Durante grande parte de 2025, Washington procurou privar a máquina de guerra de Moscou de recursos financeiros, em parte ao afastar um de seus clientes mais fiéis: a Índia.
Sob pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a Casa Branca impôs altas tarifas sobre muitas das exportações de Nova Déli e sancionou duas das maiores empresas petrolíferas russas.
A estratégia parecia funcionar. Embora a Índia não tenha abandonado completamente o petróleo russo, reduziu drasticamente as compras, priorizando fornecedores do Oriente Médio.
Mas a ofensiva conjunta dos EUA e de Israel contra o Irã, na semana passada, fechou efetivamente o Estreito de Ormuz, por onde passa quase todo o petróleo do Oriente Médio.
O Irã também ameaçou atacar a infraestrutura energética de países vizinhos em retaliação aos ataques aéreos que atingiram importantes instalações de armazenamento de energia na capital, Teerã.
No domingo (8), os preços do petróleo ultrapassaram os 100 dólares por barril pela primeira vez desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, impulsionados por temores de novas interrupções e restrições na produção.
Com poucas opções, a Índia volta-se agora para o petróleo russo.
Reconhecendo a situação delicada de Nova Déli, os EUA concederam, na semana passada, às refinarias indianas uma isenção de 30 dias para comprar petróleo russo atualmente retido no mar. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que a medida visava “permitir que o petróleo continue a fluir para o mercado global”.
Após meses de pressão da Casa Branca para interromper as compras de petróleo russo, a Índia agora recebe autorização para fazê-lo, enquanto os lucros continuam a reforçar o próprio cofre de guerra que Washington passou um ano tentando esgotar.
Pressão sobre a Índia
Com a proibição da importação de petróleo bruto russo por via marítima, após a invasão em larga escala da Ucrânia por Moscou em 2022, o Kremlin conseguiu voltar-se para o leste, encontrando uma tábua de salvação econômica na China e na Índia.
Os dois países mais populosos do mundo absorveram milhões de barris por dia, a preços significativamente reduzidos.
Com uma população de 1,4 bilhão de pessoas e a economia de maior crescimento no mundo, a Índia emergiu como uma das principais compradoras da Rússia, defendendo suas aquisições como essenciais para sua segurança energética.
Mas, após retornar à presidência há pouco mais de um ano, Trump tomou medidas para romper esse vínculo.
Em agosto passado, ele anunciou planos de impor tarifas elevadas à Índia, acusando Nova Déli de lucrar com a guerra na Ucrânia ao comprar petróleo russo com desconto e revendê-lo com ágio no mercado global.
A Casa Branca impôs tarifas de 50% sobre produtos indianos – metade delas para punir diretamente Nova Déli por suas compras de petróleo russo – e, posteriormente, sancionou duas das maiores empresas petrolíferas da Rússia, numa tentativa de sufocar a principal fonte de divisas estrangeiras do Kremlin.
Por fim, a campanha de pressão surtiu efeito. Após meses de negociações, Washington aliviou as tarifas sobre Nova Déli, no mês passado, em troca de uma concessão: restringir o fornecimento de petróleo bruto russo.
Mas, à medida que mísseis e drones cruzam o Estreito de Ormuz, essa promessa está se desfazendo.
Dados da empresa de análise Kpler mostram que essa estreita via navegável canaliza entre 2,5 milhões e 2,7 milhões de barris das importações diárias de petróleo bruto da Índia, provenientes principalmente do Iraque, Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos.
Com o estreito efetivamente paralisado, aumentar o fornecimento russo parece uma solução óbvia.
Na sexta-feira (6), havia cerca de 130 milhões de barris russos no mar, segundo dados da Kpler. “Alguns desses barris poderiam ser redirecionados para portos indianos com relativa rapidez”, afirmou a empresa em nota.
Sumit Ritolia, analista de pesquisa da Kpler, previu que a Índia voltará “ao nível pré-sanções, comprando cerca de 40 a 45% do petróleo bruto da Rússia”.
‘Alívio temporário’
Embora a Rússia não tenha capacidade para preencher totalmente a lacuna deixada pela paralisia do Golfo, agora possui incentivo para maximizar a produção – além da influência necessária para exigir um preço premium.
No entanto, como observou Farwa Aamer, diretora de Iniciativas para o Sul da Ásia no Asia Society Policy Institute, a isenção de 30 dias é uma “medida temporária” que traz “limitações, condições e um prazo”.
“Essa isenção pode oferecer um alívio temporário à Índia, mas não é suficiente para atender às demandas energéticas do país”, disse ela.
Os carregamentos da Rússia também demoram mais para chegar aos portos indianos do que os navios-tanque do Oriente Médio.
A Índia possui “estoques de petróleo bruto para cerca de 25 dias e mantém estoques de gasolina e diesel para aproximadamente 25 dias”, disse uma fonte do Ministério do Petróleo à CNN, com uma “cobertura total de estoques de petróleo bruto e derivados equivalente a quase oito semanas”.
A fonte acrescentou: “Em termos de nosso estoque atual, estamos em uma posição confortável. Vamos aumentar nossos suprimentos de outras regiões e compensar a escassez de suprimentos provenientes do Estreito de Ormuz.”
Na sexta-feira (6), o secretário do Tesouro americano, Bessent, disse que os EUA podem suspender as sanções ao fornecimento de petróleo russo.
“Para amenizar a escassez temporária de petróleo no mundo, demos permissão à Índia para aceitar petróleo russo. Podemos suspender as sanções a outros tipos de petróleo russo”, disse ele à Fox Business em entrevista na sexta-feira (6).
Essa mudança na política dos EUA ocorre em um momento em que analistas alertam que as tensões em curso estão afetando o fornecimento global.
“Quanto mais prolongada for a crise no Oriente Médio, maior será a pressão sobre os mercados globais de energia e maior será a probabilidade de uma crise energética para economias importadoras de petróleo como a Índia”, disse Aamer.
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Fonte : CNN