Como principal autoridade de segurança nacional e líder de facto do Irã, Ali Larijani havia se tornado o principal arquiteto da estratégia militar e diplomática do país desde o início do conflito com os EUA e Israel.
Nesta terça-feira (17), Israel afirmou que ele foi morto em um ataque, uma ação que especialistas alertaram que poderia prolongar os combates.
Aos 67 anos, Larijani havia se tornado um símbolo visível do regime e sua continuidade.
Ele chegou a participar de um comício público em Teerã na semana passada, apesar de ser um alvo prioritário para Israel desde que a guerra começou em 28 de fevereiro.
Durante as duas primeiras semanas do conflito, Larijani também foi prolífico nas redes sociais, provocando o presidente dos EUA, Donald Trump, e, na segunda-feira (17), alertando muçulmanos em todo o Golfo Pérsico: “Vocês sabem que a América não tem lealdade a vocês, e que Israel é seu inimigo. Parem por um momento e pensem em vocês mesmos e no futuro da região”.
Se a morte de Larijani for confirmada, ela privará a liderança iraniana de uma de suas vozes mais poderosas, e pode dificultar quaisquer negociações para encerrar a guerra, disseram analistas.
Para muitos observadores, Larijani havia se tornado o “líder de facto do Irã” em meio às turbulências das últimas semanas, especialmente nos dias seguintes à morte do antigo líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
Ele tem sido um “verdadeiro integrante que passou décadas no centro do sistema, o que lhe deu credibilidade em diferentes partes da elite”, segundo Hamidreza Azizi, pesquisador visitante no Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança.
“A República Islâmica é projetada para sobreviver à perda de indivíduos, mas figuras com experiência tão diversificada não são fáceis de substituir”, afirmou Azizi.
Ataques israelenses, tanto em junho quanto na última rodada do conflito, mataram muitos comandantes e oficiais de segurança iranianos experientes. Mas a perda de Larijani é de uma ordem diferente.
Ele nem sempre pode ter sido um alvo. Uma fonte familiarizada com planos e discussões privadas disse à CNN que em setembro do ano passado, ele era o candidato de transição preferido dos EUA e Israel
Mas, depois que ele pressionou por uma repressão contra manifestantes iranianos, assumiu papel de destaque nos ataques contra os Estados Unidos e Israel e assumiu uma função central na estratégia de ações militares, Israel o colocou na mira no início de fevereiro.
Sua morte terá impacto imediato limitado na condução da guerra, mas seu gerenciamento político se tornará mais complicado, segundo Azizi, devido ao seu domínio sobre as mensagens políticas do Irã e seus contatos internacionais.
Alguém como o presidente Masoud Pezeshkian, um moderado largamente marginalizado desde o início do conflito, seria incapaz de reunir uma coalizão dentro da elite para negociar um fim para a guerra, acredita Azizi.
Seria necessária uma figura do calibre de Larijani para unir os lados e alcançar um acordo.
Meio século de serviço
Ao longo de quase cinco décadas, Larijani ocupou posições-chave no poderoso IRGC (Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica), no estabelecimento de segurança, na mídia estatal e no parlamento.
“Esse tipo de trajetória é relativamente rara” na República Islâmica, disse Azizi à CNN.
“A única posição que faltava em seu currículo era a de presidente”, acrescentou.
Larijani era um hábil navegador da política mutável da República Islâmica, um “conservador pragmático” que podia trabalhar em diferentes campos dentro do sistema, mantendo-se completamente leal à república, segundo Azizi.
Ele foi comandante no IRGC durante a guerra com o Iraque nos anos 1980, e posteriormente chefe da emissora estatal.
Larijani foi o principal negociador nuclear do Irã na primeira década do século. Diplomatas ocidentais que negociaram com ele o descreveram como sofisticado e inteligente, e cada vez mais ele tinha a atenção de Khamenei em questões de segurança, após sua nomeação como conselheiro em 2004.
Durante 12 anos, até 2020, ele foi presidente do parlamento do Irã, ampliando sua base de poder.
Em uma entrevista à CNN em 2015, Larijani elogiou o acordo negociado pela administração do então presidente dos EUA, Barack Obama, que limitava o programa nuclear do Irã em troca do alívio das sanções, descrevendo-o como “um começo para melhor compreensão de outras questões”.
Após o conflito do ano passado com Israel, Larijani retornou ao protagonismo como chefe do Conselho de Segurança Nacional e era considerado por muitos analistas como o tomador de decisões mais importante do país.
Ele também se tornou a principal voz internacional do Irã, mais até que o próprio Ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, com visitas recentes a Moscou, Beirute, Abu Dhabi e Omã.
Ele se encontrou com o presidente russo, Vladimir Putin, no final de janeiro e estabeleceu as condições do Irã para um acordo nuclear após visitar Omã, que estava mediando as conversas entre Washington e Teerã.
A posição central de Larijani dentro do regime foi reforçada pelo proeminente histórico clerical de sua família. Ele era casado com a filha de um importante aiatolá. Um de seus irmãos, Sadegh, também é um aiatolá e ex-chefe do judiciário iraniano. Outro irmão, Mohammad-Javad Larijani, também ocupou vários cargos na República Islâmica.
Larijani também era um acadêmico estabelecido. Formado originalmente em matemática e ciência da computação pela Universidade de Tecnologia Sharif, ele possuía doutorado em filosofia pela Universidade de Teerã e escreveu extensivamente sobre o trabalho do filósofo alemão Immanuel Kant.
Nos últimos dias, Larijani havia sido vocal e eloquente sobre a prontidão do Irã para um conflito prolongado.
“Diferentemente dos Estados Unidos, [o Irã] se preparou para uma guerra longa,” disse Larijani em uma publicação na rede social X, logo após os EUA iniciarem sua campanha.
Sua morte pode tornar a guerra ainda mais longa. Na segunda-feira, a mídia estatal anunciou que um ex-comandante da IRGC de 71 anos, Mohsen Rezaei, saiu da aposentadoria para se tornar o principal conselheiro militar do novo Líder Supremo do Irã, Mojtaba Khamenei.
Isso sugere que a liderança está se tornando mais dependente da geração da guerra do Iraque e, portanto, mais militarizada, disse Azizi à CNN – sem o contrapeso do pragmatismo de Larijani.
(Com informações de Christiane Amanpour, da CNN)
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Fonte : CNN