A crescente demanda pela fécula de mandioca no mercado interno e externo tem estimulado o avanço da produção da raiz em diversas regiões do Brasil. Entre 2017 e 2024, a produção nacional aumentou quase 60%, alcançando cerca de 19 milhões de toneladas, segundo dados da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
A fécula é o amido puro extraído da mandioca e possui mais de 800 aplicações industriais. Os usos mais comuns estão nas indústrias de alimentos, têxtil, papel, colas e tintas. No país, o Paraná lidera a produção de mandioca destinada à indústria.
“O Paraná é o principal produtor, seguido por Mato Grosso do Sul e São Paulo. Esses três estados representam quase 37% da produção brasileira de mandioca e mais de 80% da produção nacional de fécula”, explica o pesquisador do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), Fábio Felipe.
De acordo com o relatório mais recente do Cepea, a produção brasileira de fécula de mandioca atingiu 689 mil toneladas em 2024. O volume é o segundo maior da série histórica, acompanhada pelo centro de pesquisas desde 1990, e representa um crescimento de 17% em relação a 2023.
Do total produzido, 65% vieram do Paraná, 21% do Mato Grosso do Sul e 9,7% de São Paulo. O restante foi dividido entre estados do Nordeste e Santa Catarina.
O consumo acompanha esse movimento. Segundo o Cepea, mais de 640 mil toneladas de fécula chegaram à mesa dos brasileiros em 2024, principalmente na forma de tapioca e pão de queijo.
Entre as mandiocas cultivadas no Brasil destacam-se a de mesa, comum na alimentação doméstica, e a brava, destinada à produção industrial da fécula e da farinha.
Produção industrial
De acordo com o pesquisador Carlos Estevão, da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, a mandioca brava possui maior teor de HCN (cianeto de hidrogênio) e um ciclo produtivo diferente da variedade consumida in natura. Outra característica importante é a possibilidade de colheita mecanizada.
A planta pode ser colhida a partir de nove meses, mas muitos produtores optam por estender o ciclo até 18 meses para aumentar a concentração de amido nas raízes. O plantio costuma começar entre abril e maio e pode se estender até agosto, dependendo da região.
O processo industrial para obtenção da fécula envolve várias etapas. Após a colheita, as raízes são lavadas e trituradas. Em seguida, passam por centrifugação para separar as fibras do chamado “leite de amido”. Esse líquido é novamente centrifugado e desidratado até se transformar em pó.
Além da tapioca e do pão de queijo, a fécula também é matéria-prima para amidos modificados utilizados em alimentos industrializados, como ketchup, maionese e embutidos, e aplicações na indústria têxtil.
Tapioca lidera o mercado
Um dos principais destinos da fécula é a produção de tapioca. Pesquisadores apontam que o avanço da produção e do consumo de tapioca está ligado à busca por uma alimentação considerada mais saudável. O movimento ganhou força principalmente na década de 2010.
“A tapioca começou a ganhar destaque no final dos anos 2010, justamente quando as redes sociais e os influenciadores também tiveram um grande crescimento”, afirma José Barreto, CEO da Akio Alimentos.
A empresa viveu uma expansão acelerada entre 2008 e 2016 impulsionada por essa tendência. Atualmente, a tapioca representa mais de 60% do faturamento da companhia. Em 2025, a Akio produziu mais de 2.200 toneladas do produto.
Segundo Carlos Estevão, da Embrapa, a versatilidade da fécula também contribuiu para essa expansão.
“Nos últimos três anos a produção cresceu e o mercado mudou, antes era focado na fécula nativa. Hoje vemos uma grande diversidade de produtos, como tapioca, polvilho azedo e misturas para pão de queijo. O segmento de produtos fitness explica boa parte dessa mudança”, diz.
Estevão ressalta que, em 2015, cerca de 80% do mercado era composto por fécula nativa. Atualmente, esse percentual deve estar próximo de 70%, com espaço crescente para produtos derivados e para o chamado amido modificado, de maior valor agregado.
Fábio Felipe, do Cepea, observa que a participação da tapioca nas vendas da indústria também aumentou de forma expressiva.
“No início dos anos 2000, as vendas de tapioca representavam cerca de 3% do volume total comercializado pela indústria. Em 2024, esse número já ultrapassa 10%, o que mostra um crescimento bastante significativo”, afirma.
“Atualmente existem mais de 70 unidades industriais no Brasil. Apesar de alguns grupos possuírem várias fábricas, não se trata de um mercado concentrado. É possível dizer que a tapioca tem características próximas às de uma commodity”, explica.
José Barreto concorda. “No varejo, a tapioca acabou se tornando quase uma commodity. No final das contas, a maior parte dos produtos é feita basicamente com fécula e água, às vezes com algum aditivo para aumentar a vida de prateleira”, afirma.
Desafios do setor
Apesar do crescimento do mercado, o setor ainda enfrenta gargalos importantes. Um dos principais está na colheita da mandioca, que em muitas regiões continua sendo realizada de forma manual.
Para o pesquisador da Embrapa, o futuro do setor passa pela ampliação da mecanização e pela adoção de práticas mais sustentáveis ao longo da cadeia produtiva.
Barreto compartilha da opinião de Estevão. Para ele, investir em mecanização pode trazer ganhos que vão além da rentabilidade.
“O principal benefício é a padronização. Com menos interferência humana, é possível aumentar a escala de produção e reduzir perdas ao longo do processo”, afirma.
Fontes do setor acreditam que a tendência de alimentação voltada ao bem-estar continuará impulsionando a popularidade da tapioca nos próximos anos.
*sob a supervisão de Luciana Franco
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Fonte : CNN