No Carnaval brasileiro, o brilho das pedrarias muitas vezes ainda ofusca uma exclusão sistemática. Aos 43 anos, a cantora e atriz Pepita busca romper essa barreira como a única rainha de bateria trans na capital paulista, ocupando o posto na escola de samba Unidos de São Lucas.
Para ela, estar à frente dos ritmistas, é uma cobrança histórica de quem constrói a festa nos bastidores, mas é impedida de brilhar no centro dela.
À CNN Brasil, a artista conta que não aceita o rótulo de “novidade”. Ela enxerga sua coroação como a reabertura de uma porta que tentaram trancar após a passagem de ícones como Jorge Lafond, a Vera Verão, que reinou na mesma bateria há mais de duas décadas.
“Há 22 anos, Jorge Lafond foi rainha dessa bateria. Eu estou seguindo um legado que foi fechado. Não estou tirando o sonho de menina nenhuma de comunidade, eu estou seguindo o que foi interrompido. A Beija-Flor teve essa audácia lá atrás com a Eloína dos Leopardos. Eu não estou tirando lugar de ninguém, ali é o meu lugar”, comenta.
Contundente ao falar sobre como a comunicação especializada em Carnaval tentou torná-la invisível no início de sua trajetória da agremiação paulista, Pepita diz que adotou uma estratégia de resistência: o deboche contra quem a ignorou por preconceito.
“Os veículos de comunicação de samba não falavam de mim, não me filmavam, não tinham matéria minha. No veículo deles ‘não tinha isso’. Então agora, quando eu vejo uma câmera, eu dou as minhas costas. Quero que eles me desenhem como quiserem, como antipática ou sem educação. Porque quando eu estava pronta, eles não me enxergaram por preconceito”, entrega.

O Carnaval nas mãos de quem faz a festa acontecer
Ainda em entrevista, a rainha afirma que, ainda hoje, a avenida é um espaço de resistência, especialmente para a comunidade LGBTQIA+, que “ergue os desfiles, mas é escondida nos barracões na hora do show”.
“O Carnaval é feito por pessoas pretas e pela minha comunidade. É a minha comunidade que faz a roupa, que coloca a rainha pedra por pedra, comendo quentinha no barracão, no calor. E por que não pode ter uma rainha de bateria travesti? Vai ter sim. Eles batem o pé e eu bato a mão. São obrigados a me engolir; não sei por onde vai sair, mas vão”, garante.
Para o desfile na São Lucas, a preparação foi intensa: 8 kg a menos e uma rotina de boxe iniciada às 7h30 da manhã, antes mesmo de acordar o filho, o pequeno Lucca Antônio, fruto do casamento com Kayque Nogueira.
“Eu emagreci pelo personagem que vou fazer na avenida. O mestre [de bateria] Wendell acredita em mim e viaja na minha jogada”, conclui a rainha, que segue provando que o samba, acima de tudo, é lugar de sobrevivência.
Integrando o Grupo de Acesso 2, o desfile da Unidos de São Lucas acontece no dia 7 de fevereiro, no Sambódromo do Anhembi. A agremiação será a quinta a passar pela avenida, com o enredo “Meu tambor é ancestral, heranças e riquezas de um povo…um Brasil de festas pretas!”.
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Fonte : CNN