Os ataques a navios comerciais no Oriente Médio neste mês praticamente fecharam o vital Estreito de Ormuz aos petroleiros, abalando o mercado de petróleo e levando os produtores a buscar outras rotas para levar seu combustível aos compradores em todo o mundo.
Uma das poucas alternativas passa pelo Mar Vermelho. A Saudi Aramco, maior produtora de petróleo do mundo, anunciou na semana passada que redirecionaria milhões de barris de petróleo bruto — normalmente carregados em navios no Golfo Pérsico e transportados pelo estreito — por meio de um oleoduto que vai até o porto de Yanbu, na costa oeste da Arábia Saudita, no Mar Vermelho.
O número de carregamentos diários de petróleo no porto já mais que dobrou neste mês em comparação com a média diária do ano passado, de acordo com dados da Kpler, uma empresa de dados e análises comerciais.
Mas agora até mesmo essa tábua de salvação está em risco.
Na segunda-feira (16), o Irã classificou as instalações navais dos EUA no Mar Vermelho como “alvos potenciais”.
“A presença do porta-aviões norte-americano Gerald R. Ford no Mar Vermelho é considerada uma ameaça ao Irã”, afirmou o comando militar unificado do Irã, segundo a agência de notícias semioficial Fars. “Portanto, os centros logísticos e de apoio que dão suporte ao referido grupo naval no Mar Vermelho serão considerados alvos potenciais pelas Forças Armadas do Irã.”
Mesmo antes do início da guerra atual, em 28 de fevereiro, o Mar Vermelho “não era exatamente um bastião de estabilidade geopolítica”, como afirmou David Oxley, economista-chefe de clima e commodities da consultoria Capital Economics.
No final de 2023, militantes houthis apoiados pelo Irã começaram a atacar embarcações no Mar Vermelho em retaliação à guerra de Israel contra o Hamas. A situação de segurança obrigou as empresas de navegação a redirecionar suas embarcações pela ponta sul da África, prolongando as viagens em semanas e forçando-as a gastar mais com combustível, seguros e salários dos marítimos.
O atual conflito regional e “a postura hostil contínua das forças houthis em relação à navegação comercial” significam que o nível de ameaça no Mar Vermelho é “substancial”, afirmou o Centro de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido em um comunicado divulgado na segunda-feira.
“O grupo mantém tanto a capacidade quanto a intenção comprovada de realizar ataques marítimos na região”, alertou.
Uma fonte israelense também disse à CNN na semana passada que havia indícios de que os militantes poderiam realizar ataques contra Israel, o que seria uma novidade desde o início da guerra.
“Não há saída”
Em plena capacidade, o oleoduto saudita que liga o leste ao oeste pode transportar 7 milhões de barris de petróleo bruto por dia, de acordo com a Saudi Aramco, compensando em certa medida os cerca de 15 milhões de barris por dia que normalmente passariam pelo Estreito de Ormuz.
Mas um recrudescimento da violência no Mar Vermelho poderia bloquear também esses fluxos de petróleo desviados, agravando os receios já existentes quanto ao abastecimento global e elevando ainda mais os preços do petróleo, afirmaram analistas à CNN.
Se os petroleiros que transportam petróleo saudita forem atacados no Mar Vermelho, “acho que veremos então um aumento significativo no preço do petróleo”, disse Naveen Das, analista sênior de petróleo da Kpler. “Porque isso basicamente sinaliza ao mercado que… todas as rotas de fuga (para o petróleo) estão sendo alvo… Não há saída.”
Oxley, da Capital Economics, afirmou que, caso a violência retorne ao Mar Vermelho e “bloqueie completamente” o fornecimento de petróleo bruto proveniente dessa região rica em petróleo, ele poderia prever que o preço do petróleo Brent, referência global do setor, disparasse para entre US$ 130 e US$ 150 por barril, partindo do nível atual de cerca de US$ 100.
E quanto mais tempo os preços do petróleo permanecerem altos, mais provável será que eles se reflitam na economia global como um todo, elevando uma ampla gama de preços ao consumidor, desde tarifas aéreas até custos de mantimentos.
Tráfego de navios porta-contêineres
Em contrapartida, o impacto de quaisquer ataques no Mar Vermelho sobre navios porta-contêineres que transportam mercadorias seria marginal, dado que a grande maioria dessas embarcações vem evitando a hidrovia desde o final de 2023.
Peter Sand, analista-chefe da Xeneta, empresa especializada em dados de transporte marítimo e aéreo, estima que cerca de 90% da capacidade de transporte de contêineres que costumava passar pelo Mar Vermelho tenha sido redirecionada ao redor do Cabo da Boa Esperança, na África do Sul.
No início de janeiro, a gigante dinamarquesa do transporte marítimo Maersk anunciou que retomaria parte do tráfego pelo Mar Vermelho, chamando-o de “a maneira mais rápida, sustentável e eficiente” de navegar entre a Ásia e a Europa. Mas, no início de março, a empresa suspendeu essa rota, citando riscos de segurança no Oriente Médio.
Falando sobre o setor de transporte marítimo em geral, Judah Levine, chefe de pesquisa da empresa de logística Freightos, disse à CNN nesta semana: “A situação atual atrasou o cronograma para um retorno em grande escala do tráfexe marítimo ao Mar Vermelho.”
Da mesma forma, Sand disse à CNN que era muito provável que muitas empresas de transporte marítimo evitassem o Mar Vermelho pelo resto do ano, observando que os custos de seguro para embarcações que percorrem essa rota aumentaram substancialmente desde o início da guerra.
“Embora não tenhamos visto ataques diretos por parte dos rebeldes houthis desde o início dos ataques (no Oriente Médio)… a ameaça é suficiente para, literalmente, afastar os navios porta-contêineres”, afirmou ele.
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Fonte : CNN