou.
*Kylie Atwood, Kasie Hunt e Jennifer Hansler contribuíram para esta reportagem
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Fonte : CNN