Executivos de tecnologia que defendem a inteligência artificial há tempos propagam a narrativa de que a tecnologia mudará os empregos e trará uma nova revolução industrial. Os mais céticos acreditam que tudo não passa de marketing, enquanto alguns pesquisadores e executivos já estão alertando sobre questões de segurança.
A discrepância na forma como as pessoas enxergam a IA talvez nunca tenha sido tão evidente quanto na semana passada, após um artigo viral de um CEO e investidor da área de IA afirmar que a tecnologia está chegando para substituir qualquer trabalho que envolva ficar sentado em frente a um computador.
Mas talvez haja uma explicação mais simples para as posições tão divergentes: as pessoas usam diferentes tipos de IA de maneiras diferentes, embora todas sejam referidas da mesma forma.
“Há uma ampla gama de exposição e uso da tecnologia”, apontou Matt Murphy, sócio da Menlo Ventures, que liderou investimentos em empresas de IA, incluindo a Anthropic. “E isso também está mudando muito rapidamente”.
Pessoas que usam IA gratuita para tarefas básicas, como fazer listas de compras e planejar férias, podem estar vendo apenas um lado da tecnologia. Um relatório da Menlo Ventures publicado em junho passado estimou que apenas 3% dos usuários de IA são assinantes pagos, embora Murphy tenha dito à CNN que espera que isso mude rapidamente.
Mas quem paga tem acesso a outro recurso: agentes que podem realizar algumas tarefas para você, ao invés de apenas chatbots que criam respostas, além de limites de uso.
O agente Claude Cowork da Anthropic, por exemplo, está disponível apenas no plano Pro, a partir de US$ 20 por mês. O mesmo acontece com o agente de codificação Codex da OpenAI.
É esse tipo de IA que está alimentando as preocupações sobre o impacto da IA nos empregos, incluindo o argumento que Matt Shumer, investidor e ex-CEO de uma startup de IA, aborda no artigo que viralizou.
“Eu digo para a IA: “Quero criar este aplicativo. Aqui está o que ele deve fazer, aqui está mais ou menos como ele deve ser. Descubra o fluxo do usuário, o design, tudo”. E ela faz. Ela escreve dezenas de milhares de linhas de código”, escreveu Shumer.
Alguns especialistas, porém, estão mais cautelosos quanto à possibilidade dos casos de uso descritos por Shumer, mesmo com planos pagos, especialmente porque ele foi vago sobre qual modelo utilizou e que tipo de aplicativo a IA criou para ele. Shumer, por sua vez, afirmou à CNN que utiliza principalmente a ferramenta GPT-5.3 Codex da OpenAI e que estava trabalhando em um aplicativo de “complexidade média a alta” para fins de teste.
Tensões no setor
A versão gratuita dos aplicativos de IA não retrata completamente o potencial da tecnologia, de acordo com Emily DeJeu, professora que ministra cursos sobre o uso de IA em negócios na Universidade Carnegie Mellon. Ela apontou que seria “equivocado” fazer suposições sobre as capacidades da IA com base apenas em serviços gratuitos.
As empresas de IA, porém, estão cada vez mais disponibilizando recursos mais avançados na versão gratuita. Um exemplo disso é o lançamento, na terça-feira (17), de um novo modelo chamado Sonnet 4.6 da Anthropic, que, segundo a empresa, terá desempenho mais próximo ao dos modelos Opus mais avançados, disponíveis apenas nos planos pagos.
As ações de empresas de software despencaram no início de fevereiro, após a empresa de IA Anthropic lançar uma ferramenta que adaptava o assistente de IA especificamente para setores individuais, como análise jurídica e financeira. Esse lançamento, seguido pelo artigo de Schumer, alimentou preocupações de que a IA eventualmente automatizará amplamente o trabalho intelectual, da mesma forma que já está começando a otimizar os empregos de engenharia de software.
No entanto, também cresce o ceticismo sobre se a IA está correspondendo a essas declarações ambiciosas, muitas vezes feitas por executivos de tecnologia com interesses financeiros no sucesso da tecnologia. Alguns estudos lançaram dúvidas sobre a real capacidade da IA e a rapidez com que ela está sendo adotada.
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Fonte : CNN