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Após meses de escalada contínua de tensões políticas e militares, a captura de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro de 2025, marcou um ponto de inflexão relevante no cenário venezuelano.

A operação, planejada e executada pelos Estados Unidos, resultou na transferência de Maduro para território norte-americano, onde deverá enfrentar julgamento e prisão, em um caso comparável ao caso de Manuel Noriega, no final da década de 1980.

Contudo, a remoção de Maduro não significou o colapso imediato do chavismo. As outras figuras importantes do regime permaneceram intactas.

Em 5 de janeiro, Delcy Rodríguez assumiu a presidência temporária do país, preservando a continuidade formal do regime ao ser empossada por seu irmão, Jorge Rodríguez, que também foi ratificado como presidente da Assembleia Nacional.

Vladimir Padrino Lopéz segue comandando as Forças Armadas Bolivarianas da Venezuela. Diosdado Cabello, secretário-geral do Partido Socialista Unificado da Venezuela, controla os serviços policiais, as unidades de inteligência e os coletivos armados, que são a “polícia política” do regime.

Isso demonstra que o regime chavista não foi desmantelado e seu núcleo coercitivo permaneceu intacto, à exceção do anel de segurança composto por conselheiros cubanos, que tinham influência política sobre Maduro e que perderam a vida durante as operações.

Mas isso tem uma explicação racional.

No passado, quando os EUA se envolveram em tentativas de mudança de regime, quando capturaram ou eliminaram todo a cúpula civil-militar que governava, o que houve em seguida foi o caos administrativo e a instalação de conflitos internos extremamente violentos. Iraque e Síria são alguns exemplos no século 21 que podemos citar.

Isso ocorre, pois, um regime de força deixa como exemplo de atuação e métodos de atuação a violência. Ao ser retirado, quem estava nos escalões mais baixos e busca chegar ao poder só conhece esses métodos, além da disputa entre diversos atores por quem tem a legitimidade de se assumir o vácuo de poder. Isso gera violência. Deixar o regime chavista atordoado, mas não nocauteado, é uma estratégia para pressionar que esse regime faça a transição de uma maneira controlada.

O processo mais relevante e mais prolongado inicia-se agora: a tentativa de conduzir uma transição política controlada, gradualmente mais alinhada aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, sem provocar um colapso institucional ou uma fragmentação armada do país.

Mas existe um problema na transição de poder na Venezuela: primeiro, há a expectativa dos EUA em manter certa estrutura de governabilidade; segundo, o medo de atores ligados ao regime quanto a uma transição que possa colocá-los na cadeia em alguns anos; e, por fim, o complexo processo sobre o que virá a acontecer.

Planejamento, execução e o problema do controle efetivo da “transição”

Uma descrição simples e objetiva ajuda a compreender a lógica daqueles que planejaram a mudança do regime: remover o líder central, preservar a funcionalidade
mínima do Estado e abrir espaço para uma transição negociada.

No entanto, planejamento não é execução.

O controle da ação, especialmente em ambientes de alta instabilidade, exige avaliação constante, ajustes sucessivos e realinhamentos estratégicos permanentes. Ou seja: o estado final pode não ser o planejado, mas o possível.

Nesse sentido, o sucesso da transição não dependerá exclusivamente de atores como Delcy Rodríguez. Esse processo estará condicionado, sobretudo, ao comportamento de outros grupos: os atores armados que têm o monopólio da violência (no caso venezuelano, não de maneira unificada); atores políticos locais e regionais (que falam diretamente com a população e podem estimular a transição ou a resistência); atores financeiros (empresários, operadores financeiros e redes econômicas) que sustentaram o regime ao longo de décadas.

O fator decisivo não será apenas sua disposição para negociar, mas o medo que esses grupos têm do que uma transição completa pode significar para sua sobrevivência política, econômica e pessoal.

Para alguns, a transição pode ser percebida apenas como uma janela de tempo para proteger ativos, converter recursos e abandonar o país.

Para outros, especialmente aqueles sem expectativa real de uma saída segura, a entrega do poder pode ser vista como inaceitável. Nesses casos, a preferência pode ser resistir até o limite, inclusive pela via armada, a aceitar um futuro que percebem como existencialmente ameaçador, pois projetam seu fim destituídos de seus bens e presos em alguma instalação de segurança máxima nos EUA pelo resto da vida.

Essa assimetria de expectativas torna a fase inicial da transição particularmente volátil. Propensa a golpes de estado, surgimento de dissidências e aumento da vigilância e da violência interna.

Nesse contexto, a estratégia adotada privilegia a transição negociada com setores do próprio regime, em detrimento de uma substituição imediata por lideranças civis da oposição.

A razão é simples: o poder efetivo, neste momento, ainda reside nos chavistas armados, e não na oposição civil organizada, ou ainda nos milhares de venezuelanos exilados, que almejam uma mudança de regime, e às vezes com anseios de vingança.

Em processos de transição instáveis, as negociações tendem a ocorrer com aqueles que têm capacidade de conter ou reacender a violência, e não com aqueles que detêm apenas legitimidade moral ou eleitoral. Por isso não vamos ver Maria Corina Machado (Nobel da Paz) ou seu parceiro político Edmundo Gonzaléz em equipes de transição.

Delcy Rodríguez reúne atributos para a fase inicial da transição.

Primeiro, ela assegura a continuidade administrativa do Estado. Ministérios, PDVSA, sistema financeiro, portos e cadeias logísticas permanecem funcionando; o Estado venezuelano não entra em colapso, o que tem o potencial de evitar uma crise humanitária dentro de uma crise política já complicada.

Segundo, ela é um canal político direto com os atores mais duros do regime, que comandam as Forças Armadas, a polícia, os colectivos, enfim, atores que detêm meios violentos de coerção. Sem convencer esses atores a trabalharem em prol da transição, as chances de sucesso são mínimas.

Terceiro, como presidente empossada (com ou sem legitimidade), ela tem o poder e a legalidade para assinar atos administrativos e ordens executivas que ratifiquem as negociações entre os interesses norte-americanos e os poderes locais. Colaborando para montar um cronograma de distensionamento, uma transição gradual e, talvez no futuro, a realização de novas eleições para o país. Momento no qual a María Corina Machado poderia voltar a aparecer diretamente no palco sem a intermediação de Edmundo González.

Por que os EUA não impõem, desde já, que Edmundo González e María Corina Machado sejam envolvidos? Porque, mesmo tendo reconhecimento e legitimidade popular, eles não conseguiram materializar a força legal que permita sua inserção e a consequente condução da estrutura de poder na Venezuela, pois não controlam as Forças Armadas, não controlam estados ou municípios, não controlam a logística estatal e, portanto, não podem garantir, no curto prazo, a contenção da violência.

Em fases iniciais de transição conflitiva, esses fatores pesam mais do que votos, apoio popular ou reconhecimento internacional. Não é uma questão de moral; é uma questão de poder, e eles não têm poder efetivo dentro da Venezuela, neste momento.

O plano ‘ideal’ para uma mudança de regime x o pragmatismo das mudanças possíveis de serem realizadas

Como seria uma mudança de regime idônea, sem que o processo implique os custos de uma guerra aberta para alcançar os objetivos políticos e sem que a medida ocasione a necessidade de reconstrução de um país e de seu tecido social, dilacerado por anos de conflito, como vemos no Iraque ou na Síria?

Podemos pensar em diferentes fases.

Na primeira fase, por meio de um complexo sistema de sinais na política externa do ator hegemônico, que abrange desde o envio de emissários (caso de Richard Grenell) até mobilizações militares inusuais, passando por diversos graus de pressão mediante atos de provocação e agressão sobre áreas marítimas e o espaço aéreo suprajacente, incluindo bloqueios e embargos comerciais que podem ou não culminar em ações militares, como ataques cinéticos ou mesmo a captura e eliminação de figuras-chave do regime.

Assim, uma potência deixa claro que possui capacidade e vontade de interferir diretamente naquele país e de estender essas operações caso novos rumos não sejam tomados.

Foi isso o que assistimos nos últimos meses, com uma escalada de tensões que culminou na operação que capturou Nicolas Maduro dentro de um forte militar na capital venezuelana, mostrando que os EUA têm capacidade e agiram, para dar um recado que as direções políticas do regime em Caracas devem mudar.

A segunda fase consiste no reconhecimento dos atores com os quais se irá dialogar, entre eles políticos, militares e empresários. As negociações ocorrem prioritariamente com aqueles que detêm o poder, que controlam as armas e, com elas, o monopólio da violência.

No entanto, outros atores, como aqueles que operam por trás dos bastidores e representam capitais associados às atividades comerciais e industriais, também são relevantes, pois geralmente são apoiadores do status quo e priorizam a preservação de interesses econômicos (destaca-se, entre esses atores, o caso do empresário Alberto Vollmer).

Atores financeiros e operadores políticos (como Henrique Capriles Radonski) negociarão feudos de poder com o ator principal, aquele que concentra o poder real, para evitar que uma transição baseada no caos e na violência se instaure. É nesse momento que Delcy Rodríguez transcende como ator central, coordenando-se com outras figuras relevantes na mesa de negociações, como Diosdado Cabello e Padrino López.

Nessa segunda fase, inicia-se também o realinhamento do poder às expectativas norte-americanas. Esse processo ocorre sob a ameaça de que uma nova intervenção armada possa acontecer ou de que haja o recrudescimento das sanções políticas e comerciais. Gradualmente entram em cena civis, tecnocratas e atores politicamente aceitáveis que não faziam parte da cúpula do regime, capazes de estruturar uma governança minimamente funcional.

É aqui que figuras como Edmundo González podem ser eventualmente inseridas no processo, como elementos de consulta a apoio ao atual governo venezuelano, pois seriam a consciência de um novo alinhamento geopolítico que estaria sendo negociado, ajudando a garantir tanto os interesses dos EUA, quanto de atores locais. Anistias políticas e transições de cargos chave na estrutura de comando e administrativa do país devem ser construídas de modo que viabilizem um caminho para uma transição de regime.

Finamente, se correr tudo como o planejado, em alguns meses ou anos teríamos eleições livres, com a presença de observadores internacionais e resultados aceitos tanto internamente como pela comunidade internacional. Seria a consolidação de uma transição e o retorno da democracia ao país.

Mas isso vai dar certo? Para onde vai a Venezuela?

Até aqui, traçamos um cenário em que a transição avançaria de forma controlada, o que parece difícil, dados os poderes dos grupos envolvidos internamente.

Após alguns meses de negociação com Delcy Rodríguez, poderiam ser convocadas eleições que permitam a participação de María Corina Machado e de representantes da oposição no exílio, como Leopoldo López, ou poderiam ser legalmente reconhecidos os resultados do pleito anterior em favor do candidato eleito, o embaixador Edmundo González.

Após o atual governo de transição, com a ampliação da participação da sociedade civil, novas eleições poderiam possibilitar o resgate da democracia no país caribenho.

Mas sabemos que planejamento não é execução. O controle da ação exige avaliação constante e realinhamentos à luz dos acontecimentos, da realidade e da avaliação pragmática das capacidades de cada ator de gerar efeitos desejados ou indesejados.

Atores insatisfeitos, como Diosdado Cabello e Padrino López, detentores de poder coercitivo real, podem entrar em choque ao buscar se afirmar como o braço forte de Delcy Rodríguez e de seu irmão, Jorge Rodríguez, a fim de garantir seu lugar como interlocutores junto aos EUA, condição que potencialmente os coloca em uma posição de menor risco de extradição.

Duas situações podem derivar desse realinhamento forçado: por um lado, a conjugação de interesses privados entre Cabello, López e os irmãos Rodríguez, baseada na preservação da liberdade por meio da passividade e da subordinação aos desígnios de Trump, em privado, enquanto, em público, exteriorizam um discurso moderado de resistência revolucionária; e, por outro, a eclosão de uma crise interna que gere a ruptura desses interesses privados e favoreça que um desses atores seja traído pelos demais e entregue aos EUA.

Os respectivos atores não teriam interesse em fazer uma transição completa. Teriam o interesse de se manterem no poder ou de construírem caminhos para uma anistia que os preservasse de ter um fim análogo ao de Nicolás Maduro. Uma estratégia plausível seria colaborar com a transição, mas de forma demorada, esperando que as eleições de meio de mandato nos EUA (novembro de 2026) trouxessem uma Câmara e e um Senado menos propensos a exigirem a troca do regime e que pudessem conter as ações executivas do presidente Trump.

Um cenário pouco plausível, pelo tempo, mas possível.

Ou, ainda de forma mais radical, podem buscar um golpe de Estado que os mantenha no poder, agravando ainda mais a situação de “dobrando a aposta” frente aos desejos dos EUA.

E se os interesses norte-americanos forem atendidos antes da transição se completar?

Existe ainda uma possibilidade de que com a acomodação do regime às demandas dos EUA acabe a pressão pela transição de regime completa.

Os interesses norte-americanos na América Latina têm evoluído rapidamente nos últimos anos e vão de uma macroestratégia de anti-acesso e negação de área à outras potências (o Corolário Trump), passando por interesses comerciais específicos em cada país como acesso privilegiado a determinados recursos e à cobrança de um alinhamento político e econômico com Washigton (taxações, apoio em eleições e busca de mudanças de regimes); até questões domésticas que podem interferir nas eleições de meio de mandato em novembro de 2026, quando a Câmara e o Senado serão renovados (narcotráfico e migração). Todos estes elementos fazem parte da balança onde estão os interesses norte-americanos, mais gerais.

Com relação à Venezuela, acordos comerciais que facilitem o acesso americano às reservas de petróleo pesado, colaboração incondicional aos processos de deportação dos migrantes venezuelanos nos EUA e compromissos públicos de combate ao narcotráfico e respeito aos direitos humanos podem ser condições suficientes para desescalar a pressão sobre o regime chavista e permitir que se mantenham no poder com uma nova fachada.

Novamente aqui é preciso fazer um alerta: essa não é uma escolha moral, mas sim uma escolha pragmática, baseada em interesses, acomodações de expectativas a avaliação dos custos e riscos de manter a pressão e realizar novas intervenções por meio da força no país caribenho.

A síntese aqui é: a Venezuela deve mergulhar em um período de incertezas até que as forças órfãs de Nicolas Maduro consigam se reequilibrar no poder e decidir se e como vão lidar com as vontades dos EUA e manter sua própria autonomia. É preciso acompanhar as próximas semanas e meses com atenção.

Ninguém tem as respostas pronto de qual será o caminho que a Venezuela vai seguir e suas consequências: temos expectativas. Assim como milhares de venezuelanos dentro e fora do país.

* Tássio Franchi é professor da Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército). Ricardo de Toma é doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

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Fonte : CNN

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