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A família real da Noruega enfrentou escândalos em múltiplas frentes esta semana, com organizações de caridade tomando medidas para cortar ou rever os laços com a princesa herdeira devido ao seu contato passado com o falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein, enquanto outros questionam sua adequação ao papel de futura rainha.

A primeira controvérsia envolve o filho de 29 anos da princesa herdeira Mette-Marit, Marius Borg Høiby, que no início desta semana desabou em lágrimas durante o primeiro dia de depoimento, ao negar quatro acusações de estupro em um tribunal da capital Oslo.

Høiby não está na linha de sucessão, pois nasceu antes de sua mãe se casar com o príncipe herdeiro Haakon em 2001.

Haakon reafirmou o status de Høiby como plebeu em uma rara declaração antes do início do julgamento por estupro na terça-feira (3), dizendo que o enteado “não é integrante da Casa Real da Noruega e, portanto, é autônomo”.

Mas os esforços para cuidar da reputação da Coroa foram ofuscados quando uma segunda controvérsia eclodiu, desta vez envolvendo sua esposa e mãe de Høiby, a futura rainha do país.

Novos arquivos de Epstein divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos mostram extensa correspondência entre Mette-Marit e o falecido criminoso sexual – algo pelo qual a princesa já expressou arrependimento – anos depois de Epstein ter se declarado culpado de aliciar uma menor para fins sexuais.

Na sexta-feira (6), a Casa Real da Noruega afirmou que Mette-Marit “repudia veementemente os abusos e atos criminosos de Epstein” e lamenta “não ter compreendido cedo o suficiente que tipo de pessoa ele era”.

“Parte do conteúdo das mensagens entre Epstein e eu não representa a pessoa que quero ser. Também peço desculpas pela situação em que coloquei a Família Real, especialmente o Rei e a Rainha”, falou Mette-Marit em um comunicado.

Desafios em múltiplas frentes

Especialistas afirmam que a polêmica gerou um debate público aberto na Noruega sobre se Mette-Marit deveria se tornar rainha.

“A confiança na princesa herdeira caiu drasticamente”, afirmou Tove Taalesen, correspondente da realeza para o portal de notícias Nettavisen. “A maioria ainda apoia a instituição, mas esse apoio está mais fraco e a incerteza está aumentando.”

A controvérsia levanta questões incômodas sobre a posição de Mette-Marit dentro da família real, especialmente considerando a idade avançada do rei Harald V, que, aos 88 anos, é o monarca mais velho da Europa.

A saúde física de Harald se deteriorou nos últimos anos, obrigando Haakon a atuar como regente em algumas ocasiões.

Taalesen alertou que Mette-Marit ainda não enfrenta um fim imediato de suas funções como integrante ativo da família real, mas afirmou que uma opção seria ela se afastar dos deveres reais alegando motivos de saúde, deixando o príncipe herdeiro governar sozinho um dia.

Mette-Marit foi diagnosticada com fibrose pulmonar, uma doença pulmonar crônica e progressiva com prognóstico reservado, em 2018, e provavelmente precisará de um transplante de pulmão, segundo o palácio real.

Outros comentaristas da realeza concordam. Kjetil Alstadheim, editor de política do influente jornal norueguês Aftenposten, afirmou que muitos noruegueses estão decepcionados com as revelações e, como consequência, têm menos confiança na princesa.

“Eles questionam como será seu discernimento no futuro”, disse Alstadheim à CNN.

Ole-Jørgen Schulsrud-Hansen, comentarista da realeza para a emissora norueguesa TV2, acrescentou: “Precisamos esperar a poeira baixar para ver o quanto isso realmente afetou a monarquia.”

Jovens se identificavam com a princesa herdeira

Mette-Marit se tornou princesa herdeira em 2001, após se casar com Haakon na catedral de Oslo, diante de 800 convidados e uma audiência televisiva de milhões.

Na época, a franqueza de Mette-Marit sobre o que ela descreveu como uma “vida selvagem” na juventude foi bem recebida, principalmente entre as gerações mais jovens.

“Isso mobilizou as gerações mais jovens, que sentiram que esta era uma monarquia moderna e se identificaram com ela”, relatou Alstadheim. “Ela conseguiu construir confiança e ser respeitada.”

Em meio à recente polêmica, essa confiança e respeito parecem estar desaparecendo.

Esta semana, o maior centro de saúde sexual da Noruega, o “Sexo e Sociedade”, com sede em Oslo, anunciou que romperia relações com Mette-Marit, alegando que as últimas revelações eram incompatíveis com a filosofia do grupo.

“O importante para a fundação sempre foi a consideração por nossos pacientes, por todas as vítimas de abuso e por todos aqueles que se levantam para prevenir o abuso sexual”, afirmou o centro em um comunicado.

Três organizações culturais da Noruega – todas sob o patrocínio da princesa herdeira – também escreveram à Casa Real a respeito da antiga ligação de Mette-Marit com Epstein, afirmando que o contato entre os dois parece ser “sério e preocupante”.

“É importante para a nossa futura cooperação que a Casa Real forneça uma explicação adequada sobre o assunto”, escreveram o Centro Hamsun, o Festival Førde e o Centro Cultural Nynorsk, todos da Noruega, em uma carta vista pela CNN.

Uma intervenção política rara

As controversas trocas de e-mails – que demonstraram uma relação mais profunda entre Epstein e a princesa herdeira do que se sabia anteriormente – provocaram uma intervenção política rara . O primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, afirmou na segunda-feira (2) que Mette-Marit demonstrou falta de bom senso.

“Ela diz que demonstrou falta de bom senso. Concordo”, falou Støre a jornalistas.

Embora espelhem as próprias palavras de Mette-Marit, seus comentários refletem a significativa pressão pública que a família enfrenta, afirmam especialistas da realeza.

“Não encontrei nenhum exemplo anterior na história moderna da Noruega em que um primeiro-ministro tenha criticado publicamente um membro da família real dessa forma”, afirmou Alstadheim, editor de política.

Em e-mails enviados de “S.A.R. Kronprinsessen” – que se traduz do norueguês como “Sua Alteza Real a Princesa Herdeira” – para Epstein em 2012, Mette-Marit chama o falecido criminoso sexual de “querido” e “de bom coração”.

Em outra troca de e-mails de 2012, ela chama Epstein de “muito charmoso”, acrescentando: “Seria inapropriado uma mãe sugerir duas mulheres nuas carregando uma prancha de surfe como papel de parede para o meu filho de 15 anos?”.

Em outra conversa, também de 2012, Epstein diz a Mette-Marit que está “à procura de uma esposa”, antes de acrescentar: “Paris está se mostrando interessante, mas prefiro as escandinavas”.

Em resposta, a princesa-herdeira diz que Paris é “boa para adultério” e que “as escandinavas são melhores candidatas a esposa”.

Mette-Marit admitiu ter demonstrado “falta de bom senso” em relação ao seu relacionamento com Epstein, mas afirmou que ele era “o único responsável por seus atos”.

“Devo assumir a responsabilidade por não ter investigado o passado de Epstein mais a fundo e por não ter percebido antes que tipo de pessoa ele era. Lamento profundamente isso e é uma responsabilidade que devo arcar”, disse ela à CNN em um comunicado.

Outras figuras importantes da Noruega também são investigadas

À medida que a pressão sobre Mette-Marit aumenta, o ex-primeiro-ministro norueguês Thorbjørn Jagland está sendo investigado “sob suspeita de corrupção agravada” relacionada aos seus laços com Epstein, declararam autoridades policiais norueguesas em um comunicado na quinta-feira (5).

A Noruega está investigando “se presentes, viagens e empréstimos foram recebidos em conexão com seu cargo”, segundo o Økokrim, o serviço nacional de promotoria e polícia do país.

Documentos do Departamento de Justiça mostram que Jagland trocou e-mails amigáveis ​​com Epstein e planejou férias em sua ilha.

O advogado de Jagland disse à CNN que o ex-líder colaborará integralmente com a investigação, acrescentando que “com base no que descobrimos até agora, continuamos confiantes no resultado”.

Outras figuras europeias também estão incluídas no último lote de documentos, incluindo integrantes da realeza, embora serem citados nos arquivos não indiquem qualquer irregularidade.

Em um e-mail enviado a Epstein em 2010, uma pessoa cujo nome foi omitido incluiu uma foto que parecia mostrar a princesa Sofia da Suécia, então Sofia Kristina Hellqvist, em uma viagem à África.

O e-mail dizia: “Aqui está uma foto da nossa Sofia – você se lembra – ou seja, a futura princesa Sofia… toda a imprensa sueca está procurando por ela… enquanto ela está na África!!”. O contexto da troca de e-mails é desconhecido.

O nome “Sophia Hellqvist” também consta ao lado do de Epstein em uma lista de convidados de 2012 – enviada por e-mail ao falecido criminoso sexual – para o que parece ser uma apresentação de Os Miseráveis.

A princesa Sofia se encontrou com Epstein em diversas ocasiões há cerca de 20 anos, antes de se tornar membro da família real, informou a corte real sueca à CNN na sexta-feira (6).

Mas eles negaram que a princesa tenha participado de tal evento em 2012.

“Estamos cientes de que o nome da princesa (grafado incorretamente) teria sido encontrado em um documento de uma estreia em 2012.”

“No entanto, a princesa não sabe como seu nome foi parar nessa lista”, disseram, acrescentando que ela estava na Suécia na época e não encontrava Epstein há “vários anos”.

Outros integrantes da realeza podem ter relação com Jeffrey epstein

Enquanto isso, em 2012, o então príncipe herdeiro da Dinamarca, agora rei Frederik X, foi listado em um e-mail enviado a Epstein como um “convidado confirmado” para um jantar.

Não está claro se Epstein ou o príncipe herdeiro compareceram ao evento. A CNN entrou em contato com a família real dinamarquesa para comentar o assunto.

Como a CNN já noticiou, o ex-príncipe Andrew, do Reino Unido, também é mencionado diversas vezes nos arquivos, assim como sua ex-esposa, Sarah Ferguson, que já expressou arrependimento por sua associação com Epstein.

De volta à Noruega, e com o julgamento por estupro de Høiby previsto para durar várias semanas, Taalesen acredita que as duas controvérsias reais em curso estão se “reforçando mutuamente”.

A cobertura diária do tribunal manterá a família real no centro das atenções públicas, enquanto a pressão sobre Mette-Marit aumenta, afirma ela.

Mas, assim como ocorreu no Reino Unido, são os e-mails de Epstein que representam o desafio mais sério ao nome da família em décadas – um desafio que, segundo ela, a família real não pode se dar ao luxo de ignorar.

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Fonte : CNN

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