O Departamento de Justiça dos Estados Unidos não ocultou informações que identificassem muitas das vítimas de Jeffrey Epstein, magnata condenado por abuso sexual. Além disso, a pasta censurou dados de indivíduos que podem ter ajudado o criminoso.
Isso gerou protestos de vítimas de Epstein, que acusam o Departamento de Justiça de conduzir mal a divulgação de mais de 3 milhões de documentos na semana passada.
Uma análise dos documentos do caso Epstein feita pela CNN identificou vários exemplos de pessoas que possivelmente ajudaram a conectá-lo com mulheres, mas que tiveram identidades censuradas. Isso inclui cúmplices em uma minuta de acusação contra Epstein da década de 2000.
Em um e-mail de 2015 para Epstein, uma pessoa com a identidade ocultada escreveu: “E esta aqui é (eu acho) totalmente sua garota”.
Em outro e-mail de 2014 presente nos arquivos, uma pessoa escreveu para Epstein: “Obrigado por uma noite divertida… Sua garotinha foi um pouco travessa”. Mas o nome da pessoa que escreveu essa mensagem está oculto.
O Departamento de Justiça divulgou na sexta-feira (3) o que afirmou ser o último lote dos arquivos relacionados a Jeffrey Epstein que era obrigado a divulgar por lei, mas os documentos provocaram indignação generalizada devido à contínua falta de transparência e justiça para as inúmeras vítimas do magnata.
As vítimas de Epstein estão revoltadas com as redações mal feitas, incluindo declarações que foram censuradas e que as vítimas prestaram ao FBI.
Um funcionário do Departamento de Justiça afirmou em comunicado que todos os nomes totalmente omitidos são de vítimas.
“Em muitos casos, como já foi amplamente divulgado publicamente, aqueles que eram originalmente vítimas se tornaram participantes e cúmplices”, disse o funcionário.
“Não omitimos nenhum nome de homem, apenas de vítimas do sexo feminino”, comentou.
Ele pontuou, apenas, que nomes do FBI, a agência federal de investigações dos EUA, e de outras autoridades policiais também foram omitidos.
Divulgação de informações sobre vítimas
Enquanto isso, o Departamento de Justiça americano tem se esforçado para corrigir a divulgação indevida de informações sobre as vítimas.
O governo Trump conseguiu evitar a realização de uma audiência em um tribunal federal na quarta-feira (4) com um acordo na noite de terça-feira (3) com os advogados de algumas das vítimas de Epstein.
Essas pessoas acusaram o Departamento de Justiça de divulgar informações sobre quase 100 vítimas nos arquivos.
O vice-procurador-geral Todd Blanche reconheceu na segunda-feira (2) que “erros foram cometidos”, mas argumentou que o Departamento de Justiça agiu rapidamente para corrigir qualquer informação divulgada involuntariamente.
Porém, para as vítimas de Epstein, a resposta do Departamento de Justiça é inaceitável.
“Ter partes da minha vida expostas dessa forma foi realmente perturbador”, disse Dani Bensky, que contou à CNN em uma mesa redonda com outras vítimas que seu nome, endereço e número de telefone estavam inicialmente nos arquivos.
“E eu sei que agora sou uma figura pública, sim, isso me machuca — mas machuca ainda mais nossas irmãs sobreviventes que ainda são ‘Jane Does’”, acrescentou ela.
Vítimas criticam censuras nos arquivos
Os documentos divulgados na sexta-feira incluem os nomes de inúmeros homens de alto perfil que interagiram com Epstein — que morreu por suicídio em 2019 enquanto aguardava julgamento por acusações federais de tráfico sexual.
Essa lista que inclui Donald Trump, o ex-presidente Bill Clinton, Bill Gates, Elon Musk e o ex-príncipe Andrew, entre muitos outros. Todos negaram qualquer irregularidade relacionada a Epstein e nunca foram acusados de nenhum crime pelas autoridades.
Ser citado nos Arquivos Epstein não implica, necessariamente, que a pessoa tinha relação com Jeffrey Epstein ou o cometimento de algum crime.

Mas as vítimas de Epstein dizem que os arquivos parecem proteger aqueles que especificamente facilitaram os abusos do criminoso sexual condenado, bem como outros homens que podem ter sido citados nas declarações das vítimas que foram completamente redigidas.
Uma das vítimas apontou para outro formulário do FBI contido nos arquivos, onde páginas inteiras estavam censuradas.
“Basicamente, ele descreve tudo o que essa pessoa vivenciou e compartilhou com o FBI. Tinha sete páginas e quatro delas eram assim”, disse Jess Michaels à CNN em uma entrevista.
“O que aconteceu com ela e quem fez isso também está descrito. Então, você não pode dizer na mesma frase: ‘Não havia homens, não havia lista’ e censurar uma parte tão grande da declaração. Porque se não há homens, não há motivo para censurar. Não há outro motivo”, adicionou.
Um dos documentos mais aguardados nos arquivos era a controversa minuta de acusação do Distrito Sul da Flórida, da década de 2000, que acusaria Epstein, juntamente com outras três pessoas, descritas como tendo sido “empregadas” por Epstein.
Os indivíduos são descritos como tendo conspirado para “persuadir, induzir e aliciar indivíduos menores de 18 anos a se envolverem em prostituição”. Mas seus nomes estão censurados.
Os arquivos também incluem inúmeras trocas de e-mails com Epstein que parecem descrever o recrutamento de mulheres.
Um indivíduo, cujo nome foi censurado, de uma agência de modelos parisiense escreveu em um e-mail de 2013 para Epstein: “Nova brasileira acabou de chegar, sexy e bonita, 19 anos”.
O e-mail aparece nos arquivos duas vezes: em uma versão, o nome da agência de modelos foi omitido, mas em outra, o nome da agência não foi omitido da assinatura do remetente.
Em um e-mail de 2018 para Epstein, outro indivíduo, cujo nome foi omitido, escreveu: “Encontrei pelo menos 3 jovens pobres muito boas”.
“Conheçam esta”, continuou a pessoa. “Não é a rainha da beleza, mas nós dois gostamos muito dela”, adicionou.
Em uma carta ao Congresso na sexta-feira, o Departamento de Justiça detalhou como fez as censuras, afirmando que cumpriu a lei ao ocultar informações sobre as vítimas, materiais de abuso sexual infantil e qualquer coisa que pudesse prejudicar uma investigação em andamento.
O Departamento de Justiça também reteve 200 mil páginas “cobertas por vários privilégios, incluindo o privilégio do processo deliberativo, a doutrina do produto do trabalho e o privilégio advogado-cliente”, de acordo com a carta.
Em sua coletiva de imprensa na sexta-feira passada, ao anunciar a divulgação dos arquivos, Blanche disse que eles não continham informações sobre evidências que levariam à acusação de quaisquer homens que abusaram de mulheres.
“Como eu disse antes, existe uma suposição implícita de que há, de alguma forma, um conjunto oculto de informações sobre homens que conhecemos e que estamos acobertando ou optando por não processar. Não é esse o caso. Não sei se existem homens por aí que abusam dessas mulheres”, pontuou.
Corrida para apagar informações dos arquivos
Nas horas seguintes à divulgação dos documentos pelo Departamento de Justiça na sexta-feira, a CNN noticiou que várias vítimas, incluindo vítimas anônimas identificadas como “Jane Doe”, estavam vendo seus nomes e informações em todos os documentos publicados.
Advogados de algumas delas enviaram uma carta afirmando que a falha do Departamento de Justiça em ocultar adequadamente as informações havia desencadeado uma “emergência iminente”, solicitando a dois juízes federais em Nova York uma “intervenção judicial imediata”.
A carta de domingo incluía depoimentos de várias vítimas anônimas identificadas como “Jane Doe” que descreveram ter recebido ameaças de morte e assédio da mídia desde a publicação dos arquivos.
“Quando o Departamento de Justiça acreditou que estava pronto para publicar, bastava digitar o nome de cada vítima em sua própria ferramenta de busca. Qualquer resultado obtido deveria ter sido ocultado antes da publicação. Se o Departamento de Justiça tivesse feito isso, o dano teria sido evitado”, escreveram os advogados.
Em resposta enviada aos juízes, o Departamento de Justiça afirmou ter removido todos os documentos identificados pelas vítimas ou seus advogados, e um porta-voz do Departamento de Justiça disse que 500 revisores estavam analisando os arquivos “exatamente por esse motivo”.
“Erros foram cometidos por advogados que trabalharam arduamente nos últimos 60 dias. Mas pensem nisso: estamos falando de uma pilha de papéis que vai do chão até a altura de duas Torres Eiffel”, disse Blanche na segunda-feira à Fox News.
“Assim que uma vítima ou seu advogado nos contatou desde sexta-feira, resolvemos o problema imediatamente e removemos o documento”, adicionou.
Vítimas de Epstein afirmam que a divulgação dos nomes, mesmo que corrigidos, é mais um exemplo de como o Departamento de Justiça falhou com elas.
“Publicar imagens das vítimas enquanto se protege os predadores é simplesmente uma completa falha da justiça”, disse Sharlene Rochard, vítima de Epstein, à CNN.
“Há um profundo sentimento de traição quando o sistema que deveria nos proteger se torna o causador de todo esse dano”, concluiu.
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Fonte : CNN